Não pedimos ao Brasil para ser mediador com Irã

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  • Postado em 23 de janeiro, 2012


    ELIANE CANTANHÊDE

    Chanceler britânico diz que pressão do ocidente sobre teerã “irá crescer”; embargo a petróleo está no topo da lista

    Apesar de falar em ampliação de parcerias mundiais e em fortalecimento das relações bilaterais, o chanceler do Reino Unido, William Hague, não pede nem estimula a participação do Brasil na solução dos grandes conflitos internacionais.

    Em entrevista à Folha, semana passada, em Brasília, ele desconversou sobre a inclusão brasileira nas negociações sobre Irã, Síria e Oriente Médio -como o ex-presidente Lula tentava.

    “Não estamos pedindo ao Brasil para ter um papel mediador”, disse Hague, avisando que a pressão do Ocidente sobre o Irã “irá crescer”.

    Ele menosprezou o fato de o Brasil passar o Reino Unido como sexta economia mundial: “Essas coisas sobem e descem”.

    A seguir, os principais trechos da entrevista.

    Folha – O primeiro-ministro David Cameron acusou a Argentina de “colonialismo”. O que significa?

    William Hague – Concordo com o primeiro-ministro. Há uma tentativa de aumentar a tensão e estamos nos autodefendendo e defendendo a autodeterminação do povo das ilhas [Malvinas]. É errado dizer a um povo, em pleno século 21, que ele tem de fazer parte de um país do qual não quer fazer parte.

    A vinda do príncipe William como piloto para as ilhas justamente nos 30 anos da guerra entre Reino Unido e Argentina pela área é uma demarcação simbólica de território?

    Não, de forma nenhuma. É só parte das obrigações dele na Força Aérea Real. É claro, porém, que é bom homenagear as pessoas que morreram no conflito, e nós vamos fazer isso de várias maneiras.

    Qual a reação ao bloqueio do Brasil e outros países a navios com bandeira Falklands?

    Não concordamos com essa mudança de política, mas também acreditamos firmemente que nenhum desses países quer participar de bloqueio econômico ou algo assim das ilhas.

    O sr. prioriza viagens a países como Brasil, México e Turquia. O que muda na política externa do Reino Unido?

    Estamos expandindo nossa presença diplomática e nossas atividades no mundo. Lamento que tenhamos negligenciado tanto e durante tanto tempo a América Latina. Estamos abrindo consulados, como o de Recife, e reforçando os recursos da embaixada aqui [em Brasília] nas áreas de comércio, cultura, ciência e tecnologia.

    O foco é o comércio?

    Evidentemente inclui comércio, mas também dinamizar as oportunidades de trabalhos conjuntos, em cooperação. O programa Ciência sem Fronteiras, por exemplo, envolve 77 universidades britânicas e vai permitir que 10 mil estudantes brasileiros estudem no Reino Unido. Isso aquece nossas relações bilaterais. Também podemos trabalhar juntos em mudanças climáticas.

    Num discurso em 2010, o sr. disse que as exportações do Reino Unido mal chegavam a 1% das exportações para a região. Quantas décadas para reverter isso?

    Bem, eu não diria décadas. Nossa ambição é dobrar o comércio com o Brasil e o México entre 2010 e 2015 e o Brasil já é o quarto destino dos nossos investimentos. Há um fator único para essa tendência: é que vocês combinam a Copa do Mundo com as Olimpíadas.

    O que mais interessa da Copa e das Olimpíadas?

    Dividir experiências em segurança, transportes, etc. O Itamaraty será convidado para ver como conduzimos esses grandes eventos com muitos chefes de Estado e um volume enorme de pessoas do mundo inteiro. Nosso pessoal tem muita experiência nisso. E há enorme potencialidade de negócios para a iniciativa privada britânica.

    O Reino Unido está com ciúmes por ser ultrapassado pelo Brasil como a sexta maior economia do mundo?

    Não acredito, até porque essas coisas sobem e descem, esses rankings são assim. De fato, países como o Brasil começam a realizar seu potencial econômico. Isso é bom para o Reino Unido, para todo o mundo. Não há nenhum sentimento ruim, nenhuma insegurança.

    É verdade que o interesse das companhias britânicas por investimentos no Brasil cresceu expressivamente?

    É verdade. Nos últimos cinco anos, os pedidos e questionamentos que recebemos sobre investimentos no Brasil cresceram cinco vezes.

    Expandir o comércio para o resto do mundo é fugir da crise europeia?

    De maneira nenhuma. Não é possível fugir de crise nenhuma no mundo de hoje. Nós decidimos há muitos anos nossa aproximação com Brasil, Turquia, México, os “poderes emergentes”. Se você fortalece a aproximação com novos países, não significa que esteja enfraquecendo com os outros. Isso não é a Guerra Fria, de um bloco contra outro.

    Há o risco de a zona do euro se desfazer ao longo do tempo?

    Bem, nós desejamos que esteja segura, firme, saudável e estável no futuro, não vou prever nada além disso.

    Há alívio no Reino Unido por não ter aderido ao euro?

    Aliás, não vamos aderir nunca. Pessoalmente, eu senti alívio desde o início. Se tivesse entrado, a situação econômica estaria pior. O que encorajamos a eles é fortalecer o comércio. Uma das vantagens da Europa é o mercado único. Temos de empurrá-lo, incentivá-lo a fazer mais acordos comerciais seguros ao redor do mundo, incluindo aí o Mercosul.

    Algum país pode sair da zona do euro na crise?

    Eles não podem. Os termos do tratado não permitem e há dificuldades práticas para sair, até porque a antiga moeda deles não existe mais.

    E o assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU?

    Temos o compromisso de lutar pela pretensão do Brasil e a apoiamos para o futuro.

    A abstenção do Brasil e dos Bric na votação da ONU sobre a zona de exclusão aérea na Líbia gera desconfiança?

    Nós nos lembramos bem disso e discutimos com o ministro Patriota. É claro que preferiríamos que o Brasil tivesse votado a favor, mas não significa que as relações sejam ruins. Concordamos numas coisas, não em outras, e isso é normal.

    A ONU pode aplicar na Síria a solução adotada para a Líbia?

    Não. Está na hora de a ONU discutir a Síria, mas para deixar bem claro que a pressão contra o regime de [Bashar] Assad vai aumentar. Desejamos que o presidente deixe o poder e acompanhamos os passos da Liga Árabe.

    É possível a solução militar?

    Não, é improvável. Na Síria é bem mais difícil prever as consequências de uma intervenção militar do que foi na Líbia. É uma situação muito mais complexa, por causa dos países vizinhos, das divisões internas, sectárias. Na Líbia, inclusive, a oposição já tinha controle de parte do território. Não é este o caso da Síria.

    E o Irã?

    Nós perseguimos a política de “twin track”, de oferecer negociação, mas aplicando crescente pressão na falta de uma negociação pacífica que permita algum progresso. Na UE, o embargo ao petróleo está no topo da lista de sanções e queremos que o Irã saiba que a pressão irá crescer.

    Apesar da derrota na ONU, é possível aproveitar agora o know-how de Brasil e Turquia na negociação com o Irã?

    É importante que todas as nações tentem convencer o Irã nessa área tão sensível.

    O sr. pediu isso ao Patriota?

    Discutimos a questão do Irã, é claro, mas não estamos pedindo ao Brasil para ter um papel de mediador. Nós queremos que o Irã recomece a negociar diretamente com o P5+1, os cinco membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha. Cabe aos membros da ONU convergirem para negociar com Irã.

    Que papel o Brasil deveria ter para a paz no Oriente Médio?

    Apreciamos todos os esforços que o Brasil possa fazer em tantos desafios internacionais contemporâneos. Não sou eu quem vai definir em quais. No caso do clima, por exemplo, o Brasil tem uma forte e crescente atuação nas negociações.

    O conflito entre Israel e Palestina é discutido sempre pelos mesmos atores, sem sucesso. É hora de incluir novos países?

    Estamos todos engajados na solução do Oriente Médio. Agora mesmo há uma rodada de negociações na Jordânia e são essas negociações que devemos manter e encorajar.

    Folha de S. Paulo/AC



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