Salvo pelo elevador

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Auxiliar consegue se salvar em desabamento ficando escondido onde ninguém recomenda em caso de acidente ocorrido em prédios: dentro do elevador

    (…) Depoimento a

    MARCO ANTÔNIO MARTINS DO RIO

    RESUMO

    O auxiliar de obras Alexandro Fonseca, 31, descia do elevador no 9º andar do edifício Liberdade na hora do desabamento. Ao ver que tudo desmoronava, jogou-se de volta ao elevador, que fechou as portas e despencou.

    Ele foi encontrado duas horas depois. Salvou-se contrariando uma das principais normas de segurança em casos como este: usar elevador.

    Segundo o coronel Luciano Sarmento, foi surpreendente o fato de Fonseca se salvar dentro do elevador. Para retirá-lo do local, as equipes de salvamento correram riscos. Cortaram uma barra de ferro, sob o risco de que os escombros caíssem sobre todos eles.

    “Chegava ao 9º andar para deixar o material da obra na qual estava trabalhando quando o teto, o reboco, tudo começou a cair. Minha primeira reação foi me jogar de volta no elevador.

    Assim que entrei, o elevador despencou. Eu me preocupei em me segurar. Sabia que não podia bater com a cabeça. Pensei que fosse morrer. Pensei que fosse ficar sem ver a minha família.

    Duas pessoas que trabalhavam comigo tinham ficado no térreo quando eu subi. Não tenho notícias deles.

    É difícil imaginar que vai acontecer um negócio desses. O que me salvou foi a estrutura do elevador. Ele caiu e de repente, parou. Achei que estava entre o 3º e o 4º andar.

    Estava tudo escuro. Minha única luz era a deste celular.

    Como vi que não me machuquei pensei que devia ligar. Liguei para um amigo que estava fora. Falava com ele a cada dez minutos.

    Até que ele me colocou para falar com um dos bombeiros. Os bombeiros gritavam: ‘Tem alguém aí?’ E eu respondia, de dentro do elevador: ‘Estou aqui!’.

    Havia uma pequena abertura e eu só via muita poeira, muita fumaça. Os bombeiros molharam um pano e a minha camisa para que eu colocasse no rosto e respirasse.

    Enquanto isso, cortaram um ferro na parte de cima do elevador. Eu, que sou magrinho [pesa em torno de 53 kg e mede cerca de 1,60 m], consegui sair por ali. Quando me pegaram, já me deram uma máscara para eu respirar.

    Eu estava calmo.

    Não ouvi explosão. Nada. Não tinha visto rachaduras no prédio. O único cheiro que senti foi de pintura.

    Não sofri nada. Nenhum ferimento. Nenhum corte. Fiquei em observação porque inalei muita fumaça até o bombeiro me tirar de lá. Mas não me feri.

    Foi um milagre. Rezei muito. Orei muito. Só penso em ver meus filhos. Faço aniversário dia 13, mas agora tenho outra data para comemorar. Eu nasci de novo”.

    Folha de S. Paulo/AC