Tensão no Golfo

  • Português
  • English
  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    Ameaça iraniana de fechar estreito de Hormuz parece improvável, mas embargo europeu pode agravar instabilidade em Teerã

    Não cabe dúvida de que um Irã armado com a bomba atômica traria ameaça adicional de conflito numa região do globo já por demais propensa à guerra.

    Há boas e pragmáticas razões, portanto, para tentar dissuadir aquela teocracia de concretizar o projeto indisfarçável de adquirir capacidade nuclear para uso militar -ainda que ao preço de congelar uma situação desequilibrada, em que vários de seus vizinhos, como Israel, Paquistão, Índia e Rússia, dispõem desse armamento.

    O que se acha em dúvida é se a escalada de pressões contra o Irã, acrescida agora do embargo da UE (União Europeia) à importação do petróleo iraniano, será eficaz para alcançar tal objetivo. O retrospecto indica que pressões variadas não têm surtido efeito.

    O embargo europeu é uma medida extrema. Suspende o fechamento de contratos novos de fornecimento e permite o cumprimento dos já firmados só até 1º de julho.

    Nada menos que um quinto das exportações petrolíferas do Irã se destinam à UE. Trata-se de um golpe nas finanças persas, ao qual se soma o banimento de transações com o Banco Central iraniano, como já fizeram os Estados Unidos. A meta é secar a fonte de recursos para Teerã levar à frente o programa nuclear que alega só ter finalidade civil (produção de energia).

    A decisão de embargar as importações se fez acompanhar de amea-ça não muito velada de ação militar: “Não aceitaremos que o Irã adquira uma arma nuclear”, afirmaram em comunicado líderes de Alemanha, França e Reino Unido.

    A mudança de patamar nas pressões alcança uma nação já em situação de grande instabilidade interna. O presidente Mahmoud Ahmadinejad perdeu o apoio do líder supremo do país, Ali Khamenei.

    A poderosa Guarda Revolucionária, controlada pelo aiatolá, possui frota própria de embarcações militares e prometeu fechar o estreito de Hormuz, no golfo Pérsico, por onde passa um sexto do petróleo global. A bravata foi atenuada nos últimos dias, mas pode ser revivida após a ação desafiadora liderada pela Marinha americana, que no final de semana fez circular vasos de guerra pelo estreito.

    O modo mais benigno de encarar as investidas dos países ocidentais é atribuir-lhes significado apenas tático. Seu propósito, desse ângulo, seria forçar o Irã a reabrir negociações consequentes com a Agência Internacional de Energia Atômica e dar respostas à equipe de inspetores que chega ao país no domingo.

    O único efeito indubitável do embargo, por ora, é o aumento da tensão no Oriente Médio. Crescem as chances de um incidente que transforme a escalada de pressões em crise militar -precisamente o oposto de seu objetivo inicial.

    Folha de S. Paulo/AC



    Rio Negócios Newsletter

    Cadastre-se e receba mensalmente as principais novidades em seu email

    Quero receber o Newsletter