“Ninguém aguenta mais a carga tributária elevada nem a corrupção”

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Antonio Maciel Neto construiu uma sólida carreira como executivo. Sua trajetória inclui o comando da Cecrisa, da área de cerâmica, do grupo Itamarati, de infraestrutura, e da subsidiária da Ford.

    Por Rosenildo Gomes FERREIRA

    Antonio Maciel Neto construiu uma sólida carreira como executivo. Sua trajetória inclui o comando da Cecrisa, da área de cerâmica, do grupo Itamarati, de infraestrutura, e da subsidiária da Ford. À frente da Suzano Papel e Celulose, ele enfrenta um de seus maiores desafios. Para tocar um ambicioso plano de investimentos, com desembolso previsto de R$ 4 bilhões apenas em 2012, a companhia acabou ampliando seu endividamento, o que deixou os analistas desconfiados. “Estamos apanhando porque fomos ousados”, diz ele. Nesta entrevista, Maciel Neto fala de seus planos à frente da empresa e defende medidas para reduzir a carga tributária, especialmente sobre os investimentos. “Antes de produzir a primeira tonelada de celulose na fábrica do Maranhão, já estamos pagando tributos”, afirma. “A unidade é apenas uma fábrica de impostos.”

    DINHEIRO – Em recente encontro com investidores, o sr. deixou claro que 2012 seria um ano decisivo na história da Suzano. Por quê?

    ANTONIO MACIEL NETO – A Suzano entrou em um ciclo de investimento muito arrojado. Somente em 2011, a companhia aplicou R$ 3,3 bilhões e a meta é desembolsar outros R$ 4 bilhões em 2012. Temos um “pipeline” de projetos que ninguém dispõe no mundo e inclui uma fábrica em Imperatriz, no Maranhão, e a base florestal da unidade que será erguida no Piauí. Além disso, estamos estruturando uma nova subsidiária, a Suzano Energia Renovável, e vamos fortalecer a FuturaGene, que atua na área de biotecnologia e que foi adquirida em julho de 2011. Apesar disso, nossa estrutura de capital continua sólida. A empresa fechou setembro de 2011 com R$ 3 bilhões em reservas e uma geração de caixa de R$ 1,2 bilhão. Isso mostra que não temos nenhum problema de liquidez.

    DINHEIRO – Por que, então, os analistas vêm a empresa com desconfiança?

    MACIEL – Estamos apanhando porque o mercado se concentra no fato de o nosso endividamento líquido ter ultrapassado em quatro vezes o Ebitda (índice que mede a geração de caixa). Nosso acordo com os investidores que subscreveram as debêntures previa o pagamento de multa de R$ 500 milhões caso isso acontecesse. Houve um acerto e ganhamos mais tempo para nos enquadrarmos nesse patamar. Nossa dívida subiu porque metade de nossos compromissos é atrelada ao dólar. E ao longo de 2011 o câmbio sofreu uma variação muito alta, o que tem um impacto contábil forte no curto prazo. Hoje, os analistas estão na expectativa de qual caminho seguiremos entre as seguintes opções para reduzir a dívida: recorrer ao aumento de capital ou vender ativos.

    DINHEIRO – O sr. já definiu o que será feito?

    MACIEL – Nossa intenção é vender ativos não estratégicos, como terrenos, e buscar sócios minoritários para nossos projetos em fase de implantação.

    DINHEIRO – O sr. acredita que o momento é propício?

    MACIEL – Estamos testando o mercado. Diversos bancos foram nomeados para encontrar potenciais parceiros e interessados em nossos ativos. Acredito que até o final de junho já tenhamos uma resposta em relação a isso. Quando o mercado está subindo, as empresas que não dispõem de projetos de expansão são penalizadas, pois há o temor de que elas percam mercado. Contudo, quando o mercado vive uma expectativa ruim no curto prazo, quem está investindo muito apanha.

    DINHEIRO – Isso não indicaria que a Suzano foi ousada demais?

    MACIEL – Acho que não. O plano da empresa foi desenhado em 2008 e revisto em 2010. Ele foi concebido com o horizonte de 14 anos e contempla diversas frentes. Algumas já estão bem adiantadas, como o fortalecimento da área de papel. O mercado olha para a Suzano e vê apenas uma empresa de celulose. Esquece que fizemos algumas aquisições em 2010 que nos permitiram dominar 30% do mercado nos quais atuamos e 30% da distribuição de papel no Brasil. Nessa área, nossa estratégia consiste em concentrar a atuação na América do Sul. A outra é a aposta na celulose de fibra curta, de alta qualidade. Acreditamos que a demanda por papel tende a crescer nos países emergentes, como China e Índia, onde não há abundância de celulose.

    DINHEIRO – Quais os outros setores contemplados nesse plano?

    MACIEL – Estamos ingressando também na área de energia por meio da criação da Suzano Energia Renovável. Cada uma das duas novas fábricas no Nordeste, com 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano, deve gerar um excedente anual de 100 megawatts de energia, que será vendido no mercado livre. Essa divisão também produzirá pellets (um tipo de lenha), usados na geração de energia a partir de biomassa. Seu foco é o mercado europeu. Viveiro de mudas de eucalipto que vai abastecer a fábrica de celulose, em construção no Maranhão.

    DINHEIRO – E quanto esses projetos devem adicionar ao faturamento?

    MACIEL – Se levarmos em conta a cotação atual da tonelada da celulose e dos pellets, na Europa, a receita bruta da Suzano, que foi de R$ 5,4 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro, cresceria em mais R$ 3 bilhões a partir de 2015, quando esses empreendimentos estiverem operando a plena carga. Além disso, teremos uma diversificação de nosso negócio, com a entrada no setor de energia renovável.

    DINHEIRO – Uma das principais bandeiras da Bracelpa, que representa o setor, tem sido a desoneração dos investimentos. Em que isso prejudica a Suzano?

    MACIEL – No nosso caso específico posso dizer que o investimento de R$ 5,5 bilhões já inclui uma despesa equivalente a 17% apenas com impostos. Desse montante, só conseguiremos compensar depois cerca de 7%, em forma de crédito tributário. Um verdadeiro absurdo porque nenhum país do mundo tributa investimento.

    DINHEIRO – O sr. integra a Câmara de Gestão criada pelo governo federal. Esse assunto vem sendo tratado no fórum?

    MACIEL – Esse é um debate que envolve empresários e integrantes do governo. No entanto, a questão da gestão vem ocupando boa parte das discussões. Mas, como a Câmara também trata de desempenho e competitividade, a questão tributária será, certamente, colocada em pauta no momento oportuno.

    DINHEIRO – O sr. comandou o principal grupo governamental de melhoria de qualidade e competitividade, na década de 1990. As empresas brasileiras evoluíram?

    MACIEL – Sem dúvida. Ainda estamos longe de países como Alemanha e Finlândia, mas é inegável que aconteceram muitos avanços.

    DINHEIRO – Mas as salvaguardas para têxteis e calçados não indicariam o contrário?

    MACIEL – Quando se compara um produto feito no Brasil e na China, por exemplo, o primeiro ponto que deve ser levado em conta é o câmbio. Diversos estudos indicam que, no caso do câmbio brasileiro, existe uma defasagem de 30% em relação ao ponto de equilíbrio, enquanto o custo de mão de obra é 20% menor naquele país em relação ao Brasil. Isso é um incentivo à importação. Nossas indústrias não devem nada em matéria de eficiência e qualidade aos competidores, mas, se fosse uma corrida de mil metros, os chineses já sairiam 500 metros na frente. Isso sem contar o custo de capital. A mesma fábrica que a Suzano está erguendo no Maranhão poderia ser construída com uma economia de US$ 150 milhões, montante que poderia ser usado para conceder desconto aos clientes, sem afetar seu ganho. Linha de produção de calçados, em Franca (SP).

    DINHEIRO – Essas questões também vêm afetando o setor de papel e celulose?

    MACIEL – Sem dúvida. A combinação de taxa de câmbio com excesso de capacidade nos Estados Unidos e na Europa fez com que a importação de papel imune, usado para produzir livros e que é isento de impostos, desse um salto violento. É claro que boa parte dessas importações é ilegal, o que causou um prejuízo anual para o governo de R$ 500 milhões na arrecadação de tributos. Alertamos o governo até que eles finalmente decidiram instituir a licença prévia de importação. Não se trata de fechar o mercado, mas sim evitar distorções que geram concorrência desleal. A gritaria e as acusações de protecionismo partem das pessoas que ganham dinheiro sem produzir nada.

    DINHEIRO – O que o sr. recomenda que seja feito em relação ao câmbio?

    MACIEL – Uma das medidas mais eficientes seria a contenção dos gastos públicos. Hoje, o governo toma boa parte da poupança interna para se financiar, o que tem impacto direto na taxa de juros. O efeito colateral disso é a atração de grande volume de capitais especulativos, que desequilibram o câmbio, que se tornou uma fonte de especulação. Por conta disso, eu defendo uma quarentena para investimentos estrangeiros não produtivos. Até porque teremos mais à frente os recursos gerados pelo pré-sal, que deverá trazer um tsunami de dólares para o Brasil. Outra medida importante é com relação aos impostos. É possível reduzir a carga e racionalizar a estrutura tributária sem perder arrecadação.

    DINHEIRO – Qual a sua avaliação do governo Dilma?

    MACIEL – Um de seus grandes acertos tem sido o combate à corrupção. Hoje, quando converso com empresários ou amigos, o que mais ouço são críticas à carga tributária e aos desvios de recursos. Ninguém aguenta mais a elevada carga tributária nem a corrupção. E isso se reflete no apoio que a população vem dando às medidas tomadas pela presidenta Dilma em relação ao combate à corrupção e na vontade de aprimorar os mecanismos de gestão do governo.

    DINHEIRO – Qual é a marca desse primeiro ano da presidenta Dilma?

    MACIEL – Acho que a vontade de melhorar a gestão e a qualidade do gasto público, gerando recursos para investimentos. A própria Dilma deixou claro, na instalação da Câmara de Gestão, que nenhuma sociedade evoluiu sem a adoção de medidas nessa direção. Isso aconteceu na Inglaterra, à época da Revolução Industrial, e nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra. Os destaques do primeiro ano foram o combate à corrupção e a continuidade na atenção às questões sociais.

    Revista IstoÉ Dinheiro/AC