Maior que o deus mercado

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Petrobras 2 Para Luiz Pinguelli Rosa, a medida do desempenho da estatal é sua contribuição ao País, e não apenas aos acionistas

    A Luiz Antonio Cintra

    EX-PROFESSOR de Graça Foster, na pós-graduação em Engenharia Nuclear, Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Coppe-UFRJ, participou ativamente da condução da política energética durante o governo Lula, quando ocupou a presidência da Eletrobras. Na entrevista a seguir, Pinguelli Rosa comenta o desempenho recente da Petrobras e a troca no comando da empresa.

    Carta Capital: Qual balanço o senhor faz dos últimos anos da Petrobras?

    Luiz Pinguelli Rosa: O balanço é positivo, e o maior símbolo disso é o pré-sal, ainda que venha de um processo de acumulação de anos de trabalho da empresa. E com uma orientação mais nacionalista, estimulando a maior participação da indústria brasileira na cadeia de petróleo e gás, o que também foi positivo, com menor participação dos importados. E apoiando muitas universidades no Brasil todo, que se envolveram nas questões relativas ao petróleo, gás e energia. Ela também tornou-se de fato uma geradora de energia elétrica importante no Brasil, apesar de ser uma empresa de petróleo. Entrou no álcool, criou-se a empresa de biocombustível da Petrobras, ela adentrou mais no problema do biodiesel, do etanol.

    CC: Nos últimos dois anos, as ações da Petrobras acumularam uma desvalorização considerável, de cerca de 40%. Os analistas do mercado financeiro consideram esse desempenho um sinal de perda de eficiência. Qual a sua opinião?

    LPR: Se analista do mercado tivesse competência para alguma coisa útil ao País, a opinião dele seria importante, mas não vejo isso. É verdade que as ações caíram, mas a empresa sofreu um processo de capitalização enorme, com aumento da participação da União no controle da empresa, para ter recursos em particular para o pré-sal, que vai exigir muitos investimentos. Mas que vai dar também retorno, porque o petróleo tem valor grande. Agora há uma incerteza, não há líquido e certo, e acho que essa desvalorização das ações é fruto disso. Mas uma empresa como a Petrobras não é destinada apenas a ter valor de mercado. E daí as minhas críticas aos analistas. Ela precisa ter uma política nacional que sirva ao País, inclusive porque ela é uma controlada da União. Então é preciso olhar para esses objetivos maiores, a meu ver acima dos objetivos do mercado, dos acionistas minoritários ou dos acionistas norte-americanos.

    CC: o professor Carlos Lessa considera um problema a empresa começar a exportar petróleo cru, que favoreceria a valorização exagerada do real. E acha que seria melhor guardar as reservas e explorá-las aos poucos. Como o senhor avalia essas críticas?

    LPR: Concordo e discordo. Acho correto programar a produção, de acordo com a necessidade do País, e não pura e simplesmente tornar-se um grande exportador de petróleo, porque aí vêm todas aquelas doenças, a doença holandesa, a maldição do petróleo… e de fato não é bom para o Brasil. Os grandes produtores de petróleo, em sua maioria, nao sao paises industrializados, os do Oriente Médio, Venezuela, México… O bom exemplo suo os EUA, que são um grande produtor de petróleo, embora não sejam um grande exportador, ao contrário, é importador. De qualquer modo, eles se desenvolveram muito com base no petróleo. E, contemporaneamente, a Noruega, um país de pequenas dimensões e grande produção. Ela exporta petróleo, criou um esquema próprio e o país tem uma prosperidade invejável. Quem dera fôssemos nós a Noruega, em termos de condição de vida da população.

    CC: E em que ponto o senhor discorda?

    LPR: Acho complicado o mercado internacional nessa área. É muito difícil exportar derivado de petróleo, porque eles ficam sujeitos às regras de cada país, particularmente as regras ambientais atualmente. Então por meio das regulamentações ambientais esse mercado é muito travado. Se for para exportar petróleo, é mais fácil exportar o cru. Discordo dessa política anunciada pelo governo de exportar derivados, acho muito dificil. Em pequena quantidade é uma coisa, mas se tornar um exportador grande de derivados é muito complicado, fica-se na mão do importador. E no momento estamos importando derivados, estamos com um desbalanceamento na nossa estrutura de refino, e esse é um ponto que a Petrobras tem de olhar, a questão do refino.Aquela refinaria no Nordeste com a Venezuela encrencou, atrasou. Estamos com problemas de todo tipo. Por isso faço um balanço positivo, mas também vejo pontos negativos.

    CC: E quais são?

    LPR: Por exemplo, estamos importando etanol dos EUA. Sei que etanol não é obrigação da Petrobras, mas ela entrou nessa área, criou uma empresa de biocombustível, o que é positivo. Como coloco Petrobras e governo juntos, já que ela é do governo, é preciso dizer que a política de combustível não está dando certo se estamos importando etanol dos EUA, nós que viramos um exemplo mundial do etanol. Até os americanos reconhecem que o etanol brasileiro, de cana, tem uma contribuição importante de evitar os gases de efeito estufa, mas não o etanol deles, que é de milho. E agora estamos importando uma pequena parcela, mas crescente, de etanol americano, o que é inconsistente. O preço do etanol (no mercado brasileiro) tem estado próximo ao da gasolina a ponto de não estimular o consumo do produto.

    CC: Qual sua expectativa em relação à chegada de Graça Foster?

    LPR: Minha expectativa é de que seja mantido o (Guilherme) Estrella na diretoria de produção, isso eu considero chave. Seria um erro gravíssimo mudar ao mesmo tempo os dois, o presidente e o diretor de produção e exploração de petróleo.

    CC: Por quê?

    LPR: Acho fundamental mantê-lo, até pelo êxito que essa área teve na Petrobras. E pela política de maior participação da indústria nacional e da tecnologia na produção de petróleo no Brasil. Acho que seria muito importante manter o Estrella. Seria um erro substituir os dois ao mesmo tempo.

    CC: E qual a sua expectativa em relação à orientação mais geral da Petrobras?

    LPR: Não vejo mudança substancial nenhuma, inclusive porque é o mesmo governo e a mesma política. No estilo, no detalhe, isso sim pode acontecer, mas a Graça é uma engenheira da Petrobras de carreira e independente.

    CC: Há dificuldades para estruturar as indústrias brasileiras, por isso a produção não avança como o desejado?

    LPR: De fato estamos tendo problemas de encomenda na indústria brasileira, falta tecnologia na indústria, faltam engenheiros, falta engenharia, faltam en» presá rios. Os empresários brasileiros precisam ser mais ousados nessa questão tecnológica. E o pré’sal é um grande desafio. Quando o Lula ganhou pela primeira vez, tive encontros com ele e empresários sobre a produção de plataformas no Brasil. E isso foi uma política que o governo adotou e a Petrobras seguiu. Mas a indústria não respondeu tão bem, e temos tido atrasos na construção das plataformas. E preciso uma revolução tecnológica na indústria naval brasileira, e isso não está ocorrendo, estamos ficando muito para trás. Nåo atribuo à Petrobras a culpa, mas à necessidade de a indústria brasileira dar mais atenção à tecnologia. Outra questão é que falta uma associação maior com a Eletrobras na geração de energia elétrica. Não estamos com uma política equilibrada nessa área. O problema está na política energética do governo, mais uma vez não se trata de colocar a culpa na Petrobras.

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    O balanço é positivo, e o maior símbolo disso é o pré-sal. E com uma orientação nacionalista, com estímulos à indústria brasileira

    Gargalo. Para Pingueli, faltam empresários no País dispostos a apostar na cadeia petrolífera

    Revista Carta Capital/AC