No Brasil, eles torcem…

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Cubanos residentes apostam em Dilma para reforçar a cooperação brasileira no desenvolvimento da ilha. Por lá, a expectativa é por mais intercâmbio e ajuda para aliviar o impacto do bloqueio econômico norte-americano

    Rodrigo Craveiro

    Eles estão a 5 mil quilômetros da terra natal, mas nem por isso perderam os laços com Cuba. Ao contrário: falam do país com amor e, ao mesmo tempo, nutrem um carinho especial pela nação que adotaram para viver. Cubanos residentes no Brasil acompanham com interesse a visita da presidente Dilma Rousseff a Havana e esperam que uma parceria econômica ajude a suavizar os impactos do bloqueio comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos há meio século. Um mestrado em história da política externa do Brasil, na Universidade de Brasília (UnB), fez com que Pablo Saínz Fuentes, 47 anos, trocasse a capital cubana pela brasileira em fevereiro de 1993. Ele e a mulher, Sol Elena Rodríguez Ávila, têm dois filhos: um nasceu em Cuba, o outro no Brasil. “Meu maior desejo é ver meus dois países se transformarem em parceiros cada dia melhores”, afirma ao Correio. Para ele, a visita de Dilma vai estreitar ainda mais os laços.

    Pablo vê o Brasil como um país gigantesco e em extraordinário crescimento econômico, caminhando na contramão da crise global. “Qualquer colaboração do Brasil é sempre bem-vinda. Para o bem dos dois povos, é importante um intercâmbio comercial justo e equilibrado”, observa. Sol concorda com o marido sobre a importância da visita. “Cuba tem muito a oferecer no campo da saúde, com a pesquisa e a produção de medicamentos. Na educação, com métodos de ensino e de alfabetização (99,8% dos 11 milhões de cubanos sabem ler e escrever). E no esporte”, acrescenta a presidente da seção de Brasília da Associação Nacional de Cubanos Residentes no Brasil (Ancreb). Segundo Sol, o Brasil produz quase tudo de que Cuba necessita. Ela cita investimentos brasileiros na ilha nos ramos da construção civil, da prospecção de petróleo e da venda de produtos alimentícios e equipamentos.

    Professor da Universidade Federal do Maranhão, Reynaldo Portal Domingo, 56 anos, mora em São Luís desde agosto de 2006. Também natural de Havana, ele explica que o relacionamento entre os dois povos começou a progredir desde o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A Dilma está dando continuidade a esse processo. O Brasil é a sexta economia do planeta e desempenha um papel transcendental no apoio aos países da América Latina”, acredita.

    Reynaldo destaca que Cuba tem sofrido “uma permanente agressão” com o bloqueio econômico imposto pelos EUA, o que causou problemas ao desenvolvimento. Muitos desses gargalos, segundo ele, podem ser minimizados com a cooperação do Brasil. “Um exemplo é o que vai acontecer no Porto de Mariel, além de parcerias nas áreas de educação, petróleo, biotecnologia e comércio de alimentos, roupas e calçados”, pontua. O Porto de Mariel é considerado emblemático, pois foi ponto de partida para centenas de cubanos que partiram para a Flórida nos anos 1980.

    Turismo O professor radicado na capital maranhense espera do Brasil apoio para a agricultura, setor que o governo cubano tem procurado impulsionar e desenvolver, nos últimos anos. “Cuba poderia dar suporte nas áreas da medicina e da defesa civil, a fim de minimizar os impactos das frequentes calamidades climáticas que afetam o Brasil”, afirma Reynaldo. Ele também pretende ver um aquecimento no turismo e julga inacreditável que não exista um voo direto entre os dois países. “Seria muito bom que os brasileiros conhecessem in loco a realidade cubana. O turismo permitiria aproximar as culturas dos nossos países”, sustenta.

    Magdalena Torbisco Dacosta, 60 anos (15 deles no Brasil), demonstra entusiasmo com a visita de Dilma a Havana, cidade onde ela nasceu. Para a presidente da Ancreb, o gesto é excelente para “continuar a fortalecer os laços de amizade e de cooperação entre os dois povos e governos, promover um maior conhecimento da cultura e dos valores nacionais e seguir avançando na necessidade urgente do fortalecimento da unidade latino-americana”. “Sou otimista e penso que a visita será um sucesso. Acredito que serão abordados todos os assuntos essenciais que convenham aos dois países, num clima de respeito e de vontade de cooperação”, destaca Magdalena, que mora no Rio de Janeiro. Ela afirma não ter dúvidas de que os cubanos receberão Dilma como ela merece, “por sua história, por sua competência à frente do governo e pela postura respeitosa com Cuba”.

    A representante dos cubanos no Brasil acha que o país que ela adotou pode se beneficiar das experiências da ilha na área da saúde pública e cooperar com fortes investimentos no desenvolvimento industrial, na modernização e na mecanização da agricultura. Com a atualização do modelo econômico e a proliferação do trabalho autônomo, como parte das reformas de Raúl Castro, ela espera ver mais troca de experiências e insumos. “Pelo que sei, Brasil e Cuba já firmaram vários acordos de cooperação. Com certeza, essa viagem permitirá progredir nesse trabalho”, conclui Magdalena.

    Correio Braziliense/AC