Portos abertos

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Dilma vai a Havana para aprofundar a cooperação e explorar oportunidades criadas pelas reformas de Raúl Castro

    Rodrigo Craveiro

    A percepção de que as reformas econômicas implantadas pelo governo de Raúl Castro, nos últimos dois anos, abrem espaço para boas oportunidades de negócios é uma das motivações da visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba, entre amanhã e quarta-feira. Os cidadãos cubanos já podem comprar e vender carros e imóveis e trabalhar como autônomos. Por trás da primeira visita de Dilma à ilha como chefe de Estado está a ampliação do Porto de Mariel, destinado a se tornar o maior entreposto comercial da América Central e principal canal para as exportações e importações da região. Após o colapso da União Soviética, Cuba passou a depender do petróleo da Venezuela.

    O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financia as operações da construtora brasileira Odebrecht, responsável pelas obras em Mariel, a 43km de Havana, maior projeto de infraestrutura em Cuba. Cerca de 80% do montante têm participação brasileira, no valor total de US$ 683 milhões. Até dezembro de 2011, US$ 329,5 milhões haviam sido liberados pelo BNDES – cerca de US$ 230 milhões são utilizados em Mariel pela Odebrecht. A expansão portuária beneficiará tanto o Brasil quanto Cuba. O governo brasileiro ganhará um novo mercado, enquanto o regime castrista terá a possibilidade de impulsionar a economia, movendo até 1 milhão de contêineres por ano. A previsão é de que a ampliação esteja concluída em dois anos. As obras serão vistoriadas por Dilma na manhã de terça-feira.

    Integram a comitiva os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Aloizio Mercadante (Educação) e Alexandre Padilha (Saúde), além do secretário especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. A diplomacia brasileira considera a visita uma oportunidade para aprofundar o diálogo e a cooperação, com ênfase na agenda econômica. Em 2011, o comércio bilateral registrou o valor recorde de US$ 642 milhões, um salto de 31% em relação a 2010.

    Acordos

    Vista por especialistas como uma tentativa de guinada rumo a um “capitalismo socialista”, a abertura econômica de Raúl Castro inclui o fomento ao comércio. Assim que estiver pronto, Mariel será transformado num porto de grande profundidade, capaz de receber navios de até 15m de calado. Também escoará o níquel, além de outras matérias-primas cubanas. As obras envolvem ainda 2 mil metros de cais, pavimentação de estradas de acesso, iluminação e abastecimento de água. Durante os dois dias de visita, não serão assinados novos acordos de cooperação, mas haverá o aprofundamento de pactos nas áreas técnica, científica e tecnológica, especialmente nos campos da agricultura, da segurança alimentar, da saúde e da produção de medicamentos.

    A presidente manterá reuniões de trabalho com Raúl Castro e, segundo uma fonte do Palácio do Planalto, ela não abordará assuntos internos de Cuba, como a temática dos direitos humanos. Nos últimos dias, ativistas da oposição – incluindo a blogueira Yoani Sánchez e a líder das Damas de Branco, Berta Soler (leia entrevista nesta página) – indicaram a intenção de se reunir com a presidente. A visita de Dilma ocorre 11 dias depois da morte do prisioneiro político Wilmar Villar, que não resistiu a uma greve de fome de quase dois meses. A viúva de Wilmar, Maritza Pelegrino, e outros dissidentes acusam o governo cubano de negligência e assassinato.

    Em algum momento da agenda, existe a perspectiva de que Dilma seja recebida por Fidel Castro. A própria presidente solicitou o encontro com o comandante da Revolução Cubana, mas o Planalto não confirma se as autoridades de Havana acenaram positivamente. A possível reunião seria cercada por um forte aparato de segurança e não contaria com a presença da imprensa estrangeira.

    A historiadora carioca Claudia Furiati, biógrafa de Fidel, acredita que a visita de Dilma se insere em um contexto mais amplo do que os conceitos ideológicos ou políticos da Revolução Cubana. “É uma afirmação de fraternidade e de solidariedade, a confirmação de que o Brasil está aberto ao mundo”, explica ao Correio, por e-mail. “Ela faz parte do cenário de reformas e de uma visão prospectiva. Um exemplo é o Porto de Mariel”, acrescenta.

    Agenda preliminar

    Segunda-feira

    17h (20h em Brasília)

    Dilma Rousseff desembarca em Havana. À noite, janta com Raúl Castro no Palácio Museo de la Revolución

    Terça-feira De manhã, inspeção nas obras no Porto de Mariel, a cerca de 43km de Havana

    Almoço com Raúl Castro e declaração oficial de ambos à imprensa

    Jantar oferecido à presidente pelo embaixador brasileiro José Martins Felicio, na sede da representação

    Quarta-feira 8h (11h em Brasília)

    Dilma embarca para Porto Príncipe, no Haiti

    Raúl ataca os dogmas

    O presidente de Cuba, Raúl Castro, abriu ontem a Conferência Nacional do Partido Comunista convocando os militantes a vencer preconceitos que freiam as reformas econômicas. “A primeira coisa que estamos obrigados a modificar na vida partidária é a mentalidade, que, como barreira psicológica, é o que mais nos dá trabalho, por estar atada a dogmas e critérios obsoletos”, discursou Raúl, citado pelo jornal oficial Granma. A conferência, convocada pela primeira vez na história do PC, se segue a um congresso partidário que consolidou o programa de reformas, chamado de “atualização do socialismo”. Até amanhã, os 800 delegados decidirão sobre mudanças na estrutura do partido único, em especial sobre a proposta de Raúl de limitar a dois períodos de cinco anos os mandatos dos dirigentes.

    Correio Braziliense/AC