Economia anima moradores das Malvinas

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  • Postado em 21 de janeiro, 2012


    SYLVIA COLOMBO

    Manutenção dos bons números é, em parte, por causa da ajuda do Reino Unido; petróleo é um grande enigma

    Para os kelpers, que moram no arquipélago, reivindicação argentina é pouco objetiva e um ‘incômodo constante’

    “Os kelpers [habitantes das ilhas Malvinas] querem ser deixados em paz”, disse à Folha Dick Sawle, membro da Assembleia Legislativa do arquipélago, cuja soberania é disputada por Argentina e Reino Unido.

    Em entrevista por telefone, Sawle, que nasceu na Inglaterra mas se instalou nas ilhas em 1986, disse que os kelpers estão animados com relação às perspectivas econômicas do arquipélago, mas que a reivindicação argentina é um “incômodo constante”.

    “Os argentinos reagem de forma muito emotiva, não têm uma visão pragmática, objetiva do problema”, afirma.

    A tensão em torno das Malvinas (Falklands, para os britânicos) ganhou novos capítulos na última semana, com o premiê britânico, David Cameron, chamando os argentinos de “colonialistas”.

    Às vésperas da comemoração dos 30 anos da Guerra das Malvinas, os kelpers comemoram os bons números de sua economia (o PIB per capita é de 22 mil libras), ainda que sua manutenção seja, em muito, por conta da ajuda vinda de Londres.

    Até o conflito, as Malvinas viviam da criação de ovelhas e da agricultura. Logo após a derrota argentina, o Reino Unido passou a investir pesado na reestruturação das ilhas.

    Em 1986, começou a venda de licenças para pesca a europeus e asiáticos. Hoje, a pesca garante US$ 40 milhões por ano, correspondentes a 300 mil toneladas de peixes.

    A atividade, da qual participam vários membros do governo como donos de navios pesqueiros (o que não é ilegal), garante 60% do PIB.

    O turismo é outra fonte de renda importante. Cerca de 60 mil pessoas visitam o arquipélago todos os anos. Em geral, porém, os visitantes ficam apenas poucas horas, tiram fotos dos pinguins e fazem compras. “Queremos estimular o turismo dentro da ilha, caminhadas, visitas às outras praias”, diz Sawle.

    O petróleo ainda é um grande enigma. Várias tentativas já foram feitas com o objetivo de explorá-lo de forma regular, por cinco empresas, a Falkland Oil & Gas, Rockhopper, Desire, Borders & Southern e Argos. A primeira anunciou um investimento de 70 milhões de libras (cerca de R$ 192 milhões) para explorar uma zona em que anunciou ter encontrado petróleo.

    “O petróleo que há ali é parecido com o do pré-sal brasileiro, de águas profundas, portanto muito caro para explorar. As firmas conseguem os recursos para isso no mercado financeiro de Londres”, diz o analista Jorge Castro.

    Além dessas atividades, as ilhas também se sustentam pela criação de ovelhas e a agricultura de subsistência. Muita coisa ainda tem de vir do Reino Unido, por meio de dois voos semanais entre Stanley e Londres ou via barco.

    Segundo Sawle, com relação à saúde e à educação, as Malvinas têm boa qualidade de atendimento num nível básico. Depois, dependem de alianças externas.

    A educação é gratuita até os 21 anos. Entre 16 e 18, os adolescentes podem optar por estudar em Londres, com tudo pago pelo governo britânico. Se desejarem cursar universidade no Reino Unido, têm os estudos custeados.

    O arquipélago é dependente nas áreas de defesa e relações exteriores. A base militar de Mount Pleasant é mantida em funcionamento devido à ameaça argentina, e os britânicos vão reforçar o contingente no aniversário da guerra, por precaução.

    “Gostaríamos de fazer negócios com a Argentina, assim como com o Brasil e o Uruguai, todos teríamos a ganhar. Mas temos de gastar dinheiro com armas e soldados”, diz Sawle.

    Folha de S. Paulo/AC