Um reitor para várias USPs

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    O lema da Universidade de São Paulo (USP), scientia vinces (vencerás pela ciência) é vivenciado diariamente em cada uma de suas 42 unidades. Se, de um lado, não há centralização, nem imposição de normas sobre como cada faculdade deve dirigir suas atividades, de outro, não há união em torno de um projeto único de universidade.

    Não há uma USP, mas várias, diz o reitor João Grandino Rodas. Desembargador aposentado, ele administra uma universidade com 110 mil pessoas, entre funcionários, professores e alunos, que é uma espécie de federação. A universidade mais importante do Brasil é a reunião de várias unidades, com objetivos próprios, como se fossem estados – todas com o sobrenome USP.

    Rodas defende a não intervenção e a autonomia de cada unidade: É inelutável que a USP continue dividida em diversos campi e unidades. Em entrevista ao Valor, o reitor falou sobre a importância de um sistema de incentivos aos professores, que sejam remunerados de acordo com a avaliação. Comentando as invasões da reitoria por estudantes e funcionários, advertiu para o risco de a universidade ser capturada por grupos políticos. Afirmou que não está rompido com a Faculdade de Direito, que dirigiu entre 2006 e 2010, onde foi declarado persona non grata no ano passado.

    Alguns imaginam que o grau de democracia dentro de uma universidade se mede pelo sufrágio universal, o que não procede

    Rodas argumenta que atua dentro de determinadas competências e, portanto, não pode fazer o que bem entende. É um entusiasta da vinda de alunos estrangeiros e da ida de uspianos para o exterior. Considera importante que se façam mais parcerias com o setor privado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

    Valor: É possível conciliar objetivos das diversas unidades da USP, como a FAU (arquitetura), a Poli (engenharia), a medicina e as Arcadas (direito)?

    João Grandino Rodas: Do prisma jurídico-administrativo, a USP é una, por ser autarquia pública, cabendo sua governança às autoridades centrais. Suas 42 unidades, entretanto, possuem relativa autonomia, mormente no que diz respeito às questões de ensino e pesquisa. As tendências gerais – como internacionalização e inovação -, muitas vezes incentivadas com políticas da universidade, são implementadas em graus diferentes pelas unidades. Tal estado de coisas é normal, embora gere, na prática, diferenças que são e devem ser percebidas pelo público em geral.

    Valor: Como assim? Há exemplos?

    Rodas: Há unidades de grande porte na USP que não possuem um único programa de dupla diplomação de graduação e de pós-graduação com universidades estrangeiras, enquanto outras, como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), já se engajaram há décadas e com grande êxito nesse importante mecanismo de internacionalização.

    Valor:

    Há como pensar num projeto conjunto de universidade?

    Rodas: Cabe à reitoria formular políticas e incentivar sua implementação por parte das unidades. Compete às unidades implementá-las, colhendo elas próprias os louros ou a reprovação social. Em suma, não há uma única USP, mas várias USPs, em diferentes estágios evolutivos, ou involutivos.

    Valor: A fragmentação em diversos campi e unidades é o maior desafio da USP?

    Rodas: Face ao modo de constituição e à tradição da USP, bem como ao enorme número de cursos oferecidos, é inelutável que a USP continue dividida em diversos campi e unidades. Cada unidade gera seus próprios cursos, cabendo a elas próprias a iniciativa de sua criação, modificação ou extinção. Órgãos colegiados centrais da universidade dão apenas a aprovação final. Assim, se determinada unidade não se preocupar com a atualização de seus cursos, não propuser reformulações ou mesmo a extinção de cursos obsoletos, pouco ou nada podem fazer os órgãos universitários centrais.

    Valor: É possível aumentar as parcerias com o setor privado?

    Rodas: As empresas ajudam a inovação e incentivam o empreendedorismo ao apresentar à universidade processos ou produtos que requeiram projetos de pesquisas originais. Os parques tecnológicos e as incubadoras de empresas são exemplos de união entre o meio universitário e o industrial e seus resultados são altamente promissores. Por outro lado, bolsas para pesquisa nos laboratórios universitários e vagas de estágio nas indústrias propiciam preparo adequado e antecipado de mão de obra para o mercado de trabalho. Na Escola Politécnica, houve a participação de fundos do setor elétrico e de petróleo. Graças às pesquisas universitárias, houve melhora sensível do desempenho do setor elétrico e grande desenvolvimento na exploração de petróleo em águas profundas. São emblemáticos os sucessos auferidos por projetos realizados com a Natura, a Vale e a Multibrás, com a participação da Fapesp. Há projetos que contemplam programa de treinamento de funcionários, desenvolvimento de pesquisa aplicada de interesse mútuo e programa que auxilie a universidade no processo de internacionalização.

    Valor:

    A reitoria tem interesse em aumentar o intercâmbio com universidades estrangeiras?

    Rodas: A elevação do status da comissão central de cooperação internacional a vice-reitoria executiva de relações internacionais, há dois anos, já surtiu efeitos com o aumento da interlocução, em número e em qualidade, com universidades estrangeiras de ponta, bem como no aliciamento das unidades da USP para a internacionalização. O aumento da presença da USP em universidades de ponta de todo o mundo é objetivo prioritário. Tal se dá, tanto na recepção, como no envio de professores e de alunos; nas parceiras de duplo diploma (graduação) e de orientação conjunta (pós-graduação). Um dos fundamentos do projeto pioneiro, que se inicia neste ano, de enviar mil alunos de graduação para Yale, Cambridge e Oxford, por 6 e 18 meses, insere-se no afã de aumentar ligação com universidades estrangeiras.

    Valor: O que é possível fazer para expandir a capacidade do sistema de educação superior?

    Rodas: Dificilmente isso poderia ser feito sem o concurso do ensino superior privado. Ademais, as universidades de pesquisa implicam a impossibilidade de ser elásticas até suprir a dimensão das reais necessidades. Isso, sem se falar no ônus adicional de esperar que as universidades brasileiras preencham as lacunas do ensino básico e médio, pífio na maioria das vezes. Seria bom que a USP e as universidades públicas paulistas – Unicamp e Unesp – conseguissem se expandir ilimitadamente. Entretanto, a manutenção da qualidade, exigência imprescindível e permanente de toda a universidade de pesquisa, o impede.

    Valor: Como situar a USP frente às universidades estrangeiras? Ela está em crescimento em relação a universidades de quais países?

    Rodas: A imagem da USP junto à grande maioria das universidades estrangeiras é muito boa, sendo tida como referência. A universidade tem melhorado substancialmente nas posições classificatórias das universidades. Em 2011, saltou 84 posições nos rankings da Q&S e 54 posições no Times Higher Education, além de ocupar posição relevante nos rankings de Xangai e da Higher Education Evaluation and Accreditation Council de Taiwan, respectivamente nas posições 116 e 78.

    Valor: Estar entre as 200 melhores universidades é satisfatório?

    Rodas: Estar entre as 200 melhores é extremamente relevante, pois há no mundo mais de 12 mil universidades. Para continuar a galgar posições, há de se trabalhar em muitas frentes, dentre as quais aumentar a qualidade das pesquisas, o número de citações em periódicos de impacto, o número de professores e pesquisadores estrangeiros na USP, a presença de alunos estrangeiros. Para tanto, devem-se criar mais e melhores condições para a pesquisa e para a recepção de estudantes estrangeiros, investir na melhora das condições de acolhimento de estudantes e pesquisadores, além de criar um ambiente cada vez melhor para as atividades de pesquisa.

    Valor: Como avançar mais nesses rankings internacionais?

    Rodas: Ao se falar, genericamente, em rankings, fala-se obviamente na classificação média da USP. Tal significa que, se classificadas por unidade, algumas estariam mais bem classificadas, enquanto outras ficariam em pior situação. Um único exemplo: a Faculdade de Medicina da USP aparece entre as cem melhores faculdades de medicina do mundo, sendo a unidade da USP detentora de melhor classificação internacional. Daí retiram-se dois corolários. O primeiro é que, para além da marca USP, classificada em bloco pelos rankings internacionais, há a colocação de cada unidade. Não há uma USP, mas muitas USPs. E, segundo, a cada unidade compete mostrar a que veio e em que classificação nacional ou internacional se encontra.

    Valor: É possível pensar num novo modelo para a eleição do reitor?

    Rodas: Olhando internacionalmente, há vários modelos para a eleição ou escolha dos reitores, sendo impossível eleger o melhor dentre eles. Os modelos em voga nas universidades europeias, das quais as universidades brasileiras se originaram e com as quais mais se identificam, vêm progressivamente dando ênfase à escolha profissional do dirigente máximo das universidades, havendo um número pequeno de eleitores. Nesse ponto, o modo de escolha atualmente predominante na Europa acabou por se aproximar da modalidade que sempre esteve em voga nos Estados Unidos. No Brasil, alguns imaginam que o grau de democracia dentro de uma universidade se mede pelo sufrágio universal, paritário de seu reitor, o que evidentemente não procede. Por outro lado, há de se levar em conta que, no Brasil, nem sempre se faz distinção entre a política partidária geral do país e política universitária, havendo tentativas de aparelhamento da universidade por partidos extrauniversitários, que passam a utilizá-la para seus fins próprios. Dentre as universidades mais bem situadas nos rankings internacionais, certamente, não figuram universidades assim capturadas.

    Valor: Quando a USP se vê diante de um problema, como, por exemplo, as invasões na reitoria, em quem o reitor busca ajuda?

    Rodas: Há a visão errada, propagada sem cessar por certos partidos, de que o reitor pode fazer o que bem entende na universidade. A realidade é outra: há, por força do estatuto e do regimento da universidade, vários órgãos colegiados, cujo número ultrapassa uma dezena, que devem examinar e aprovar previamente antes de qualquer ação reitoral. Mesmo no âmbito restrito de questões meramente administrativas, a reitoria não se cinge somente ao reitor, mas ao vice-reitor, quatro pró-reitores, dois vice-reitores executivos e quase uma dezena de superintendentes, que discutem as mais variadas questões e decidem. Foi implantada, nos dois últimos anos, a participação dos diretores das unidades da USP na própria administração central, por meio de contatos frequentes e duas reuniões anuais de todos os dirigentes da USP. No primeiro semestre do ano, há reuniões com grupos de diretores e, no segundo, de todos os gestores, com duração de três dias. Os resultados têm sido ótimos.

    Valor: As invasões da reitoria são página virada?

    Rodas: As invasões de prédios da USP, nas últimas décadas, chegaram a ser previsíveis no próprio calendário. Entretanto, a grande maioria dos uspianos e da sociedade civil cansou-se desse método violento e ilegal utilizado por certas minorias. Há meios legítimos em uma sociedade de direito plena, como a vigente de forma hodierna no Brasil, para resolver questões ou impulsionar mudanças. Por outro lado, os administradores públicos possuem deveres constitucionais e legais para a proteção da coisa pública que, se não forem cumpridos, vão redundar na sua própria responsabilização criminal e civil. Lembre-se de que a opinião pública brasileira tem despertado ultimamente e vem sendo dura contra os administradores públicos que pecam por omissão e inércia. Ninguém de bom senso confunde o exercício de meios de constrição judicial e legal, acionados por administradores públicos, com a repressão dos anos da ditadura.

    Valor: É possível alguma conciliação com a Faculdade de Direito? Ou as divergências levaram a questão para um patamar radical, sem possibilidade de se reatarem relações?

    Rodas: Tanto da parte da universidade quanto da minha própria, não houve qualquer ruptura de relacionamento. Tanto por ser impossível, pois a Faculdade de Direito é parte de uma mesma pessoa jurídica, a USP; quanto por não possuir grande sentido a expressão emocional de minoria partisan, mesmo que a maioria tenha preferido o silêncio.

    Valor: Professores elogiam a USP por lhes dar tempo para pesquisa, perspectivas de ascensão na carreira e status. Essa satisfação dos professores pode gerar acomodação? Como combatê-la?

    Rodas: Os docentes devem dispor de tempo para a pesquisa, além do tempo despendido em contato com os alunos. Tal modelo de universidade normalmente não induz à acomodação de seu corpo docente. A ascensão na carreira está baseada no desempenho do professor. Contudo, a USP, que prima por ser universidade de pesquisa, tem condições de aferir o desempenho docente, mesmo daqueles que já atingiram o ponto máximo na carreira, por meio da avaliação de desempenho do docente na graduação, do descredenciamento de docente de programa de pós-graduação, da supressão do regime de dedicação integral à docência e à pesquisa (RDIDP) e da comissão permanente de avaliação.

    Valor: Qual é o principal desafio para a USP neste ano?

    Rodas: O grande e sempre permanente objetivo da universidade é a docência, a pesquisa e a extensão dos serviços à comunidade. Obviamente, para que uma universidade de pesquisa, como a USP, se aprimore e galgue os melhores lugares nas classificações internacionais, há de serem cumpridos certos pressupostos. Na infraestrutura, há grande afã com a reforma e a construção de prédios, de bibliotecas, inclusive digitais, de laboratórios de pesquisa e de ensino, com a iluminação de todos os campi e o aumento da capacidade de gerência de dados, com a construção de data center de ponta. Todas as unidades da USP que apresentaram projetos fundamentados de melhora estrutural foram atendidas. Atualmente, a totalidade das unidades da USP, com pouquíssimas exceções, possui construções e implantações de monta em andamento.

    Valor: E com relação aos funcionários?

    Rodas: Foi aprovado e implementado, em 2011, moderno plano de carreira, baseado no mérito, que os valoriza, além de possibilitar sua permanência na universidade, com sempre crescente motivação. Já foi decidida, e será implementada em breve, a Escola Técnica e Administrativa da USP, que irá congregar todos o esforços da universidade em treinamento e educação continuada. Os funcionários e docentes poderão fazer gratuitamente os mais diferentes cursos, certificados pela USP, que serão levados em conta na progressão na carreira.

    Valor: É difícil equacionar o orçamento em meio a 42 unidades?

    Rodas: Nos primeiros meses de gestão, a atual administração juntou em uma única conta todo o orçamento então disponível, somando a seguir as projeções de orçamento para os quatro anos da gestão. Encontrada a soma total do disponível até inícios de 2014, foi possível programar os investimentos nos variados itens necessários, na acepção de que tudo o que foi e vem sendo feito possui perfeita cobertura orçamentária até sua conclusão. A programação feita possibilita enfrentar, de forma harmônica e isonômica, os principais desafios detectados no âmbito da universidade.

    Valor: E as verbas para pesquisa?

    Rodas: Um grande incentivo para a pesquisa foi a decisão, no ano passado, de destinar R$ 73 milhões do orçamento da universidade para financiar grupos de pesquisa. Face ao sucesso desse plano, no corrente ano, outros R$ 73 milhões estão sendo destinados a novos grupos de pesquisa.

    Valor: A USP pretende expandir ainda mais as suas unidades?

    Rodas: Um dos desafios, cuja resposta já foi iniciada, é a USP ao Mar, com a criação de um campus em Santos, com vocação específica de demonstrar a competência já existente da USP nas áreas tecnológicas (e de incrementá-la). A Escola Politécnica já oferecerá, em 2012, o curso de engenharia de petróleo, enquanto o Instituto Oceanográfico aprofundará suas pesquisas com o ajuda de dois navios oceanográficos que chegarão neste primeiro semestre, o maior deles sendo o Alpha Crucis, o mais bem equipado navio oceanográfico do Hemisfério Sul. O segundo desafio constitui-se em resposta à necessidade de engenheiros no Brasil: a Escola de Engenharia de Lorena praticamente dobrará o número de vagas e ampliará seu leque de cursos. Em ambos os casos, foi decisiva a parceria positiva com as unidades da USP apontadas, pois as autoridades centrais da universidade não poderiam lograr esses êxitos sozinhas.

    Valor Econômico/AC