Mais de um século de espera

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  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    EVANDRO SPINELLI E VANESSA CORREA

    PROJETO NOVA LUZ QUER REVITALIZAR REGIÃO CONHECIDA COMO CRACOLÂNDIA; NO ENTANTO, NÃO É A PRIMEIRA VEZ

    Assolado por uma crise de saúde pública, o bairro de Santa Ifigênia sofre uma forte ação das autoridades, criticadas por uma suposta “higienização” do local.

    Resolvido o problema sanitário, virá a mudança urbanística: um grande projeto de revitalização que pode ser feito pela iniciativa privada.

    Trata-se do bairro que a prefeitura rebatizou de Nova Luz, mas é mais conhecido mesmo como cracolândia. Hoje ou há um século, a história parece se repetir.

    CÓLERA

    Final do século 19. Um surto de cólera atinge São Paulo. Medidas duras contra cortiços e outras moradias populares são decretadas.

    O bairro de Santa Ifigênia, apinhado de cortiços, é um dos mais atingidos.

    Em 1886, uma lei municipal havia proibido “casas populares e operárias” no “perímetro do comércio”. Assim, os cortiços foram praticamente extintos da área nobre.

    Com isso, Santa Ifigênia pulou de 12 mil habitantes em 1890 para quase 43 mil em 1893, um acréscimo de mais 30 mil pessoas em três anos.

    Em 1910, um grupo de empresários e proprietários de terra, entre eles o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, apresenta um projeto para revitalizar a região.

    Batizado de “Grandes Avenidas”, previa a construção de vias entre as periferias e o centro. Em troca, queriam a desapropriação de imóveis para depois revendê-los, além de incentivos ficais.

    O projeto não saiu do papel. A crise sanitária, ao menos, foi resolvida e o bairro virou polo de comércio de eletroeletrônicos, ancorado na rua Santa Ifigênia.

    CRACK

    Desde a década de 1990, o bairro de Santa Ifigênia, vizinho das estações Júlio Prestes e Luz, ficar conhecido como cracolândia, local onde usuários de crack consomem a droga nas ruas, à luz do dia.

    Desde então, a prefeitura promete revitalizar a área. Primeiro, lavando as ruas todos os dias. Depois, com projetos “âncora”, como a Sala São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa.

    Em 2005, uma nova ideia: dar incentivos fiscais para empresas se instalarem na região. Só duas foram.

    Em 2009, a prefeitura lança outra iniciativa: fazer uma concessão urbanística da área. Pelo projeto, chamado Nova Luz, uma empresa ganhará o direito de desapropriar os imóveis e revendê-los com lucro numa área valorizada em troca de implantar obras de interesse público. Tudo como em 1910. A diferença é que agora a iniciativa é da prefeitura.

    Soma-se a isso a ação da PM, que age contra traficantes e usuários de drogas. O resultado, por enquanto, é a migração dos viciados para bairros próximos. Mas há promessas também de ações de saúde e assistência social.

    A licitação para a escolha da concessionária está para ser lançada. Falta apenas o aval dos órgãos ambientais. As obras de transformação levarão ao menos 15 anos.

    Enquanto isso quem espera “ansioso” para ver a cracolândia transformada em Nova Luz é o síndico José Anselmo Coelho, 50, que mora na rua dos Gusmões. “Há uns 20 anos que a prefeitura fala em projeto para o bairro. Mas não sai do papel”, reclama.

    O maranhense Anselmo chegou ao bairro há 15 anos e diz gostar. Porém, parentes que moram em outros lugares têm medo. “Aqui eu não recebo visita.”

    Folha de S. Paulo/AC