Suspeita recai sobre obra ilegal em edifícil

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Especialistas apontam que reforma irregular em dois andares do Liberdade pode ter comprometido a estrutura do prédio e relatos reforçam a tese de engenheiros. Bombeiros encontram cinco corpos e há 21 desaparecidos. Governo estadual decreta luto de três dias

    Gabriel Mascarenhas

    As causas do desmoronamento que deixou pelo menos cinco mortos, seis feridos, 21 desaparecidos e transformou três edifícios do Centro do Rio em uma montanha de pó podem estar ligadas a duas obras que vinham sendo feitas no prédio de 20 pavimentos da Avenida Treze de Maio, o Edifício Liberdade, o primeiro a vir abaixo na noite de anteontem. O terceiro e o nono andares, ocupados por uma empresa de tecnologia da informação, vinham passando por reformas. Ambas eram clandestinas, já que não tinham sido registradas no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (Crea-RJ), conforme determina a legislação. Entre os cinco mortos, até o início da noite de ontem tinham sido identificados apenas Celso Renato Cabral Filho, 44 anos, e Cornélio Ribeiro Lopes, 73.

    Embora nenhuma hipótese tenha sido descartada e, apesar de testemunhas terem sentido cheiro de gás momentos antes do acidente, as características do desabamento praticamente afastam a possibilidade de um vazamento do produto ter provocado a queda das edificações, de acordo com os especialistas do Crea-RJ. “Não houve explosão e o prédio começou a ruir de cima para baixo, como se estivesse desmanchando. A maior possibilidade é ter sido um problema estrutural”, diz Luiz Antonio Cosenza, presidente da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do conselho.

    Proprietária de uma sala comercial no Edifício Liberdade – que provocou o desmoronamento do Edifício Colombo e do pequeno prédio que ficava entre os dois -, Teresa Andrade contou que todas as paredes do terceiro pavimento foram derrubadas durante a reforma: “Quando o elevador parava e abria a porta naquele andar, era possível ver que não havia mais nenhuma pilastra nem parede. Eu e meu sócio ficamos preocupados, mas não chegamos a reclamar com o síndico”, contou.

    Vinte e quatro horas após a tragédia, poucas perguntas sobre as causas do acidente haviam sido respondidas. Pressionado pela repercussão negativa do episódio, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), assegurou que todos os questionamentos serão respondidos: “Os três prédios são muito antigos, mas nenhum deles tem histórico de rachaduras ou de reclamações sobre abalos na estrutura. A perícia está trabalhando. E tem que ter uma reposta, porque, de fato, não podemos achar que a queda de três prédios é algo normal. Queremos acelerar o trabalho para que possamos saber o que aconteceu”.

    Mais cedo, a prefeitura informou que a prioridade era a busca por sobreviventes, e que a identificação dos responsáveis ainda estava sendo apurada. Até as 22h de ontem, porém, tanto os órgãos municipais como o Crea-RJ ainda não sabiam informar qual era a empresa contratada para realizar as obras no edifício que desmanchou, derrubando outras duas construções, de quatro e de 10 pavimentos.

    A prefeitura também informou que os três prédios estavam em situação regular, pois possuíam o Habite-se – certidão que atesta que o imóvel foi construído seguindo as exigências da legislação local -, e que o município não é responsável pela fiscalização de obras internas, apenas por reformas que alterem as fachadas das edificações. Intervenções no interior de imóveis devem ser registradas no Crea pelo engenheiro responsável pela obra. De acordo com o órgão, o último documento do gênero no Edifício Liberdade ocorreu em 2008.

    Luto

    O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), decretou luto oficial de três dias, mas não visitou o local da tragédia. Apenas ontem à tarde, cerca de 15 horas depois do desabamento, o governador veio a publico para comentar o episódio pela primeira vez, em entrevista à Rádio CBN. “Diante da tragédia, pelo menos não foi num momento de pico de movimento de um dos corações do Centro do Rio. Essa tragédia podia ter tido dimensões muito mais graves se tivesse ocorrido horas antes. Sem dúvida, a queda de um prédio de 20 andares, de um prédio de 10 andares e de outro com quatro andares é algo que choca em qualquer lugar do mundo. Resta ainda a esperança de que haja sobreviventes e, em última análise, resgatar os corpos e, depois, retirar os escombros”, afirmou Cabral. A estimativa é que todos os escombros sejam retirados em até dois meses.

    Dilma cancela agenda no Rio

    A presidente Dilma Rousseff cancelou ontem a agenda que cumpriria hoje no Rio de Janeiro devido à tragédia no Centro da capital fluminense. Ela participaria da inauguração de uma ponte ligando a Ilha do Fundão à Linha Vermelha, mas o evento foi cancelado. Estava previsto também um almoço no Palácio das Laranjeiras em homenagem ao governador Sérgio Cabral, que faz aniversário nesta sexta-feira. Ontem, Dilma enviou mensagem de solidariedade às vítimas do desastre. “Me solidarizo com a população do Rio de Janeiro, principalmente com as famílias atingidas por essa catástrofe”, afirmou a presidente. (Júnia Gama)

    Correio Braziliense/AC