Histórias de dor em meio ao caos

  • Português
  • English
  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Familiares desesperados à procura de desaparecidos, sobreviventes ainda atônitos e testemunhas do desabamento contam seus dramasDaniel Camargos

    Enviado Especial

    Rio de Janeiro – Das sacadas da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, os familiares das vítimas observam um cenário desolador à esquerda. Assistem a uma operação digna de uma cidade destruída por um bombardeio ou por uma catástrofe natural. Nuvens de poeira se fundem à fumaça e um cheiro forte de fuligem e gás empesteia o ar. Tudo isso se mistura ao barulho de máquinas revirando os escombros, sirenes constantes dos bombeiros, polícia e Defesa Civil, além dos guardas apitando sem parar para organizar o caos que toma conta dos quarteirões em entorno da Avenida Treze de Maio, entre a Almirante Barroso e a Evaristo da Veiga, palco da tragédia da noite de quarta-feira, quando três prédios desabaram por razões ainda desconhecidas. Até as 23h de ontem, a Defesa Civil do Rio havia confirmado a retirada de pelo menos cinco corpos dos escombros. Seis pessoas feridas teriam sido levadas aos hospitais e 21 eram consideradas desaparecidas.

    No Largo da Carioca e na Cinelândia, praças em entorno dos escombros, pessoas tentam encontrar uma explicação para o que parece inexplicável. “Foi tudo sugado pelo chão”, diz um homem que fotografa os estragos com o aparelho de celular. Um morador de rua passa e esbraveja: “Falei que ia cair e caiu”. Já Alexandre Quartarone olha os escombros com uma sensação que não sabe definir bem: entre o alívio e a desolação. Vinte minutos antes de o Edifício Liberdade – o maior dos três – cair, ele fechou o escritório e foi para casa. “Estava na Avenida Brasil, a caminho de casa, na Ilha do Governador, quando várias pessoas me ligaram para saber onde eu estava”, recorda, fazendo força para engolir as lágrimas e limpando os olhos com as mãos fechadas.

    Alexandre era proprietário de uma empresa de crédito instalada em uma sala de 90m², no 16º andar do Liberdade. Nos momentos de pico, circulavam pela loja dele em torno de 30 pessoas, entre funcionários e clientes. A estimativa é de que, no horário comercial, cerca de 1,5 mil pessoas poderiam estar nos três prédios que caíram. “Eu geralmente fico até as 21h. Foi Deus quem me tirou de lá às 20h10″, acredita Alexandre. A sócia dele, Tereza Andrade, não conseguia conter as lágrimas ao observar os escombros. “Não dá para acreditar. Ia morrer todo mundo se fosse na hora do expediente”, resigna-se Tereza. Dias antes, o seguro venceu e eles decidiram não renovar, pois pensavam em mudar o empreendimento de local. “Tivemos um prejuízo de R$ 200 mil, mas o importante é estar vivo”, pondera Alexandre.

    No quarteirão de trás, na Rua Evaristo da Veiga, o manobrista do estacionamento Pit Stop Antônio Martins Chaves vê o impacto da tragédia na quantidade de carros que foram ao local. Diariamente, as 228 vagas divididas nos 19 andares do prédio ficam cheias, mas, ontem, até o fim da tarde, não passaram de 30 veículos. “A maioria é mensalista e não veio trabalhar”, destaca o manobrista. Na hora do desabamento, ele estava trabalhando e escutou uma forte explosão. “Todo mundo saiu correndo para a rua e, de repente, veio muito poeira, sujando tudo”, descreve. No primeiro dia de operação, foram retiradas 17t de material do local do acidente.

    Por pouco

    O administrador Rodrigo Falcão trabalhava no prédio em frente aos que desabaram e foi ontem ao local tentar buscar documentos. Não conseguiu. “Estava tomando um suco no restaurante em frente ao prédio. Escutei um barulho muito forte e vi uma nuvem de poeira e fumaça. Sai correndo para dentro do restaurante”, lembra. Já a advogada Cristina Dias também não conseguiu pegar os processos para um julgamento de que participaria ontem. “Geralmente, saio do trabalho às 21h, mas toda quarta-feira saio às 16h, pois vou à Igreja de Nossa Senhora da Vitória, na Barra da Tijuca”, conta, completando com uma exaltação: “Graças a Deus”.

    O analista de sistemas Marcel Lima, 34, também escapou por pouco do desabamento. Ele disse que tinha um curso de tecnologia da informação às segundas, quartas e sextas-feiras no Edifício Liberdade. Segundo Lima, um imprevisto o impediu de chegar à aula, que ocorria das 18h30 às 21h. O desabamento ocorreu por volta das 20h30. “Eu estava no carro ouvindo rádio e fiquei bem assustado. Quando chequei em casa e vi a imagem na TV, identifiquei o prédio. Aí, realmente você fica em choque. O anjo da guarda estava de plantão.” Segundo Lima, dias antes do desabamento a turma comentou sobre as obras que ocorriam no prédio e os possíveis riscos.

    CENÁRIO DE DESTRUIÇÃO

    São três hipóteses para a queda do Edifício Liberdade, o primeiro a cair: corte de uma viga, com ruptura brusca; corrosão e infiltração da laje da cobertura; ou o entulho de obra, como sacos de cimento e latas de tinta, que provocou excesso de peso e rompimento da estrutura

    Setenta bombeiros trabalham no local do acidente. Quinze deles fizeram parte da equipe enviada ao Haiti após o terremoto que devastou o país em janeiro de 2010

    Foram constatadas obras irregulares no terceiro e no nono andar do Edifício Liberdade. Elas não estavam registradas no Crea-RJ Andar por andar 3º andar l Associação Brasileira de Administração l Prover 4º andar l Tecnologia Organizacional l Norenge engenharia Ltda 5º andar l Figueiredo Leite e Vaz Advogados Associados 6º andar l Tecnologia Organizacional 7º andar l ECN Auditoria e Contabilidade 8º andar l Grupo Primacy Translutions (serviço de tradução) l Gestão contabilidade e assessoria empresarial Ltda 9º e 10º andar l Instituto Visão l Tecnologia Organizacional l Grupo Hospitalar do Rio de Janeiro Ltda 11º andar l Abaco contadores l HET Congressos e Feiras Ltda 12º andar l Mr Montagem l Associação de Futebol Feminino do Estado do Rio de Janeiro 13º andar l Blatter & Galvão Escritório Advocacia l Associação Brasileira das Empresas de Biotecnologia 14º andar l Arotec S/A Indústria Comércio l CM & O Central de Reservas Representações e Turismo 15º andar l Tecnologia Organizacional 16º andar l Vargem Grande Assessoria Corretora de Seguros 17º andar l Garra Serviços e Assessoria Empresarial 18º andar l Imobiliária Novello 19º andar l Jota Cargo e Logística l Bravim Lentes Distribuidora de Produtos Ópticos 20º andar l Cornélio Ribeiro Lopes

    Vinte e quatro horas depois da queda dos três prédios no Centro do Rio, os estragos ainda eram contabilizados. Até a noite de ontem, cinco mortes haviam sido confirmadas e 21 pessoas eram procuradas. Três prédios vizinhos aos que caíram foram interditados preventivamente, e os do entorno na Rua Treze de Maio foram fechados para evitar a circulação de pessoas. Os escombros eram transportados para um terreno da Prefeitura, na Zona Portuária. De lá, transferidos, em carretas maiores, ao Aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias.

    Correio Braziliense/AC



    Rio Negócios Newsletter

    Cadastre-se e receba mensalmente as principais novidades em seu email

    Quero receber o Newsletter