Niemeyer à venda

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  • Postado em 29 de janeiro, 2012


    Complexo arquitetônico ganhará duas torres de 26 andares para hotel e centro comercial

    Renato Onofre

    renato.onofre@oglobo.com.br

    IMAGEM DIVULGADA no e-mail de um dos corretores, que mostra a área onde serão construídos o centro comercial e o hotel

    Reprodução

    Quem sempre sonhou em comprar um pedaço do Caminho Niemeyer, agora pode. A garantia é o chamariz da propaganda que começou a ser distribuída, por e-mail, a um círculo fechado de empresários de Niterói por corretores da Patrimóvel antes mesmo de o projeto ser apresentado e discutido pela sociedade. A prefeitura confirmou que a obra está em fase de licenciamento na Secretaria de Urbanismo. Os mais novos equipamentos do Caminho Niemeyer serão duas torres de 26 andares cada – dez pavimentos a mais que o gabarito permitido para o restante do Centro. Numa delas será instalado um hotel da rede Accor com mais de 240 suítes e 140 flats; noutra, um centro comercial com 440 salas.

    No e-mail encaminhado pelos corretores, eles ressaltam que as salas do centro comercial são o único projeto de Oscar Niemeyer que será vendido ao consumidor final. “… talvez a última chance de adquirir uma obra de arte do maior arquiteto brasileiro de todos os tempos”, diz o texto.

    A prefeitura nega qualquer tipo de irregularidade na obra e diz que a lei que delimitou a Área de Especial Interesse do Caminho Niemeyer prevê liberdade total para as propostas do arquiteto. A oposição é contra o projeto e alerta para o impacto ambiental e no sistema viário da região.

    – Se o Oscar Niemeyer aprovou a construção das torres e fez o projeto é porque ele entendeu que a obra vai valorizar o conjunto arquitetônico do Caminho. As torres serão mais um elemento de revitalização dessa região – afirma o prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT).

    Contudo, a reclamação pode parar no Ministério Público. A oposição quer a discussão pública sobre a construção do empreendimento.

    – Como se vende algo que nem existe ainda? A relação de promiscuidade entre o interesse privado e o público tem que ser investigada pelo Ministério Público – diz o presidente do PSOL, Paulo Eduardo Gomes.

    Por meio de sua assessoria de imprensa, a Patrimóvel afirmou que a proposta de venda não é oficial e que os e-mails enviados pelos corretores não são de responsabilidade da empresa. Já o presidente-executivo do Caminho Niemeyer, Selmo Treiger, explicou, também por meio de assessoria, que a execução do projeto não precisa ser discutida pela sociedade.

    Em meio à polêmica, a prefeitura apresenta, amanhã, no Conselho Municipal de Política Urbana (Compur), um projeto que cria regras especiais para a construção de hotéis na cidade. A proposta prevê aumento de gabarito em diversas áreas, como na Praia de Piratininga e em Camboinhas, com a justificativa de investimentos do setor de turismo que virão com a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas do Rio em 2016. Um grupo de conselheiros prepara uma ação judicial caso a proposta passe pelo Compur.

    – Cada vez mais, a prefeitura arruma artifícios para lotear a cidade para o setor privado. Não podemos permitir qualquer tipo de nova construção, não importa onde for, se a cidade não fizer uma avaliação profunda dos impactos viários e sociais que já paralisam a vida da população – cobra o presidente do Conselho Comunitário da Orla da Baía, José de Azevedo, que afirma ainda que a discussão pode, novamente, acabar na Justiça.

    Até mesmo entre os empresários do setor da construção civil, a nova legislação não agrada. Um conselheiro da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário (Ademi) de Niterói, que pediu para não ser identificado, afirma que a lei generaliza a ocupação sem que se pense caso a caso:

    – Podemos ter impactos sérios no ambiente visual de pontos de lazer e turismo da cidade.

    Do outro lado, a prefeitura argumenta que a lei foi feita em toda a cidade a pedido de associações do setor. Segundo o procurador-geral do município, Bruno Navega, a prefeitura decidiu criar regras gerais para toda a cidade a fim de não afastar os empresários interessados em construir em Niterói.

    – Um empresário não investiria recursos na compra de um terreno se não tivesse a garantia que poderia construir nele – explica Navega.

    De acordo com um estudo do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense, hoje, existem em Niterói 17 meios de hospedagem, que juntos somam um total de aproximadamente 1.100 leitos. Desses, apenas cerca de 30% podem ser considerados minimamente capacitados para atender às necessidades e às exigências de participantes de eventos de grande porte, como os que serão realizados em 2014 e 2016.

    Para a professora e coordenadora do curso de Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Paula Spolon, a rede hoteleira niteroiense é, em termos quantitativos, insuficiente para atender à demanda e está sucateada no que se referem a estrutura física, serviços e tecnologias operacionais e de gestão.

    O Globo/AC