Empregos poupados, até agora

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  • Postado em 18 de janeiro, 2012


    A crise mundial poupou empregos na América Latina até agora, mas sua persistência pode mudar o cenário, agravando os problemas crônicos que afligem os trabalhadores latino americanos, como os altos índices de informalidade e a falta de oportunidades para os jovens.

    O bom desempenho da economia dos países da região nos anos que se seguiram à crise financeira iniciada com a quebra do banco Lehman Brothers (em setembro de 2008) permitiu que o desemprego diminuísse seguidamente. No ano passado, o índice de desemprego foi de 6,8%, o mais baixo desde que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) começou a aferi-lo, em 1990. A expectativa da organização é de que, se a América Latina continuar imune à crise que se desenrola nos EUA e na Europa, seu crescimento em 2012 seja semelhante ao de 2011. “Mesmo com pequena redução no crescimento, de 4,5% em 2011 para 4% neste ano, o desemprego se manterá estável”, disse o representante da OIT no Brasil, José Ribeiro.

    São fortes, porém, os fatores que podem mudar esse cenário.

    “Tudo depende de como vai se comportar a zona do euro.

    Se os problemas da Europa atingirem com força o comércio internacional, isso afetará os países da região, o que pode comprometer a atividade econômica”, ressalvou o representante da OIT. Outro mecanismo pelo qual a crise na Europa pode atingir a América Latina é o fluxo de capitais, na forma de investimentos, empréstimos, remessas ou turismo.

    O relatório da OIT sobre o mercado de trabalho na região, Panorama Laboral 2011, observa que alguns países já podem ter sido afetados pela crise no mundo rico, pois a expansão de suas economias foi se desacelerando ao longo do ano passado.

    Mesmo que a América Latina consiga manter sua imunidade em relação aos problemas que afetam outras partes do mundo, a região continuará às voltas com sérios problemas no mercado de trabalho.

    No ano passado, havia 15,4 milhões de homens e mulheres que não conseguiam trabalho regular. E o fato de dispor de um emprego não significou necessariamente melhora substancial na qualidade de vida de milhões de pessoas. Pelo menos metade dos trabalhadores urbanos tem emprego informal, o que significa condições precárias de trabalho, baixa remuneração e baixa produtividade.

    Nos 16 países pesquisados pela OIT, 93 milhões de pessoas consideradas empregadas (o que equivale a praticamente à metade da população brasileira) são informais.Dessas,60milhões trabalham em unidades produtivas sem registro oficial, 23 milhões trabalham para empresas formalizadas, mas que não recolhem as contribuições devidas, e 10 milhões desempenham tarefas domésticas. São trabalhadores sem acesso aos direitos e à proteção de que gozam os emprega dos formais, como garantias e benefícios trabalhistas convencionais e previdência social.

    Persiste nos países da regiãoa desigualdade de oportunidades por gênero. Proporcionalmente, há mais mulheres sem emprego do que homens. Enquanto a taxa média de desemprego entre as mulheres latino-americanas foi de 8,3% no ano passado, a dos homens foi de 5,9%.

    Mas o dado mais preocupante é o desemprego urbano entre jovens, com idade de 15 a 24 anos. A taxa entre esses trabalhadores alcançou 14,9% no ano passado, mais do dobro da média da região e o triplo do desemprego entre adultos, de 5%. Para os jovens que encontram trabalho, é maior a possibilidade de cair na informalidade (em média, 6 de cada 10 trabalhadores mais novos têm trabalho informal).

    Esses números não deixam dúvidas de que os governos da região ainda não conseguiram formular programas eficazes para abrir oportunidades de emprego regular aos que chegam ao mercado de trabalho.

    “O progresso econômico e social será insustentável senão se encarar o desafio de gerar melhores oportunidades para os jovens”, advertiu a diretora regional da OIT para a América Latina, Elizabeth Tinoco.

    O Estado de S. Paulo/AC