“Falta de consenso rebaixou a Europa”

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  • Postado em 20 de janeiro, 2012


    Por Luís Artur NOGUEIRA .

    A executiva paulista Regina Nunes, presidente da Standard & Poor”s (S&P) no Brasil, inicia o ano com uma nova missão da matriz, em Nova York. Vai comandar, além da operação brasileira, o escritório da agência de classificação de risco na Argentina e cuidar das notas de Bolívia, Peru, Chile, Uruguai e Paraguai. O Brasil deve ter sua nota elevada até 2014. Será a segunda vez depois de o País ter sido promovido a grau de investimento, em abril de 2008, poucos meses antes de estourar a crise que subverteu a ordem econômica global. “O Brasil já está atraindo mais recursos com a nota atual”, diz Regina. Enquanto isso, a S&P comprou uma briga enorme com nove países da Zona do Euro, incluindo França, Espanha e Portugal, que tiveram suas notas reduzidas na sexta-feira 13. “A demora para chegar a um consenso rebaixou os países europeus.” Regina recebeu DINHEIRO no escritório da S&P em São Paulo.

    DINHEIRO – Por que a S&P rebaixou a nota de nove países da Zona do Euro, incluindo a França e a Áustria, que perderam o triplo A? REGINA NUNES – Em dezembro, colocamos as notas de 16 países da Europa em perspectiva negativa. Havia pelo menos 50% de chances de que iríamos rebaixá-las até o começo de março, o que acabou acontecendo antes, para nove países (França, Itália, Espanha, Áustria, Portugal, Chipre, Eslovênia, Eslováquia e Malta). Nós consideramos que as iniciativas políticas tomadas pelos governos europeus podem ser insuficientes para resolver os problemas na região. A demora para chegar a um consenso também foi uma das principais razões do rebaixamento. Além disso, há o aperto das condições de crédito e a elevação do prêmio de risco para alguns países europeus.

    DINHEIRO – Um acordo fiscal mais robusto na Zona do Euro poderia reverter essa situação?

    REGINA – Não fazemos sugestões sobre o que um país deve fazer, mas um novo acordo europeu deveria sugerir uma maior arrecadação e mais supervisão econômica mútua.

    DINHEIRO – O que os países endividados podem fazer no curto prazo?

    REGINA – Os países europeus precisam buscar reformas a fim de equilibrar a produção e o consumo. Para as nações devedoras isso provavelmente implicará não apenas uma economia maior do setor público, mas também medidas de fomento à exportação e de aumento da flexibilidade do mercado de trabalho.

    DINHEIRO – Espanha e Itália anunciaram reformas fiscais. São suficientes?

    REGINA – Os governos de Mariano Rajoy e Mario Monti estão tomando iniciativas para modernizar suas economias e garantir a sustentabilidade fiscal no longo prazo. Apesar disso, nós reduzimos a nota desses países em dois níveis, pois achamos que a Espanha e a Itália estão particularmente vulneráveis aos riscos de uma deterioração repentina dos mercados.

    DINHEIRO – Qual é a avaliação sobre a Grécia?

    REGINA – Nós não alteramos a nota da Grécia, que já tinha sido reduzida para CC em julho de 2011. O risco de moratória é iminente e as negociações com os credores têm levado mais tempo do que o previsto inicialmente. A data de 20 de março, quando vencem E14,5 bilhões em títulos, virou o dia D para a reestruturação da dívida grega.

    DINHEIRO – O rebaixamento dos Estados Unidos pela S&P, em agosto de 2011, gerou muita polêmica. O que o governo Obama precisa fazer para recuperar o triplo A?

    REGINA – Novamente, não fazemos sugestões para países. A perspectiva da nota soberana americana é negativa, ou seja, há, pelo menos, uma chance em três de haver outro rebaixamento até o final de 2013. O plano de consolidação fiscal acordado entre o Congresso e o governo não é suficiente para estabilizar a situação fiscal até metade da década.

    DINHEIRO – O que significa a nota BBB que o Brasil recebeu em novembro?

    REGINA – O Brasil é triplo B em moeda estrangeira, a segunda escala do grau de investimento. Ou seja, é um país pouco vulnerável, com ferramentas para reagir a problemas internos e a riscos de fora. O País melhorou aos olhos estrangeiros.

    DINHEIRO – Então o País pode atrair ainda mais investimentos…

    REGINA – Sim. Existe uma série de fundos que têm como regra investir apenas em países que possuem grau de investimento. Quando você está no primeiro degrau (nota BBB-) é complicado para eles correrem esse risco, pois, se acontece um rebaixamento, os investidores têm que liquidar o papel para cumprir o regulamento interno. Nesse caso, eles dependeriam da liquidez do mercado secundário, do apetite por aquele título, etc. Quando você vai para o BBB, que é o caso do Brasil, você passa a ser visto como um grau de investimento bem estabelecido, atraindo mais recursos.

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, que teve a nota rebaixada, em agosto, de AAA para AA+. DINHEIRO – O Brasil já é nota A- em moeda local. O que isso significa?

    REGINA – Entrar para a categoria A é uma mudança muito grande, assim como se tornar grau de investimento. Estatisticamente, em 15 anos, a probabilidade de uma moratória de um país na escala A é zero. Você teria que ter uma quebra econômica, absolutamente inesperada, algo que nunca aconteceu antes. O fato de o Brasil ser nota A- na moeda local mostra uma enorme capacidade de gerenciamento do seu endividamento no mercado doméstico. Esse dado é muito importante para o investidor estrangeiro interessado em colocar dinheiro em algum projeto produtivo no Brasil. Ele fica de olho mais nessa nota do que na classificação em moeda estrangeira.

    DINHEIRO – O que é preciso fazer para ser elevado pela S&P?

    REGINA – O Brasil ainda tem sua fragilidade vinculada à parte fiscal, embora seja inegável a melhoria nos últimos anos. Pelas contas da S&P, a dívida líquida brasileira está em 40,9%, índice mais alto que o de vários emergentes. Na Rússia, é quase zero, e no México, 35%.

    DINHEIRO – O problema do Brasil é só o tamanho da dívida?

    REGINA – Não. Além de ter uma dívida enorme em valores absolutos, o Brasil precisa melhorar o seu perfil. Hoje, um terço é prefixado, um terço está atrelado à inflação e o restante é pós-fixado. Quanto mais a dívida for prefixada, melhor é a situação do País.

    DINHEIRO – Mas, se o Brasil tem a maior taxa de juros do mundo, prefixar a dívida não é um tiro no pé?

    REGINA – A previsibilidade que se ganha com a prefixação da dívida é importante em períodos de crise. Quando falta liquidez no mercado, você pode ter uma necessidade momentânea (elevar os juros, por exemplo) que acabe custando muito mais do que quanto você tentou economizar ao evitar a prefixação da dívida. Além disso, o Brasil precisa alongar a dívida.

    DINHEIRO – Qual a sua avaliação sobre os gastos públicos?

    REGINA – O governo tem um custo brutal para arrecadar e uma inflexibilidade na hora de gastar. Quando precisa poupar, acaba cortando investimentos. A máquina pública é grande e complexa.

    DINHEIRO – Um governo que tem 38 ministérios assusta? REGINA – O Brasil tem um número maior de ministérios do que várias democracias desenvolvidas. Porém, é importamte analisar a eficácia deles.

    DINHEIRO – Quando a nota brasileira poderá ser elevada?

    REGINA – No cenário básico, o Brasil passa de estável para positivo em 12 meses, chegando a BBB+ em três anos. Pode até acontecer antes disso, mas o governo deve continuar com um superávit primário em torno de 3% do PIB.

    DINHEIRO – Déficit nominal zero, como defendeu o ex-ministro Antônio Palocci no passado, faz sentido?

    REGINA – Além de ser um sacrifício muito grande, a busca de um superávit nominal penalizaria o crescimento. Não vejo razão para isso.

    DINHEIRO – A Copa e os Jogos Olímpicos vão ajudar a avaliação brasileira? REGINA – Independentemente da Copa e da Olimpíada, o Brasil precisa melhorar a infraestrutura atual. Pelos cálculos da S&P, serão necessários até 2016, no mínimo, US$ 100 bilhões por ano. Os eventos ajudam a atrair investidores.

    DINHEIRO – Por que o Chile tem nota melhor do que a nossa?

    REGINA – Porque o Chile tem uma capacidade de pagamento maior do que a do Brasil. É o único país com rating A+ na região. O país atacou há anos os problemas microeconômicos, como educação, saúde, previdência, aliviando a parte fiscal. Virou referência.

    DINHEIRO – E a Argentina?

    REGINA – Há muita expectativa em torno do novo mandato da Cristina Kirchner. O principal problema lá é a inflação que, para a S&P, está em 25% ao ano, o que corrói a renda da população e onera toda a cadeia produtiva. Outro item que tem restringido a nota de risco da Argentina são os litígios com os credores em Nova York e em outras regiões, o que inviabiliza o acesso ao mercado global de capitais. A Argentina ainda não chegou a um acordo com o Clube de Paris, que a considera em moratória.

    DINHEIRO – As notas da maioria dos países têm piorado desde a crise de 2008. Como estão as avaliações dos bancos?

    REGINA – Na média, as notas dos países pioraram desde o estouro da crise internacional. Mas, curiosamente, enquanto os ratings globais foram reduzidos, os do Brasil subiram. No caso dos bancos, faz 15 anos que não existe nenhuma instituição privada no mundo com nota máxima (triplo A). Isso acontece porque o setor bancário é mais fragilizado em momentos de estresse. Como são globalizados, ficam sujeitos a volatilidades e vulnerabilidades de diversos países. É comum você ver bancos extremamente fortes do ponto de vista de capacidade de pagamento, mas que estão em 90 países diferentes, correndo riscos e vivendo turbulências em cada um deles.

    Revista IstoÉ Dinheiro/AC