O que as melhores fazem

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Difícil imaginar a centenária tradição acadêmica e a sobriedade científica na ponta da língua de todo um povo. Nos Estados Unidos, a expressão The Big Three se tornou popular para designar a trinca das maiores instituições de ensino superior do país: Harvard, Princeton e Yale. Mesmo quem não ostenta diploma ou cogita estudar em uma das três vetustas universidades reconhece seu peso. O termo suscita orgulho e credibilidade. Afinal, as universidades passaram a ser organicamente associadas com o local de onde saem lideranças de várias áreas, principalmente política e empresarial.

    É justamente a capacidade de atrair as melhores mentes de todo o mundo e operar na vanguarda do ensino e da pesquisa que diferencia essas instituições de milhares de outras e as tornam universidades de classe mundial, diz Ben Sowter, executivo da QS Intelligence Unit, responsável pela organização do QS World University Rankings.

    No caso de Yale, formação de líderes está no DNA. A universidade foi criada em 1701 com o objetivo específico de prover técnicos e autoridades políticas locais, em New Haven e Connecticut. Um século depois, o foco era regional. Sem nunca descuidar da pesquisa, nos últimos 50 anos nosso objetivo foi preparar líderes em âmbito nacional – antes da eleição de Obama, os três presidentes americanos anteriores saíram de Yale, conta o moçambicano João Aleixo, responsável por América Latina no departamento internacional de Yale.

    Segundo ele, o desempenho da instituição é atribuído, sobretudo, ao corpo docente e ao seu modelo acadêmico de liberal arts college. Trata-se de uma espécie de bacharelado em que o estudante escolhe disciplinas genéricas nos anos iniciais antes de ingressar na graduação profissional. Todos os programas são realizados em período integral, e a vivência universitária é intensa.

    A formação é mais ampla no início e mais focalizada no fim, quando a pessoa deve dominar sua área de conhecimento. A maioria dos nossos 12 mil alunos vive em uma das quatro vilas acadêmicas de New Haven e se envolve no dia a dia da universidade. Cada um desses espaços é administrado por alguém que chamamos de ‘master’, pessoa que se formou em Yale, se tornou professor e conhece cada um dos pupilos, participa da vida deles e ajuda nas questões acadêmicas e até pessoais.

    A intimidade do relacionamento instituição-aluno é estratégica. E tem impacto significativo na manutenção da tradição e da qualidade do ensino. Também pode ser muito rentável. É comum o estabelecimento de associações de ex-alunos (alumni associations), responsáveis por promover e levantar fundos para a universidade. Desde 2007 e mesmo durante a crise, as doações de ex-alunos atingiram US$ 3,8 bilhões, conta Aleixo. O valor corresponde a praticamente dois orçamentos anuais da Universidade de São Paulo (USP).

    Nos últimos anos, o modelo de liberal arts college americano foi disseminado na Ásia e está relacionado com o avanço da China e da Coreia do Sul nas listas internacionais de melhores universidades, explica Sung-Sang Yoo, professor da Hankuk University of Foreign Studies, da Coreia do Sul, e pesquisador da University of California (Ucla). Universidades globais claramente remodelaram a educação superior asiática nos últimos 15 anos em termos de estratégia acadêmica e desenvolvimento de mercado. Na Coreia do Sul, por exemplo, o sistema americano é popular e influente no sentido de dar às universidades maior competitividade internacional em áreas de pesquisa, ensino e cooperação global. A maioria dos doutorados aqui só tem professores americanos, diz Sung-Sang.

    Pela lista da QS, das 50 melhores universidades do mundo 35 estão nos EUA e na Inglaterra e as outras 15, distribuídas no Canadá, em Hong Kong, na Coreia do Sul – onde as aulas são ministradas em língua inglesa -, na França, na China e no Japão.

    Cambridge, Harvard, MIT, Yale e Oxford aparecem nas cinco primeiras posições. A USP figura entre as 200 melhores. Reputação acadêmica, empregabilidade, citações por faculdade, perfil dos estudantes e proporção de faculdades internacionais e alunos estrangeiros são os grandes critérios do ranqueamento.

    Rankings podem ser voláteis e focar diferentes aspectos de uma universidade, embora forneçam um bem-vindo encorajamento para a área docente e as estratégias no campo de pesquisa. Eles se consolidam quando se alinham com os indicadores que cada instituição procura desenvolver em busca da melhora da qualidade, analisa John DuBois, da University of Melbourne, 31ª colocada na lista da QS.

    Um ponto forte da instituição – que a ajudou a galgar posições no mercado acadêmico – foi sua internacionalização: quase 25% de seus 49 mil alunos são estrangeiros, de 129 países diferentes. Eles querem competir com os melhores estudantes das melhores universidades do mundo inteiro para enfrentar desafios e se estabelecer como cidadãos globais, complementa DuBois.

    Mais de 20 pessoas trabalham com João Aleixo na área internacional de Yale com o objetivo de expandir os tentáculos da universidade e atrair talentos. Cerca de 20% dos 12 mil alunos nos EUA são estrangeiros, e até outubro Yale abrirá uma faculdade em Cingapura – a título de referência, 2% dos alunos da USP vêm do exterior.

    Para Ben Sowter, da QS Intelligence Unit, a presença de mais de uma dezena de universidades de países emergentes no ranking de melhores do mundo reflete o crescimento econômico. A distância entre instituições como a USP em relação a outras, como Yale, Cambridge, não deve ser vista com descrédito. Há investimento pesado em pesquisa, o Brasil mais que dobrou sua produção científica e o número de mestres e doutores. Pelos critérios do ranking, a USP tem áreas muito fortes de pesquisa, reconhecidas internacionalmente, mas as salas de aula ainda são cheias para os padrões mundiais, há pouca capacidade de acolhimento das melhores cabeças do mundo e as pesquisas ainda não são muito citadas, embora exista a desvantagem de que a maior parte delas seja produzida em português.

    Valor Econômico/AC



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