França terá imposto sobre as finanças

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  • Postado em 30 de janeiro, 2012


    Tributo sobre transações financeiras é uma das medidas anunciadas por Nicolas Sarkozy para melhorar a situação fiscal do país

    Jamil Chade

    Adotando o primeiro passo claro de candidato à reeleição, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou ontem seu terceiro plano de ajustes em um ano e a criação de uma taxa sobre as transações financeiras, a primeira na Europa.

    O”pacote de choque” inclui a elevação de impostos, salários menores, aumento de horas da jornada aos empregados, além da defesa da elevação da idade mínima para se aposentar,medidas que seus próprios aliados já apontam que poderia ser fatal para a reeleição.

    A menos de cem dias das eleições, Sarkozy se recusou a anunciar oficialmente sua candidatura. Mas monopolizou seis canais franceses para fazer seus anúncios por uma hora e deu o primeiro sinal público de que visa a reeleição.” Tenho um encontro marcado com os franceses”, disse. Ele já conta com seu primeira cabo eleitoral: a chanceler alemã Angela Merkel, que prometeu subir nos palanques com o francês.

    Com sua honra ferida por causa do rebaixamento da nota de risco do país, Sarkozy preferiu assegurar aos mercados de que a França está fazendo a lição de casa. “Estamos na trajetória da redução do déficit”, disse. Segundo ele, 2011 teria terminado com um buraco de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

    Internamente, a medida mais polêmica é a elevaçãode1,6 pontos no imposto de valor agregado, chegando a 21,2%. Isso permitirá um incremento na arrecadação do governo de€ 11 bilhões e, Segundo Sarkozy, será esse dinheiro que permitirá a criação de fundos para gerar empregos. A medida entrará em vigor em outubro. “Esperamos que não cause um aumento de preços.”

    Outra medida é a de derrubar a lei que estabelece 35 horas de trabalho por semana na França, medida que em seu momento foi comemorada como conquista social. Na mesma medida, empresas em dificuldades poderão reduzir salários ou pedir que empregados trabalhem mais,como mesmo salário.

    A esperança de Sarkozy é de frear a sangria de mil demissões diárias no país, média desde o início de 2011. O desemprego atinge hoje seu ponto recorde desde 1999. Para completar, o presidente deixou claro que a atual idade de aposentadoria, de 60 anos, é “uma loucura”.

    Taxa Tobin e eleições.

    No plano externo, a medida mais polêmica é a primeira criação na Europa de uma “Taxa Tobin”. Sarkozy quer implementar um imposto de 0,1% sobre transações financeiras, principalmente sobre as ações especulativas. O imposto entra em vigor em 1.º de agosto e o francês admite que quer “criar um choque” para convencer outros europeus a seguir seu exemplo.

    A taxa já foi alvo de duras críticas nos demais países europeus, principalmente na City de Londres, que alerta que o bloco perderá competitividade no setor financeiro e haverá uma migração para locais onde não exista o imposto. Conhecida como Imposto Robin Hood, a ideia também divide alemães e italianos.

    As medidas foram anunciadas faltando 83 dias para as eleições e membros do partido de Sarkozy não disfarçam o temor de que o novo pacote afete as chances de uma vitória. Sarkozy, porém, prefere a imagem de um “presidente corajoso”, que tomará as medidas necessárias para tirar o país da crise.

    Para equilibrar as más notícias, Sarkozy anunciou medidas para estimular o setor da construção civil, na esperança de criar postos de trabalho. Haverá ainda a criação de um banco para financiar a indústria francesa e medidas para estimular a produção nacional. Para alguns de seus aliados, o teste virá nas próximas pesquisas de opinião. O candidato socialista (oposição) tem, hoje, 31% das intenções de votos, contra 25% para Sarkozy.

    A oposição acusou Sarkozy de manipular seu tempo na imprensa. A elevação de impostos ainda foi duramente criticado pelos concorrentes. “São princípios e instrumentos que não funcionarão”, disse François Hollande. “Não haverá impacto na criação de emprego”, disse François Bayrou, também candidato.

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    Pacote pesado

    NICOLAS SARKOZY – PRESIDENTE DA FRANÇA

    “Estamos na trajetória da redução do déficit. Esperamos que (o pacote) não cause um aumento de preços.”

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    O Estado de S. Paulo/AC