Mais segurança, menos ambição

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  • Postado em 19 de janeiro, 2012


    Uma pesquisa exclusiva revela que a Petrobras é a empresa dos sonhos dos executivos no Brasil. A receita: crescimento, investimento em formação – e, claro, muita estabilidade

    LUCAS AMORIM

    SABE-SE, DESDE HÁ MUITO, que os brasileiros adoram o bom e lho concurso público. Calcula-se que nada menos que 10 milhões de pessoas estejam se preparando para fazer um dos milhares de concursos programados para 2012. O objetivo, claro, é garantir emprego para a vida toda, aposentadoria pública e, de preferência, uma vida mais distante das crescentes pressões corporativas. Se o brasileiro médio sonha com esse jeito concursado de ser, como pensam nossos executivos? As consultorias de recursos humanos DMRH e Nextview foram a campo para responder a essa pergunta. Os pesquisadores ouviram 5 300 executivos das maiores empresas do Brasil – de todas as faixas etárias – para levantar quais são as empresas de seus “sonhos”. Pois a pesquisa, obtida com exclusividade por EXAME, mostra que o executivo nacional é, digamos, um brasileiro como outro qualquer. A empresa dos “sonhos”, para a maioria deles, é a estatal Petrobras.

    Eis, resumidamente, a carreira que nossos executivos querem ter. Primeiro, é preciso estudar um bocado para passar em concursos públicos que chegam a ter1000 candidatos para cada vaga. Quem passa no concurso fica 8 horas por dia, durante até um ano, em treinamento sobre temas como geologia, dinâmica dos solos e extração de petróleo. O passo seguinte é ir a campo, o que significa, em alguns casos, vestir um macacão alaranjado e passar semanas em alto-mar. Se tudo der certo, vem o convite para assumir um cargo executivo. Primeiro de coordenador, depois gerente, gerente executivo, diretor, presidente – no caminho, não custa lembrar que ter um bom padrinho no partido do governo será fundamental. Durante as décadas necessárias para subir essa escada, ele não ganhará nem um centavo sequer em bônus por desempenho. Mesmo assim, a Petrobras ficou à frente de empresas como Google, Vale e Natura.

    Uma análise dos motivos de escolha ajuda a entender essa preferência. Para os executivos brasileiros, o mais importante numa companhia é ter marcas e produtos reconhecidos. Depois, a possibilidade de aprendizado contínuo e de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Dinheiro – pasme – não aparece entre as prioridades. Apenas 3% dos entrevistados apontaram pacotes de remuneração agressivos e atrelados a resultados como fundamentais na hora de escolher a empresa dos sonhos. “Antes de muito dinheiro, o brasileiro quer trabalhar em companhias que ofereçam treinamento contínuo, possibilidade de crescimento e segurança”, diz Maira Habimorad, presidente da DMRH. “O ranking reflete isso.”

    O QUE EU QUERO É SOSSEGO

    Vista por esse prisma, a Petrobras parece realmente uma empresa dos sonhos. Para começar, oferece estabilidade de sobra. Seus executivos raramente são demitidos. Se não atingem os resultados pretendidos, ganham a segunda, a terceira, a quarta chance. Em 2011, a empresa demitiu 32 de seus 58000 funcionários – ou 0,05% da força de trabalho. Na Ambev, a ordem é demitir – a cada ano – os 10% menos eficientes. Junto com a estabilidade, a Petrobras oferece um plano de crescimento e um pacote de cursos de formação incomparáveis. Até 2015, a estatal planeja investir 225 bilhões de dólares em novos projetos. Para ter gente preparada, investiu 202 milhões de reais em treinamento nos últimos 12 meses e enviou 1800 pessoas para programas de treinamento fora do país – em escolas de negócios como Harvard e Insead e em universidades especializadas em pesquisas de petróleo. “Estamos crescendo muito e investindo pesado em formação de pessoas e tecnologia de ponta. E uma combinação que atrai”, diz José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras. A Vale, terceira colocada no ranking, frequenta os sonhos dos executivos por motivos parecidos. Em 2011, investiu 168 milhões de reais no treinamento de 21821íderes e na formação de 2100 novos funcionários – um número recorde. Demissões também são raras: só 1,5% dos empregados perdem o emprego a cada ano. “Não é nossa cultura. Preferimos investir em treinamento e dar novas oportunidades. Nossos sete principais executivos foram formados em casa”, diz Vania Somavilla, diretora de recursos humanos da Vale.

    Mas nem tudo que vale para o executivo médio vale para as novas gerações, de acordo com a pesquisa da DMRH/ Nextview. Entre os entrevistados com até 25 anos, a empresa dos sonhos é o Google, seguido por Itaú, Vale, Unilever e Petrobras. A escolha dos jovens levou o Google para o segundo lugar geral. Hierarquia rígida ou garantia de estabilidade não fazem parte do pacote de atrativos da empresa. Com apenas 350 funcionários no Brasil, o Google tem a rotatividade natural do setor – na casa dos 10%. Mas oferece um ambiente de trabalho informal, sem salas fechadas para os diretores, e com mesa de sinuca para as horas de folga. Na outra ponta, empresas que exigem sacrificar fins de semana,mas oferecem grandes boladas anuais e uma carreira acelerada, vêm atraindo cada vez mais candidatos, especialmente em seus programas de trainee, mas ainda não fazem brilhar os olhos do executivo brasileiro médio. A Ambev é o maior exemplo. Em 2011, a empresa alcançou 70 000 inscrições para trainee. São jovens que sonham em chegar à posição do presidente mundial, Carlos Brito, embolsar mais de 18 salários extras a cada ano de carreira, perder feriados e dar adeus a jantares com a família. Apesar de atrair recém-formados, a Ambev e seu modelo ainda são vistos com pé atrás pelos executivos brasileiros: a empresa nem sequer aparece entre as dez primeiras da pesquisa. “O Brasil tem uma cultura diferente da americana, que privilegia o risco. Os brasileiros sonham com empresas consolidadas, mas em crescimento”, diz o brasileiro Luiz Felipe Monteiro, professor da escola de negócios Wharton.

    Apesar do resultado da pesquisa retratar certa paixonite estatal, as empresas estão atentas às mudanças de comportamento da nova geração de executivos. O Itaú, segundo lugar na preferência dos jovens e conhecido pela rígida hierarquia e pela formalidade, adotou recentemente o casual every day, que dispensa o uso da gravata por seus executivos. No último ano, aboliu as vagas de estacionamento exclusivas para altos executivos. E criou comitês de sucessão, formados por funcionários de diferentes níveis hierárquicos, para discutir em termos objetivos quem são os melhores candidatos para cada vaga. Antes, o chefe decidia sozinho e levava em conta sobretudo o tempo de casa na hora de preencher uma posição. “Agora, os mais jovens sabem que também podem ser escolhidos”, diz Marcelo Orticelli, diretor de RH do Itaú, sétimo da lista. “O que vale são os resultados.” Mas sem muita pressão, por favor.

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    A ESTATAL DOS SONHOS | A Petrobras é a empresa mais desejada para trabalhar para 5,9% dos 5 300 executivos entrevistados no Brasil

    Revista Exame/AC