Mercado dos desaposentados

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  • Postado em 24 de janeiro, 2012


    HELTON SIMÕES GOMES

    OCUPANDO EMPREGOS RENEGADOS PELOS JOVENS OU EXERCENDO FUNÇÕES QUE EXIGEM MAIOR EXPERIÊNCIA, OS +50 JÁ OCUPAM MAIS DE 14% DOS POSTOS DE TRABALHO

    Ze Carlos Barretta/Folhapress

    Luiz Fernando Penalva, 62, engenheiro aposentado, voltou ao canteiro de obras depois de anos atuando como gerente de condomínios em Alphaville

    Profissionais “cinquentões” têm aumentado sua presença no mercado de trabalho. Eles exercem funções renegadas pelos mais jovens e também ocupam cargos que exigem especialização ou maior experiência.

    “O mercado sofre com um apagão de mão de obra”, diz Fátima Sanchez, gestora do Instituto Personal Search, entidade que recoloca profissionais no mercado. Na ausência desse trabalhador mais tarimbado, as empresas criaram estratégias, como “desaposentar” profissionais que estavam longe do mercado.

    Segundo o Ministério do Trabalho, os maiores de 50 anos ocupavam 14,21% dos mais de 44 milhões de postos em 2010. Eles preencheram mais de 20% dos quase 3 milhões de vagas abertas.

    Aloísio Buoro, professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) de São Paulo, aponta o setor da construção civil como um dos nichos promissores de recrutamento.

    É o caso do Luiz Fernando Penalva, 62. Ele se demitiu em 2008, depois de passar 12 anos como gerente de condomínios em Alphaville, região de alto padrão próxima a São Paulo. Há um ano e meio foi contratado como engenheiro civil sênior pela construtora Contracta Engenharia.

    “Já fiz dezenas de obras”, diz. “Quando uma delas começa, já tenho uma visão dos problemas que podem ocorrer.” Ele afirma ganhar até 8% acima do salário médio para a função que ocupa e diz já ter recebido propostas para trocar de empresa. Mas não pensa em sair. “Na minha idade, se eu der um salto, tem que ter muita certeza.”

    Para Jacqueline Resch, sócia-diretora da empresa de recrutamento de executivos Resch Recursos Humanos, há espaço no mercado de trabalho para pessoas mais velhas, desde que estejam atualizadas. “Não dá para envelhecer nesse sentido”, diz, ressaltando que é impossível trabalhar hoje baseado em uma experiência de 20 anos atrás.

    Setores demandantes dos profissionais “cinquentões” capacitados são o agronegócio, a mineração e a área de energia (óleo, gás e petróleo), apontam os especialistas.

    BAIXA QUALIFICAÇÃO

    Mesmo para os trabalhadores sem qualificação há oportunidades.

    O Grupo Pão de Açúcar tem há dez anos o Programa Terceira Idade, que contrata pessoas com mais de 55 anos. São empacotadores, operadores, auxiliares de cozinha e padeiros. “Eles têm maior comprometimento, sabem ouvir”, diz a gerente de RH do grupo, Vandreia de Oliveira.

    Para Buoro, do Insper, nesses setores não tão atrativos para quem está no começo da carreira, é mais fácil “desaposentar” e treinar alguém com vontade de trabalhar.

    A despeito da função ou do setor, a inclusão dos profissionais mais experientes no mercado de trabalho faz a cabeça do empregador mudar. “As empresas não estão mais restritas a contratar somente jovens. Isso amplia a oferta de mão de obra disponível”, conclui Buoro.

    Folha de S. Paulo/AC