Dilma tira Machado da Transpetro e esvazia o PMDB

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  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    Demissão é nova prova do prestígio de Graça Foster, que acaba de assumir a Petrobras, e entra na lista de perdas de cargos do partido na pasta das Minas e Energia

    Ramiro Alves

    O espaço do PMDB no governo Dilma Rousseff vem sendo reduzido numa velocidade de dar inveja aos grandes pilotos da Fórmula-1. O próximo a sair é o ex-senador Sérgio Machado, que há oito anos e meio preside a Transpetro, subsidiária da Petrobras que cuida de logística e tem contratos bilionários para a construção de navios. Machado ainda não foi comunicado oficialmente de sua demissão, mas a empresa já parou à espera de seu novo chefe. A decisão está tomada e é mais uma demonstração de força da futura presidente da Petrobras, Maria da Graça Foster, já chamada nos bastidores de presidente do partido de Dilma.

    Sérgio Machado foi um importante líder do PSDB no Senado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Por divergências regionais no Ceará acabou se filiando ao PMDB. Pelo partido, disputou e perdeu o governo de seu Estado, em 2002. Como tinha excelente relacionamento com os caciques peemedebistas no Senado – principalmente José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL) – acabou adotado e ganhou a presidência da Transpetro, no começo do primeiro governo Lula. Há alguns anos se especula sobre a sua saída, mas como um mandacaru na seca ele ia resistindo até esbarrar na determinação de Graça Foster. Com o apoio integral de Dilma, Graça vai comandar uma desmontagem dos espaços partidários no setor de petróleo e gás. Os políticos vão perder espaço, mas o PMDB está sendo dizimado.

    Carta branca

    Com carta branca, Graça trabalha intensamente para fazer o sucessor de Machado. Mesmo levando em consideração a capacidade de reação dos líderes do PMDB, espera ganhar a parada colocando na mesa o nome de Richard Olm, gerente executivo de Logística e Participação em Gás Natural, seu fiel escudeiro, que já trabalhou com a nova presidente em outros cargos. Olm é uma espécie de curinga que também pode suceder Graça na diretoria de Gás e Energia.

    Outro movimento que vem dando resultado é o esvaziamento da Diretoria Internacional, ocupada por Jorge Luiz Zelada, um funcionário de carreira que chegou a diretor com o apoio do PMDB na Câmara dos Deputados. O cargo está na cota da bancada mineira. As funções de Zelada estão diminuindo tanto, que nos bastidores já se fala na extinção da diretoria com suas tarefas sendo divididas. A especulação inclui ainda a criação de uma diretoria Corporativa, que poderia ser ocupada pelo ex-senador petista José Eduardo Dutra, ex-presidente da própria Petrobras.

    Corte na própria carne

    As trocas na cúpula da maior empresa brasileira devem atingir também diretores diretamente identificados com o Partido dos Trabalhadores. O primeiro da lista é Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção. Estrella e Graça não se bicam e existe nos corredores do prédio da avenida Chile, onde fica a sede da Petrobras no Rio, um clima de despedida do diretor. Caiu no débito de Estrella o longo atraso na licitação de sondas para o pré-sal. A diretoria do petista é muito cobiçada, pois “fura poço”, como lembrou o inesquecível deputado Severino Cavalcanti, durante sua meteórica passagem pela presidência da Câmara. Ele também brigava por uma “boquinha” na Petrobras. Outro que tem rusgas com Graça e deve sair é Renato Duque, diretor de Serviços, também ligado ao PT. Estrella, que tem muito prestígio na esquerda, tenta fazer seu sucessor. Ele trabalha por Solange Guedes, gerente-executiva da área de exploração e produção. Além de Solange, existe um nome que conta com a simpatia da nova manda-chuva: é Magda Chambriard, diretora da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Graça quer que o substituto de Estrella tenha um perfil de “tocador”, pois será preciso ampliar fortemente a produção para que as metas sejam atingidas. Um outro nome com prestígio tanto junto a Dilma quanto com Graça é o do presidente da BR Distribuidora, José Lima Neto, que tem bom trânsito entre os partidos, mesmo sendo do PT. Lima Neto também construiu um ótimo relacionamento com o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, que é tido como uma espécie de Rainha da Inglaterra, mas é, formalmente, o homem do PMDB, no setor.

    Embora indicado pelo PP, o diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, deve continuar no cargo, pois conseguiu estabelecer um bom trânsito com vários partidos, além de ter um perfil técnico. Quanto a Almir Barbassa, diretor Financeiro e de Relações com Investidores, há muitas informações desencontradas. Ele também tem ligações com o PT, foi fiel escudeiro de Sérgio Gabrielli, e pode continuar no cargo. Contam a seu favor a experiência num setor vital e a relação cordial com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do Conselho de Administração da Petrobras.

    ANP na mira

    Os planos de Graça Foster incluem ainda uma maior influência sobre a ANP. Segundo uma raposa acostumada com os bastidores da área, “ela está trabalhando para dominar a produção via Petrobras, a regulação e os leilões através da ANP”. Verdade ou maldade política, o fato é que Graça já tem alguns nomes para ocupar a diretoria geral da Agência, vaga desde a saída de Haroldo Lima, ex-deputado do PC do B, que deixou o cargo no final de 2011, depois de oito anos. Marcia Chambriard pode ser uma alternativa, já que para ser nomeada diretora da Petrobras, a engenheira teria que cumprir quarentena – que foi ampliada para um ano pela Medida Provisória 532, de abril de 2011-para assumir cargos em empresas produtoras de petróleo. A mudança causou estranheza na cúpula da ANP. Outro que poderia ser tirado da manga do colete é José Eduardo Dutra, mas por suas ligações partidárias e por ter passado pela Petrobras, certamente, haveria reação negativa.

    Entre os políticos, há uma estranheza pela falta de reação do PMDB, principalmente da bancada do Senado, que é a maior da base governista, ao constante cerco aos cargos ocupados por seus correligionários. A presidência da Transpetro era uma das últimas joias da coroa que o partido ainda podia ostentar. O desemprego do ex-senador Sérgio Machado também causa desconforto, já que ele é, ou era, apoiado pela tropa de choque que comanda o Senado Federal há décadas. Pelo menos por enquanto, não há ameaças no ar, nem da retirada de apoio e muito menos de manifestações públicas de indignação, mas na política e na física tem uma lei que não falha: toda ação, corresponde a uma reação.

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    Richard Olm, gerente executivo de Logística e Participação em Gás Natural, fiel escudeiro da nova presidente da Petrobras, é um dos candidatos para assumir subsidiária

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    Outro movimento é o esvaziamento da Diretoria Internacional, ocupada por Jorge Luiz Zelada, um funcionário de carreira que chegou a diretor com o apoio do PMDB

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    Brasil Econômico/AC