Economia paralela floresce na maior favela da Índia

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  • Postado em 23 de janeiro, 2012


    Por JIM YARDLEY

    MUMBAI, Índia – No limite da maior favela da Índia, nos quatro andares do deteriorado imóvel de Shaikh Mobin, quatro empreendimentos prosperam.

    No térreo, carpinteiros montam móveis. No primeiro andar, costureiros cortam e cosem calças jeans. Acima deles, trabalhadores se debruçam sobre as máquinas de costura para fazer blusas. No último andar, outros operários produzem ternos masculinos e vestidos de noiva.

    A favela de Dharavi é uma das mais famosas. Junta Dickens, Horatio Alger e Upton Sinclair. Está enraizada no imaginário indiano, retratada em livros e filmes de Bollywood, e também em “Quem Quer Ser um Milionário?”. É um clichê da miséria indiana.

    Mas é também uma produtiva colmeia de oficinas, com uma produção anual estimada entre US$ 600 milhões e US$ 1 bilhão. “Esta é uma economia paralela”, disse Mobin. “Na maioria dos países desenvolvidos, há uma economia. Mas na Índia há duas.”

    Especialistas estimam que o setor informal -centenas de milhões de comerciantes, agricultores, operários da construção civil, taxistas, vendedores ambulantes, catadores, alfaiates, consertadores, agenciadores, operadores do mercado negro e muitas outras categorias- seja responsável pela esmagadora maioria do crescimento econômico anual da Índia, e por até 90% de todos os empregos.

    Dharavi já foi estudada na Escola de Administração de Harvard e dissecada por urbanistas da Europa ao Japão.

    “Talvez, para quem nunca tenha visto Dharavi, Dharavi seja uma favela, uma enorme favela”, disse Gautam Chatterjee, secretário-executivo do Ministério da Habitação do Estado de Maharashtra. “Mas eu também olho para Dharavi e a percebo como uma cidade dentro da cidade, uma cidade informal.”

    Cada camada de Dharavi, quando exposta, revela algo bem mais complicado e mais orgânico do que o conceito de favela apenas como moradia de pobres.

    “A prioridade deles é ganhar dinheiro”

    Um passeio por Dharavi, onde vivem e trabalham até 1 milhão de pessoas, é uma viagem através de um labirinto úmido e fedorento de becos cada vez mais estreitos. O trânsito é barulhento. Moscas e mosquitos pousam em carroças que vendem frutas e sobre a pele das cabras vadias.

    Dez famílias compartilham uma só torneira, de onde sai água menos de três horas por dia. As latrinas são comunitárias, com a cobrança de US$ 0,03 por uso.

    O esgoto corre por valas estreitas a céu aberto, criando um lento fluxo de lixo e água esverdeada. A diarreia e a malária são comuns. A tuberculose paira no ar, espalhada por tosses e cusparadas.

    “As pessoas que vêm para Dharavi e a outras favelas -a prioridade delas não é a saúde”, disse o médico Pallavi Shelke, que trabalha em Dharavi. “A prioridade delas é ganhar dinheiro.”

    E é isso que talvez seja o mais surpreendente na miséria de Dharavi: as pessoas se mudam para lá voluntariamente. Há décadas.

    Os ânimos às vezes se exaltam, mas a polícia diz que a criminalidade é bastante baixa, menor do que em áreas mais ricas e menos densamente povoadas da cidade. Um forasteiro pode caminhar pela favela sem jamais se sentir ameaçado.

    Um morador ambicioso

    Dharavi tem uma força de trabalho qualificada, custos baixos para oficinas e trabalhadores, e redes informais entre fornecedores, agenciadores e oficinas.

    Mohammed Asif, 35, é um típico integrante da classe empresarial de Dharavi. Chegou à favela em 1988, vindo da sua aldeia em Bihar, após ouvir outra família falar de Dharavi. Aos 12 anos, saltou num trem para Mumbai.

    Ele conta que começou como aprendiz de coureiro, até finalmente abrir sua própria oficina. Nunca teria conseguido empréstimos e ponto comercial se Dharavi fosse parte da economia formal.

    Ele aluga sua oficina do proprietário de uma loja de artigos de couro, que recentemente lhe fez uma encomenda de 2.700 pastas de couro que um banco distribuirá como brinde no feriado hindu do Diwali.

    Asif tem 22 empregados, que trabalham sentados de pernas cruzadas atrás de montes de couro preto e macio, numa linha de montagem informal, exceto pelo fato de que o chão de fábrica é um quarto apinhado, que também serve como dormitório -os empregados dormem em cima, num mezanino. As pastas deveriam ser entregues em duas semanas.

    “Eles trabalham duro”, disse Asif. “Trabalham das 8h às 23h, porque quanto mais trabalham, mais vão ganhar para mandar para as famílias deles. Eles vêm aqui para ganhar dinheiro.”

    Quase todos os operários de Asif também são de Bihar.

    Mohammad Wazair ganha cerca de 6.000 rupias por mês, ou cerca de US$ 120. Manda mais ou menos metade disso para sustentar a mulher e os dois filhos. Ele é analfabeto, mas agora paga para seus filhos uma modesta escola particular da sua aldeia.

    “Na aldeia, que opções nós temos?”, perguntou. “Aqui, posso aprender um ofício e ganhar dinheiro. Pelo menos meus filhos vão ter uma educação.”

    Segundo um estudo de 2007 da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA, há 5.000 oficinas de coureiros em Dharavi, e também ao menos 500 grandes confecções (com pelo menos 50 máquinas de costura cada), e cerca de 3.000 menores.

    E não é só. Há ainda os processadores de alimentos, que fazem salgadinhos para o resto da Índia. E mais: gravadores, bordadeiras e, sobretudo, vastas oficinas de reciclagem de plástico.

    A valiosa terra na favela

    Mumbai cresceu como Dharavi cresceu, e se antigamente a favela ficava na periferia, ela hoje é uma ferida no meio de uma cidade peninsular e faminta por terrenos. Imobiliárias não enxergam uma favela, e sim uma área avaliada em centenas de milhões de dólares, com fácil acesso ao aeroporto, cercada por estações ferroviárias e próxima a um elegante parque empresarial.

    “Estão falando em revitalizar Dharavi”, disse Mohammad Khurshid Sheikh, dono de uma oficina de couro. “Mas, se fizerem isso, toda a cadeia produtiva pode se romper. Essas empresas podem funcionar porque Dharavi atrai trabalho. As pessoas podem trabalhar e dormir aqui na oficina. Se houver revitalização, eles não vão conseguir esse quarto tão barato. Eles não vão voltar aqui.”

    O arquiteto e urbanista Matias Echanove há muito tempo argumenta que Dharavi não deveria ser considerada uma simples favela, já que funciona como uma cidade residencial e comercialmente autônoma.

    Ele disse que demolir Dharavi, ou mesmo recuperá-la completamente, serviria para empurrar os moradores para outras favelas.

    “Eles vão criar favelas reais, de verdade”, disse ele. “Ninguém está dizendo que Dharavi é um paraíso. Mas precisamos entender sua dinâmica específica, para que, quando houver uma intervenção do governo, ela não destrua o que está lá.”

    Folha de S. Paulo/AC



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