Edifícios ficavam em área instável, onde havia duas lagoas

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  • Postado em 27 de janeiro, 2012


    Wilson Tosta

    Pesquisador diz que vulnerabilidade do terreno já é conhecida desde os tempos do Brasil Colônia

    A história do terreno onde fica a Avenida Treze de Maio é parte relevante do cenário da tragédia.

    A área originalmente era instável – no início do Brasil Colônia, região de charco entre as depois aterradas Lagoas do Boqueirão da Ajuda (hoje Passeio Público) e de Santo Antônio (atual Largo da Carioca). Foi lá que, nos anos 70, escavações do Metrô encontraram pedaços de embarcações, ossadas de peixes e restos do lodaçal que encobria o fundo da área que recebeu o aterro.

    Segundo o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, o conhecimento anterior dessa instabilidade levou construtores do Theatro Municipal, ao lado do local do acidente, a fixá-lo sobre mais de cem estacas de madeira tratadas com betume. “Aquela região é de uma grande lagoa, a do Boqueirão, que se juntava com a de Santo Antônio. Sempre digo que a opção de nossos antigos moradores e governantes foi equivocada.

    O Rio de Janeiro era cheio de lagoas. O terreno ocupável era milhas, muito baixa sem relação ao nível do mar”, disse o pesquisador ao Estado.

    Marcada por construções importantes, como o Municipal, a Câmara dos Vereadores e o Museu Nacional de Belas Artes, a região hoje é decadente e tomada por ambulantes e pela população de rua.

    Em 1592, frades franciscanos erigiram no local uma pequena igreja. Anos mais tarde, foi iniciada a construção do Convento de Santo Antônio, hoje ponto turístico importante. Para drenar a água da lagoa, os religiosos abriram um canal, chamado Rua da Vala – hoje Rua Uruguaiana. Foi no Largo da Carioca que, no início do século18, foi inaugurado o primeiro chafariz da cidade.

    A Cinelândia, a outra extremidade da Avenida Treze de Maio, surgiu depois que, na década de 1920 do século passado, foi demolido o Convento da Ajuda, dando espaço a cinemas, bares e casas noturnas. Mais adiante, na outra ponta da região, fica o Passeio Público, construído onde era a Lagoa do Boqueirão da Ajuda, aterrada no fim do século 18.

    “A história da cidade é cheia de registros do tipo ‘deu uma chuva, a cidade ficou toda alagada’, já no século 18″, explica o pesquisador.

    “Foi o erro dessa ocupação. O governador Luís Vaía Monteiro (que governou a Capitania do Rio de Janeiro de 1725 a 1732), falando das dificuldades de escoamento das águas da chuva, propôs a construção de um canal navegável ligando a Lagoa do Boqueirão ao Canal do Mangue (no que hoje é a Avenida Presidente Vargas). Faria uma grande ilha no centro da cidade.” Crescimento. Nas primeiras décadas do século 20, a região ganhou importância com as reformas do prefeito Pereira Passos, abertura da Avenida Central (hoje Rio Branco) e desmonte do Morro do Castelo, que destruiu os marcos da fundação da cidade.

    A região ganhou peso político: a Câmara dos Deputados, de 1914 a 1922, funcionou no Palácio Monroe, prédio em estilo eclético construído poucos anos antes do lado do Passeio Público e que, a partir de 1922, com a inauguração do Palácio Tiradentes, abrigou o Senado.

    O peso econômico viria no fim do século, com a construção das sedes da Petrobrás e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), na Avenida República do Chile.

    Com o tempo, contudo, o boulevard idealizado para a Avenida Central na Belle Époque deu lugar a prédios de dezenas de andares, em estilo moderno.Os cinemas aos poucos deixaram a Cinelândia, que manteve o nome – ninguém no Rio chama a região por seu nome oficial, Praça Floriano.

    Em 1976, a ditadura demoliu o Monroe.

    A região manteve importância política: pela Cinelândia passaram os principais protestos contra a ditadura militar, inclusive a Campanha das Diretas-Já, em 1984, e ainda hoje é lá que acontece mas principais manifestações políticas do Rio. Sintomaticamente, o presidente dos EUA, Barack Obama, quis discursar na praça, no ano passado, mas não pôde por motivos de segurança.

    O Estado de S. Paulo/AC