O Petróleo é com ele

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Durona e de perfil técnico, Graça Foster, a nova presidente da Petrobras, terá de ser implacável para acelerar o pré-sal

    MALU GASPAR

    Preste atenção na senhora na foto ao lado. Ao ser anunciada oficialmente presidente da Petrobras no lugar de José Sergio Gabrielli no dia 9, a engenheira Maria das Graças Foster, de 58 anos, vai se tornar mais importante para o governo Dilma Rousseff do que a maior parte dos ministros. Caberá a ela administrar os 225 bilhões de dólares que a estatal vai investir até 2015, dos quais metade irá para o desenvolvimento das reservas do pré-sal. Só em 2012, para cada real injetado na economia pelo governo federal, outro real será aplicado pela Petrobras. Por seu caráter estratégico e poder de fogo, a companhia é um estado dentro do estado – a ponto de o ex-presidente Lula já ter dito que quando saísse do governo gostaria de comandá-la, para poder tomar algumas decisões que seu cargo não lhe facultava. Pois Dilma Rousseff encontrou uma solução ainda melhor. Escolher Graça, como é conhecida na Petrobras, é como se a própria Dilma 85 estivesse assumindo o leme da estatal.

    Viciada em trabalho, exigente com prazos e metas e difícil no trato com os subordinados, a nova mandachuva da Petrobras tem com a presidente da República uma amizade de mais de dez anos e por ela nutre uma forte admiração – capaz até de aliviar seu jeito carrancudo e pouco dado a demonstrações a públicas de afeto. Em 2008, ao receber um prêmio de uma entidade de financistas, Graça não conseguiu se conter nos agradecimentos. Gritou do palco para a então ministra, que estava na plateia: “Dilma, te amo!”.

    Formada em engenharia química. Graça chega à presidência da Petrobras depois de passar pela presidência da BR Distribuidora e pela diretoria de gás da estatal. Mãe de dois filhos e avó de uma adolescente, é casada com o empresário Colin Foster. Sua indicação, na semana passada, foi interpretada por investidores e políticos como o prenúncio de uma gestão técnica, mais pautada pela rentabilidade da estatal e menos pela cartilha ideológica do petismo. Daí a alta de 4% das ações da Petrobras no dia do anúncio da demissão de Gabrielli. Mas, diante de ligação tão estreita, é de perguntar se Graça terá pulso para arbitrar sobre temas que opõem cotidianamente os interesses da empresa aos do governo.

    Graça desfila todos os anos na Marquês de Sapucaí, pela escola de samba União da Ilha. E um dos poucos momentos de descontração que se permite a executiva, que entrou na Petrobras como estagiária, aos 24 anos. De família humilde, foi catadora de papel no Complexo do Alemão logo ao se mudar com a família de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. Costuma creditar à infância pobre seu jeito algo rude. “Estudei porque precisava estudar, precisava sobreviver” já disse.

    De tão temida, nos corredores da empresa ganhou o apelido de Caveirão, em referência ao blindado do Bope que aterroriza os bandidos das favelas cariocas. Atentos a esse traço de sua personalidade, quadros antigos da estatal preferem acreditar que Graça possa convencer Dilma a abrir mão de algumas de suas convicções. “Já participei de uma reunião em que vi Graça contestar a presidente com argumentos exclusivamente técnicos e Dilma ouviu calada”, conta um desses decanos.

    Um dos pontos em que as duas discordam – e em que em Lese, Graça poderia fazer diferença – diz respeito à Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que está sendo construída em parceria com a estatal venezuelana PDVSA. Assim como muitos técnicos da Petrobras, Graça considera o projeto um equívoco: o petróleo da Venezuela é mais difícil de processar do que o brasileiro, e a refinaria, planejada para atender também ao mercado externo, seria mais rentável se processasse petróleo exclusivamente nacional e vendesse só para o Brasil. Seus custos já triplicaram, mas até agora a PDVSA não entrou com a sua parte do investimento. Fosse no setor privado, a aliança já teria sido rompida. Mas, na Petrobras, continua, para não estressar as relações do governo Dilma com Hugo Chávez.

    Por ora, nada indica que a nova presidente da Petrobras esteja disposta a promover mudanças bruscas nos rumos da estatal. Imagina-se que ela irá com calma. O cuidado se justifica. Graça também carrega em seu currículo uma fragilidade. Seu marido, Colin Foster, é dono de uma empresa que presta serviços de tecnologia à Petrobras – e que já arrecadou 614000 reais em contratos sem licitação com a estatal. Uma investigação interna da empresa concluiu, porém, que não havia nada de errado com os contratos. Caso queira e consiga fazer essas mudanças, estará realizando uma proeza totalmente fora do alcance de seu antecessor. Dilma e Gabrielli nunca se entenderam. Entre os dois já houve discussões ásperas, berros e, dizem, até lágrimas – que ele nega. “Nunca chorei. Mas ela já gritou comigo, e eu já gritei com ela, como duas pessoas bastante firmes nas suas opiniðes”, disse Gabrielli.

    A presidente cogitava apeá-lo do comando da estatal desde que assumiu o cargo, mas cumpriu a promessa feita a Lula de mantê-lo por ao menos um ano. Gabrielli ainda fazia planos de ficar até 2013 e tinha o apoio do petismo. Mas a revelação feita por VEJA de que Gabrielli se reunia clandestinamente com o ex-ministro José Dirceu em um hotel de Brasília contribuiu para acelerar sua queda, até porque ele nunca se dispôs a explicar à presidente a que, afinal, se destinavam os encontros – realizados, a propósito, em horário de expediente. A contrariedade de Dilma com esse assunto é tão grande que, na semana passada, em resposta a um ministro que a questionou sobre a diferença entre Graça e Gabrielli, ela disparou: “Ela não participa de reuniões em hotéis”.

    Assim que deixar o posto, o atual presidente da Petrobras vai se tornar um dos secretários do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). Usará o cargo para preparar sua candidatura ao governo do estado em 2014 – algo que já ensaiou na própria Petrobras (neste Carnaval, por exemplo, a estatal patrocinará uma infinidade de blocos e trios elétricos de Salvador). Gabrielli pretende contar com a ajuda de uma disciplinada tropa de sindicalistas que instalou em cargos chave na companhia, incluindo os 22 companheiros baianos a quem deu cargos de confiança. Desde que eles continuem na empresa, é claro. Nos bastidores, a nova presidente da estatal já deu mostras de que pretende sacar dos postos os sindicalistas e alguns diretores.

    A principal missão atribuída a Graça pela presidente da República, no entanto, não é, desmontar o trem da alegria do sindicalismo ou tomar dos políticos o controle da empresa. A presidente quer que Graça acelere a exploração das reservas do pré-sal, capazes de transformar o Brasil em uma das dez maiores potências petrolíferas do mundo, mas que avança em ritmo lento. Um relatório do banco Credit Suisse demonstrou que faltam dinheiro, mão de obra e equipamentos para cumprir os prazos. Segundo o banco, no passo atual, a Petrobras chegará a 2020 produzindo, na melhor das hipóteses, 4,6 milhões de barris ao dia. Mais que o dobro de hoje, mas 30% menos que o previsto.

    Cumprir a missão pressupõe fazer a empresa render mais, gerando mais caixa, investindo em pessoal e, ao mesmo tempo, comprando equipamentos ao menor preço possível. A questão é como fazer isso em uma companhia que já queimou, nos últimos oito anos, 12 bilhões de reais só com subsídios aos combustíveis, para não ter de repassar os custos do mercado internacional aos consumidores nem os prejuízos políticos de grandes reajustes ao governo. Durante os mandatos de Lula e Dilma, a Petrobras foi a muleta que ajudou a abrigar a inflação dentro da meta, reduzindo investimentos quando necessário, para não encher a economia de dinheiro, e soltando as rédeas da gastança quando o governo precisava fazer caixa para fechar suas contas.

    Com tamanha sobrecarga, a estatal acabou investindo 22 bilhões de reais a menos do que o previsto nos últimos três anos e também não tem atingido as próprias metas de produção. “Esse é o resultado do que chamo de expropriação da Petrobras. Em nome de objetivos do governo, a empresa sacrifica o lucro e a produtividade e ainda pune seus milhares de acionistas”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Como se não bastasse, Graça ainda terá de fazer com que as contas da estatal absorvam o impacto financeiro causado pela exigência de que seus equipamentos tenham 65% de conteúdo nacional.

    Criada ainda no governo Lula e caríssima a Dilma, a obtusa norma, que vale também para as empresas privadas, visa, hipoteticamente, a desenvolver a cadeia produtiva do petróleo. Mas vem produzindo um problema atrás do ontro. Dois exemplos dessa encrenca saltam aos olhos. O primeiro é o petroleiro João Cândido, construído pelo Estaleiro Atlântico Sul, com dois anos de atraso na entrega e preço já maior do que o dobro do cobrado no mercado externo. O segundo abacaxi é a licitação de 21 sondas para o pré sal, adiada duas vezes por causa dos altos preços apresentados pelos estaleiros nacionais. A dificuldade em comprá-las a valores razoáveis no Brasil fez Gabrielli cogitar, acertadamente, em adquirir as sondas no exterior. A ideia foi rechaçada por Dilma.

    Os riscos do nacionalismo dogmático e o uso da Petrobras para ajudar a conter a inflação podem ser entendidos melhor por quem analisar o caso mexicano. Ou, mais especificamente, o que o governo do México fez com a monopolista Pemex, a estatal de petróleo que 6, ainda mais que a Petrobras, um estado dentro do estado. Lá, o lucro da Pemex é tomado imediatamente pelo estado e enviado a uma espécie de caixa único. Depois, o governo manda parte para projetos sociais e parte para os investimentos da estatal. O resultado é que a Pemex investe menos do que é necessário para reforçar suas reservas. E, embora o México seja ainda o sexto maior produtor de petróleo do .mundo, suas reservas não param de diminuir.

    No Brasil, para conseguir recursos para extrair o óleo do pré-sal, é preciso que a Petrobras se livre dessas amarras. Do contrário, não haverá geração de caixa, financiamento ou empenho que deem jeito. A esperança é que, quando o governo se der conta de que a temperatura subiu, ameaçando explodir os ambiciosos planos do pré-sal, uma lufada de bom-senso faça alterar essas regras. Esse é o ponto-chave do desafio de Graça Foster a frente da Petrobras.

    Revista Veja/AC