Inflação põe o BC em xeque

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  • Postado em 24 de janeiro, 2012


    Alta inesperada de 0,65% do IPCA-15 em janeiro coloca em risco o cronograma do Banco Central de redução da taxa básica de juros em 2012. Com os preços em elevação, a instituição terá dificuldades em justificar novos cortes

    » VÂNIA CRISTINO

    » ANA CAROLINA DINARDO

    Os preços dispararam nos primeiros 15 dias do ano e já colocam em xeque a estratégia do Banco Central de continuar reduzindo a taxa básica de juros da economia, hoje em 10,5% ao ano. A prévia da inflação oficial, o IPCA-15, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), veio acima do esperado e surpreendeu o mercado. A variação parcial de janeiro alcançou 0,65%, puxada, sobretudo, por itens como alimentação e transporte, que atingiram em cheio o orçamento das famílias.

    “O IPCA-15 fecha, em parte, a janela de oportunidade. Será cada vez mais difícil para o Banco Central cortar juros sem passar para o mercado a mensagem errada, de que irá reagir, aumentando a expectativa (de aumento juros) para frente”, disse o economista-chefe da Gradual Investimento, André Perfeito. Apesar da visão pessimista, Perfeito acredita que ainda é possível esperar por novos cortes na taxa básica (Selic), com os juros caindo a um dígito em 2012.

    Avaliação semelhante tem a economista Tatiana Pinheiro, do Banco Santander. A seu ver, apesar da alta dos preços, é preciso levar em conta que a inflação da primeira quinzena de janeiro deste ano veio mais baixa que no mesmo período de 2011, quando chegou a 0,76%. E mais: em 12 meses, a trajetória é decadente, como vem alardeando o BC. Por isso, o Santander acredita que serão feitos mais dois cortes de 0,50 ponto percentual na Selic.

    Se a previsão do banco espanhol se confirmar, a taxa chegará a 9,50% ao ano. “Ainda não há motivos para o BC mudar o seu cenário e o peso que vem dando à situação mundial, que ainda pode causar um grande efeito deflacionário” observou Tatiana. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, tratou de pôr panos quentes sobre o resultado do IPCA-15. Para ele, a alta da inflação é momentânea. “A inflação está caindo de um modo geral e ela tem uma elevação sazonal nesta época do ano”, sustentou.

    Apesar da ponderação do ministro, não será fácil convencer as famílias de que o aumento nos preços é transitório e que ele não deve refluir lá na frente. Quase 70% dos produtos e serviços pesquisados pelo IBGE apresentaram alta em janeiro. Em dezembro, eles eram 64%. Os itens que mais subiram neste mês e que pesam no bolso dos consumidores envolvem transportes (0,79%) e alimentos (1,25%). Juntos, esses dois grupos foram responsáveis por 0,44% do aumento geral do IPCA-15 de janeiro.

    Estratégia

    Em transportes, o que mais subiu foram as passagens aéreas: nada menos que 10,54%. Subiram também as tarifas dos ônibus urbanos e intermunicipais. Nos alimentos, a alta também foi generalizada e não envolveu apenas produtos agrícolas, como tomate (11,22%), feijão-carioca (10,42%) e batata-inglesa (4,29%). A refeição fora de casa acompanhou o movimento e ficou mais cara, em média, 1,63%.

    Nos supermercados, não é difícil perceber que os preços dos produtos estão mais elevados. A saída é adotar algumas medidas preventivas para não estourar o orçamento. A autonôma Carmem Regina da Silva, 47 anos, por exemplo, costuma pesquisar as ofertas antes mesmo de sair de casa. Ela vai às compras pelo menos uma vez por semana e gasta, em média, R$ 200. “O preço do feijão está bem alto. Como lá em casa não pode faltar, eu compenso a alta levando outras marcas mais em conta”, revelou.

    Para economizar, a assessora jurídica Rosângela Menezes adota outra estratégia. Ela diminuiu o número de idas ao supermercado. Até há bem pouco tempo, Rosângela ia às compras toda semana e chegava a gastar R$ 500 por mês. Agora, vai apenas duas vezes por mês e, com isso, chegou a reduzir os gastos em até R$ 180. “Ainda não é o ideal, mas já aliviou um pouco”, observou. Mais radical, o farmacêutico Franciney Barbosa dos Santos foge dos preços altos. Ele decidiu encher o carrinho só nos dias de promoção. Ainda assim, tem desembolsado R$ 100 acima de sua meta. “Nem com as ofertas consigo gastar menos, pois certos produtos, como feijão, carne e verduras, subiram muito”, disse.

    Famílias com mais dívidas

    Os brasileiros iniciaram o ano endividados. Em janeiro, o número de inadimplentes subiu para 58,8%, frente aos 58,6% de dezembro, interrompendo uma sequência de sete meses de baixa. Mas, na comparação com mesmo período do ano passado, a quantidade de pessoas com dívidas caiu. Em janeiro de 2011, o índice era de 59,4%. A pesquisa anual realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) indica ainda que a maior parte dos débitos (72,3%) é contraída por meio do cartão crédito. “As dívidas crescem neste período do ano em razão dos compromissos assumidos com impostos e material escolar”, explicou Marianne Hanson, economista da CNC. Por outro lado, o número de pagamentos em atraso diminuiu para 19,9% neste mês, contra 22,1% em um ano atrás e 21,2% em dezembro.

    Correio Braziliense/AC