Paradoxo na Petrobras

  • Português
  • English
  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    Os investidores receberam bem a nomeação de Maria das Graças Foster para a presidência da Petrobras, em substituição a José Sergio Gabrielli. As ações da empresa subiram quase 5% em dois dias.

    Graça Foster, como prefere ser chamada, tem sólida formação técnica e é tida como profunda conhecedora da empresa, na qual entrou como estagiária em 1978. Seu perfil seria semelhante ao da presidente Dilma Rousseff, dada à cobrança dura de subordinados.

    A reação do mercado é compreensível. Mais qualidade na gestão seria uma diferença em relação ao padrão de Gabrielli, que deixou de cumprir metas de crescimento da produção e permitiu expansão indesejável de custos administrativos. Com efeito, desde 2009 a produção de petróleo e derivados mal supera os 2 milhões de barris por dia.

    Como as dificuldades técnicas do pré-sal são de monta, tem aumentado o ceticismo quanto à capacidade da empresa de atingir o objetivo de produzir 2,7 milhões de barris diários em 2020. É duvidosa, da mesma forma, a capacidade da estatal de adequar-se ao modelo definido pelo governo Lula, que exige a sua presença, com 30%, em todos os projetos de exploração.

    A Petrobras também desempenha papel relevante na política industrial do governo, que pretende atingir 65% de conteúdo nacional no fornecimento de equipamentos, muitas vezes aceitando custos e prazos mais dilatados. Há, ainda, outros projetos discutíveis, como produzir etanol em grande escala.

    O governo, portanto, demanda em demasia, sobrecarrega a gestão e dá margem a ineficiências. A queda das ações nos últimos dois anos reflete essas inseguranças.

    Um outro problema, de longa data, é a contaminação política. A gestão anterior deixou-se pautar, mais do que o aceitável, por vinculações e interesses partidários.

    Presume-se que a nova presidente, por seu estilo e por sua ligação estreita com o Planalto, consiga minimizar essas influências e ampliar os esforços produtivos. Mas é preciso cuidado, pois o alinhamento puro e simples às estratégias da União -a maior acionista- pode ser nocivo aos minoritários.

    A nova direção precisará atuar de forma equilibrada, para atender aos anseios de tornar o país um importante exportador de petróleo e, ao mesmo tempo, melhorar a gestão da maior companhia nacional.

    Um controle mais direto sobre a Petrobras favorece, de pronto, um aumento da produção. Em perspectiva menos imediatista, porém, aumenta o risco de que a empresa termine por servir mais ao Planalto do que ao interesse público.

    Folha de S. Paulo/AC



    Rio Negócios Newsletter

    Cadastre-se e receba mensalmente as principais novidades em seu email

    Quero receber o Newsletter