Sonho de estudar no exterior exige planejamento

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  • Postado em 23 de janeiro, 2012


    Crise mundial aumenta incertezas sobre o comportamento do dólar. Empresas parcelam pagamento em reais

    Vinicius Neder vinicius.neder@oglobo.com.br

    Para quem aproveita o início do ano para planejar aquele curso no exterior, o cenário de 2012 está bem diferente do que em 2011. Agora, a crise das dívidas na Europa trouxe incertezas para as cotações do dólar. Ainda assim, as empresas do setor apostam na demanda aquecida – aumento da renda e necessidade de qualificação contribuem para isso. Segundo especialistas, as dúvidas sobre para onde vai o dólar não mudam o básico: sai ganhando quem se planeja com antecedência e prevê os custos item por item.

    No primeiro semestre do ano passado, a queda no dólar contribuiu para o aumento da demanda por cursos de intercâmbio. Na média, o dólar turismo está cotado a R$1,90 no Rio de Janeiro (no dia 18), 6,15% a mais do que em 18 de janeiro de 2011 (R$1,79). Em julho, porém, a moeda americana podia ser encontrada em casas de câmbio e nos bancos por R$1,65.

    Neste mês, os pacotes para estudar inglês nos Estados Unidos, por exemplo, estão custando de US$2.360 a US$2.670, em função da cidade e da agência de intercâmbio – com curso de um mês e hospedagem inclusos, sem a passagem aérea. Com o dólar a R$1,90, os preços variam de R$4.484 a R$5.342. Há um ano, o valor mínimo ficaria em R$4.224, R$260 a menos. As empresas parcelam em reais.

    Se os preços estão um pouco mais altos em reais, a solução é pesquisar. O primeiro passo é calcular todos os custos – passagem aérea, curso, alimentação, transporte e lazer. Tudo isso varia de acordo com o destino escolhido.

    – Do ponto de vista do planejamento, a alta do dólar de 2011 para 2012 não muda nada – destaca o professor de finanças Fábio Gallo Garcia, da FGV-SP e da PUC-SP, autor do livro “Como planejar a educação”.

    Planejamento deve começar pelo menos um ano antes

    Esse planejamento deve começar com de um a dois anos de antecedência. Foi o que fez a consultora Christiane Francely. Em setembro passado, ela começou a pesquisar preços, montando uma planilha de custos. Em novembro, começou a juntar dinheiro. No mês seguinte, fechou o pacote para estudar inglês, por um mês, em Seattle, na Costa Oeste dos EUA. Ela embarcará em agosto.

    – Estarei com o curso todo pago 30 dias antes da viagem – diz Christiane.

    Segundo executivos das agências que trabalham com intercâmbio, as incertezas com o dólar não deverão adiar planos de estudar fora. O efeito atualmente sentido no setor é um aumento no questionamento por parte dos clientes. Na avaliação da gerente da EF Brasil, Silvia Bizatto, as pessoas estão se informando mais sobre opções e pesquisando preços.

    Fora isso, a demanda deverá continuar em alta. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Operadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta, na sigla em inglês), 282 mil estudantes brasileiros deverão fazer algum tipo de curso no exterior em 2012, movimentando US$2 bilhões. Apesar do cenário econômico de incerteza, a estimativa prevê crescimento de 31% sobre 2011, quando 215 mil estudantes foram para fora, segundo previsão da pesquisa encomendada pela Belta.

    – A motivação dos clientes é melhorar a qualificação profissional. A variação do dólar turismo não foi tão intensa e não influencia muito – destaca Marcelo Albuquerque, diretor da IE Intercâmbio.

    Procura por cursos cresce com busca por qualificação

    Essa busca pela qualificação está ligada ao aumento da renda dos consumidores, com o desemprego em baixa. Mesmo quem está empregado, para continuar crescendo, precisa de mais qualificação. É o caso da consultora Christiane, que decidiu estudar inglês fora para acabar de vez o que considerava uma lacuna no currículo. Sua opção foi por um curso intensivo, com aulas das 8h às 16h.

    – Escolhi Seattle justamente para ficar focada no curso. Na Europa, haveria a tentação de viajar mais e, portanto, gastar mais – diz Christiane, que também aproveitará a estadia na casa de uma amiga.

    De acordo com as agências, a crise internacional ainda não modificou o cenário de destinos mais buscados. O Canadá, citado por 90% das agências como o destino mais buscado na pesquisa da Belta, destaca-se pela relação entre custo e benefício. Os EUA têm recuperado terreno nos últimos anos, após deixarem a concessão de vistos mais flexível.

    A principal mudança é em relação à Irlanda. Nos últimos anos, o país atraiu brasileiros ao oferecer a oportunidade de aliar o estudo do inglês com trabalho. Mas como o país foi fortemente atingido pela crise – faz parte do grupo Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), de nações mais atingidos na Europa -, sumiram os empregos temporários.

    – A Irlanda teve seu momento, principalmente para pessoas que queriam trabalhar – diz Tereza Fulfaro, diretora educacional da Central do Intercâmbio (CI).

    Além disso, aumentos de preços por causa da variação do dólar ou da situação dos países em crise podem ser compensados com alternativas de destino, lembra Gabriel Freire, gerente regional da STB no Rio:

    – Os EUA, por exemplo, se destacam com a variedade de cursos e cidades.

    Para escolher o intercâmbio

    PROGRAMAÇÃO

    O primeiro passo é escolher o destino e calcular o custo total do intercâmbio. Devem ser considerados passagens, hospedagem, curso, mais alimentação e transporte.

    Depois, é preciso calcular quanto do orçamento será destinado mensalmente para formar um “fundo de viagem”. Se o prazo de acumulação for curto (menos de dois anos), o melhor é deixar o dinheiro em fundos de renda fixa, DI ou poupança, evitando aplicações de risco.

    Também é possível parcelar, em reais, o pagamento da viagem, abatendo as prestações do montante mensal destinado. O parcelamento é vantajoso quando não há desconto à vista.

    PASSAGENS AÉREAS

    Quanto maior a antecedência na compra da passagem, menores as tarifas. Mas os bilhetes aéreos mais baratos geralmente cobram altas taxas para alterações de datas. Neste caso, não pode haver atrasos em outros itens da viagem, como visto e reserva de hospedagem.

    INCERTEZAS NO DÓLAR

    Por causa da crise internacional, especialistas não são unânimes sobre o câmbio em 2012: um evento extremo pode jogar o dólar para cima, mas, se pouca coisa mudar, as cotações podem recuar. O dólar comercial começou o ano caindo, mas o dólar turismo, usado no varejo, em casas de câmbio e bancos, varia menos no dia a dia.

    Para se proteger do risco da moeda, uma opção é aplicar num fundo cambial, mas há cobrança de taxas de administração. Alternativa mais simples é comprar dólares em espécie ou carregar aos poucos o cartão pré-pago (no qual o crédito é colocado antes da viagem). Assim, garante-se uma cotação média, caso haja muita variação entre o início do planejamento e a confirmação dos gastos.

    O Globo/AC