Investidor aponta desconfiança na gestão da Petrobras

  • Português
  • English
  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    Depois da esperada indicação de Graça Foster para a presidência da Petrobras, analistas e observadores da indústria de petróleo e gás se perguntam o que esperar de sua gestão à frente da maior companhia da América Latina. Graça terá que enfrentar alguns desafios para minimizar as desconfianças que o mercado financeiro e acionistas minoritários têm da Petrobras. O maior deles é operacional. A estatal fechou 2011 com produção média de 2,02 milhões de barris ao dia, 4% a menos que a à meta que foi fixada no início do ano.

    Também é vista com preocupação a queda da produção de campos gigantes da bacia de Campos, como Roncador, Marlim, Marlim Sul e Marlim Leste, enquanto se acelerou a exploração do pré-sal. O banco Credit Suisse chamou a atenção para esse fato em 2011 e agora o Deutsche Bank voltou ao tema em relatório dos analistas Marcus Sequeira e Luiz Fonseca.

    No relatório, eles admitem desilusão com as tendências de produção da estatal e afirmam que apesar do pré-sal da bacia de Santos ser a principal fonte de crescimento da estatal nos próximos anos, a bacia de Campos permanecerá a província mais importante para a Petrobras e para o país por um tempo. O relatório aponta ainda que esperam uma produção sem brilho em 2012.

    Uma fonte que pede para não ser identificada explicou ao Valor que uma das divergências que pesaram no desgaste da relação entre José Sergio Gabrielli e a presidente Dilma Rousseff foi a tentativa da empresa de contratar sondas de perfuração no exterior para acelerar a produção, inclusive do pré-sal. O problema é que existe uma política do governo que exige construir aqui e para resolver problemas como esse, talvez o estilo de Graça Foster seja mais decisivo.

    Outro desafio de Graça: é a falta de uma política de preços, principalmente para o óleo diesel, hoje vendido no Brasil com valor 20% abaixo da paridade internacional, apontam os dois bancos em relatórios a investidores. O Credit menciona preocupações com a remuneração do capital das novas refinarias e os preços. Diz que o recente alta da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) permitiu só 2% no diesel.

    Todas as atenções, também, estão centradas no novo Plano Estratégico 2012-2016. Marcus Sequeira, do Deutsche, avalia que dada a magnitude do orçamento da Petrobras, e o impacto [dos investimentos] não só na estatal mas também no país e na indústria de serviços de petróleo, a tendência é que o novo plano se mantenha igual ao atual em termos de volume financeiro, na faixa de US$ 224 bilhões, de aproximadamente US$ 45 bilhões de investimentos por ano. Acreditamos que, com todas as restrições sobre fornecedores nacionais e internacionais e de mão de obra e o desafiador cenário macroeconômico, os gastos da Petrobras irão, novamente, se manter estáveis.

    Quem conhece Graça Foster sabe que ela não tem paciência com o corporativismo petista que se formou na Petrobras durante a gestão Lula. Que força e disposição ela terá para minimizá-lo é uma questão em aberto. A impressão de quem conhece a Petrobras é de que a maioria dos sindicalistas será afastada por Graça, dando lugar a técnicos de carreira com experiência.

    A corretora Ativa divulgou um relatório informando não esperar mudanças na qualidade da gestão da Petrobras. A justificativa é que não há nenhum tipo de indicação de que os principais fatores de risco que atualmente ameaçam o valor da empresa, na sua maioria relacionados à influência estatal, venham a ser mitigados em função da nova gestão da companhia.

    Um exemplo do cacife trazido pela amizade e proximidade com Dilma seria a colocação de um ponto final na novela envolvendo a entrada da PDVSA no capital da refinaria do Nordeste (Rnest), em Pernambuco. Com óbvios problemas de caixa, a venezuelana já deu todos os sinais de não ter dinheiro suficiente para a empreitada – sequer conseguiu apresentar garantias pedidas pelo BNDES para o empréstimo – e mesmo assim vem protelando a decisão politicamente, com pedidos de extensão do prazo enviados diretamente para o Itamaraty e não para a avenida Chile, sede da Petrobras.

    Na reunião do conselho marcada para 9 de fevereiro, apenas o diretor de exploração e produção (E&P), Guilherme Estrella, deixará a empresa. Além da vaga de Graça e de E&P, o conselho também vai aprovar a criação de uma diretoria corporativa, cujo modelo vem sendo desenhado desde 2009. Com isso, a estatal passa a ter o presidente sete diretores.

    O ocupante da nova diretoria corporativa, que será equivalente a uma vice-presidência, deve ser o petista José Eduardo Dutra, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) que presidiu a Petrobras antes de Gabrielli e que saiu para disputar, e perdeu, uma vaga no Senado por Sergipe.

    A intenção de Graça é nomear apenas técnicos de carreira para as duas diretorias. Ela deve ampliar o foco da companhia, que hoje tem algumas diretorias funcionando quase como unidades autônomas. A avaliação do governo é que não poderá fazer uma mudança brusca, como disseram fontes com conhecimento da situação. Todos os presidentes das subsidiárias já foram avisados que permanecerão nos seus cargos.

    Valor Econômico/AC