“O Brasil não consegue, no atual modelo, crescer sem inflação “

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  • Postado em 16 de janeiro, 2012


    No curto prazo, economista não vê grandes problemas para o país enfrentar a crise externa. Mas, no médio prazo, são necessárias reformas para que a expansão da economia não gere alta maior dos preços

    Eva Rodrigues

    No curto prazo, o Brasil terá que conviver com as circunstâncias de uma crise internacional de muito risco e, no âmbito interno, lidar com a inflação que se mostra resistente e com uma política fiscal que traz desafios enormes em termos de cortes de gastos.

    Mas o problema maior não está aí, diz o ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola.

    “Aparentemente, o Brasil está com dificuldades de crescer sem inflação no modelo que a gente tem hoje”, diz. Para o economista, o país pode estar perdendo fôlego e o Produto Interno Bruto (PIB) potencial-que é a capacidade de crescer sem inflação, estimada em torno de 4% – pode estar em trajetória de queda.

    Quais são os principais desafios brasileiros para 2012? A gente tem que olhar os desafios do Brasil em duas vertentes: a primeira é a gestão de política de curto prazo, onde estão presentes as circunstâncias de uma conjuntura internacional de muito risco, assim como a inflação interna que se mostra, mais do que elevada, resistente. Além de gerenciar os dilemas entre inflação e crescimento, o governo terá que lidar com a política fiscal para gerar um superávit primário que ajude a política monetária.

    Como fazer isso? Uma das características de 2011 foi a alteração do mix de política monetária, incluindo a política fiscal como umreforço à política de juros. Esse desafio é maior em 2012, com as pressões do aumento do salário mínimo e também pela dificuldade em repetir por dois anos consecutivos a redução de recursos de investimentos, especialmente os que precisam ter continuidade em função da Copa do Mundo.

    O cenário externo é problema? O cenário básico que temos para a economia internacional é de alguma recuperação nos EUA, com crescimento de 2%; crescimento muito bom nos emergentes, com a China em cerca de 8%, e Europa com expansão baixa, mas sem ruptura. Para Europa não prevemos calote de dívida soberana ou crise bancária.

    Nesse contexto, os efeitos serão sentidos no Brasil, mas não viramcenário negativo. Os preços das commodities ficam estáveis empatamares altos, com possibilidade de queda de preços no caso dos produtos metálicos.

    Mas vamos crescer? A política monetária expansionista iniciada em agosto, aliada ao início do desmonte das medidas macroprudenciais, é suficiente para a retomada de crescimento interno neste ano, em ritmomais forte ao longo do segundo semestre. Podemos ter expansão 3% e 3,5% em 2012.

    A inflação ainda é uma preocupação? A inflação em 12 meses ultrapassou7% em setembro do ano passado, mas desde então vem caindo e deve chegar a um mínimo de 5,2% entre abril e maio. O grande risco é que ela volte para o centro das preocupações com a volta do crescimento-se chegarmos ao segundo semestre com a economia aquecida demais e a inflação muito pressionada, em especial a de serviços, que superou 9% em 2011.

    O atual ciclo de queda nos juros básicos se encerra quando? Nossa projeção é que os juros cheguem a 9,5%. Mas não descarto a possibilidade de o Banco Central parar os cortes em 10%.

    Acho melhor ser comedido na queda do que ter que subir juros em seguida – o sobe e desce é ruim. Mas o fato é que a política monetária está se materializando de tal maneira que é difícil trazer a inflação de volta à meta.

    Para crescer 3,5%, a inflação fica em quanto? Nossa projeção é de IPCA em 5,5%, que é uma situação melhor que a de 2011 tanto em termos de crescimento (a projeção da Tendências é de alta no PIB de 2,8%) como de inflação. Mas vejo dois problemas: primeiro, a inflação continua fora da meta. Segundo: há risco de a inflação estar com viés de alta – se isso se materializar, talvez tenha que haver novo aperto monetário.

    No médio prazo, onde o Brasil precisa avançar? No médio prazo o que está ficando mais desconfortável é a questão do crescimento. Aparentemente, o Brasil está com dificuldade de crescer sem inflação no modelo que a gente tem. Depois de uma série de aperfeiçoamentos e mudanças institucionais no país, o governo tem adotado medidas que são negativas para o crescimento de longo prazo, e aí se incluem as medidas protecionistas ligadas a tarifas que foram implementadas recentemente.

    Ou seja, estamos indo paraummodelo de intervenção estatal e não ouvimos falar, por exemplo, em reforma das agências reguladoras que se transformaram em feudos políticos.

    Como isso afeta o crescimento?

    Depois da estabilização macroeconômica, vejo com preocupação o país com um crescimento zero no terceiro trimestre e que continua com a inflação de serviços muito alta. As políticas implementadas nos últimos anos foram eficientes para a entrada de muita gente no mercado consumidor, o mercado de trabalho no Brasil vai bem, mas a oferta não acompanhou. Os segmentos em que os preços ficaram comportados foram aqueles onde é possível importar – já em serviços a inflação explodiu. Então, a questão do médio prazo é a capacidade de crescimento do PIB potencial. Será que o tamanho das pernas do Brasil não está diminuindo? Será que o país está perdendo fôlego? A resposta para essa perda de fôlego está na ausência de reformas e nos pequenos assassinatos institucionais que vemos.

    Como assim? O Brasil tem carência de investimentos em infraestrutura e o governo não tem condições de fazer tudo. Por outro lado, não se pode pretender que o investidor privado seja atraído sem regras claras e uma formatação do negócio de forma que ele tenha ganhos. Além disso, o país precisa retomar o ciclo de reformas como a tributária, trabalhar na redução da burocracia e de todo tipo de amarras ao investimento, fazer reformas microeconômicas que levem a ganhos de produtividade, além de tornar mais flexível a execução orçamentária, que é muito rígida.

    Qual a sua avaliação do primeiro ano do governo Dilma? Em termos de diretrizes de governo, mudou muito pouco, há uma continuidade exceto na política fiscal. A mudança fiscal implicou maior esforço desde 2003 – esse foi o maior mérito do governo. No Legislativo, teve a aprovação da DRU (Desvinculação das Receitas da União), que foi positiva. Mas o governo anunciou a reforma tributária fatiada que não andou; e a regulamentação da Previdência do setor público, que é importante, deve sair neste ano. Agora, no conjunto, o que vimos no primeiro ano foi como uma colcha de retalhos: iniciativas pontuais e disfuncionais, que tiram imposto daqui e põem ali; e o governo se rendendo a lobbies setoriais.

    Já se fala em corte de R$ 60 bilhões no Orçamento deste ano.

    O senhor acha possível? Controle de gastos é uma guerra de várias frentes: há o controle de desperdícios, para tornar o gasto mais eficiente; outra frente é a eliminação da fonte do gasto, por exemplo tirar do governo aquilo que ele não deve fazer como alguns projetos de infraestrutura; outro ponto é evitar leis que deem privilégios e isenções.Então, a questão é o que o governo pretende cortar. Porque há o risco de se cortar vento, ou seja, o orçamento vem inchado e se corta a previsão de gasto, mas esse é um dinheiro que não seria liberado mesmo. O que é possível afirmar é que, considerando o déficit da Previdência, em 2012 para o superávit primário chegar a 3% do PIB vai ser muito difícil

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    Projeções para 2012

    3,5% é a estimativa de Loyola para a alta do PIB no ano.

    5,5% é a projeção para a inflação oficial, medida pelo IPCA.

    0,50 ponto percentual deve ser o corte da Selic nesta semana.

    9,5% é a quanto devem chegar a taxa Selic no fim do ciclo de cortes

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    O grande risco é chegarmos ao segundo semestre com a economia aquecida demais e a inflação muito pressionada, em especial a de serviços

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    O Brasil parece estar com dificuldade de crescer sem inflação no modelo que temos hoje.

    O governo tem adotado medidas que são negativas para o crescimento

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    A mudança na política fiscal implicou maior esforço fiscal desde 2003 – esse foi o maior mérito do governo de Dilma Rousseff no decorrer do ano passado

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    O risco é grande de a inflação estar com viés de alta – se isso se materializar, talvez tenha que haver novo aperto monetário (por parte do Banco Central)

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    (Sobre corte de gastos) é possível afirmar que, considerando o déficit da Previdência, em 2012, para o superávit primário chegar a 3% do PIB vai ser muito difícil)

    Brasil Econômico/AC



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