Dilma assume enfim a Petrobras

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  • Postado em 25 de janeiro, 2012


    Faz tempo que a Petrobras é considerada um verdadeiro Estado. Na ditadura militar, em que hierarquia era assunto sério, a estatal tinha visível linha direta com o Planalto. Quando o general Ernesto Geisel deixou a empresa para assumir o Planalto, em 1974, na prática acumulou os cargos. Guardadas as diferenças históricas, é como se Dilma repetisse o feito ao substituir José Sérgio Gabrielli por Maria das Graças Foster, diretora de Gás e Energia.

    Alinhar a Petrobras aos planos do Palácio é preocupação de qualquer presidente. Com FH, responsável por arejá-la ao conseguir aprovar no Congresso a quebra do monopólio, a estatal passou por uma reforma administrativa, a fim de ganhar em agilidade. Permitida a licitação de áreas para exploração por empresas privadas, abriram-se as portas para o salto da produção nacional de petróleo e gás, além de ser encontrada a nova e estratégica fronteira do pré-sal.

    Com a chegada de Lula ao poder, em 2003, a Petrobras, como esperado, passou ao controle de grupos políticos ligados a sindicatos e não deixou de entrar no rateio entre partidos da base aliada. José Eduardo Dutra, nomeado presidente por Lula, geólogo de formação, presidente do Sindicato dos Mineiros do Estado de Sergipe (Sindimina) e dirigente da CUT, estava na empresa enquanto se desenrolava o mensalão. A empresa é citada no escândalo, no caso de tráfico de influência em que o então secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, ganhou um jipe de luxo de uma empreiteira baiana contratada pela estatal, GDK.

    Gabrielli, economista, diretor financeiro na gestão Dutra, assumiu o cargo em 2005 e bateu o recorde de permanência no posto, sete anos. Dilma agiu bem ao não permitir que um pré-candidato ao governo da Bahia em 2014 se mantenha num cargo tão poderoso. Mas também não devem ser esquecidas as desavenças entre ele e Dilma, quando ela, no governo Lula, presidiu o conselho de administração da Petrobras.

    Gabrielli não escapou de histórias comuns a administrações companheiras, como os relatos de desmesurada ajuda a ONGs de militantes do partido. Mas, do ponto de vista do lulopetismo, Gabrielli foi um bom companheiro. Desdobrou-se na defesa do equivocado projeto de tornar a estatal dona cativa de 30% da operação no pré-sal e na mudança do modelo de exploração de concessão para partilha, mais um passo no processo de reestatização do setor. Trata-se de um projeto de longo alcance, porque passa até pela conversão da estatal no centro de um ressuscitado programa de substituição de importações de figurino geiselista. Em contrapartida, depois de um gigantesco processo de capitalização, em 2010, em que os acionistas minoritários perderam espaço, o valor de mercado da estatal passou a cair. Mas isso não deve preocupar os estatistas.

    A química Maria das Graças Foster, além de relação pessoal, antiga e próxima com Dilma, tem a vantagem de conhecer bastante a empresa, da qual é funcionária de carreira.

    Difícil prever divergências inconciliáveis entre as duas. A confirmação de Graça Foster, na segunda-feira, fez a ação da Petrobras subir. Deve haver acionista esperançoso que a interferência político-partidária na estatal possa ser contida. Não se sabe. O ideal é que assim fosse e houvesse mais racionalidade numa empresa tão grande que até mesmo a incompetência pode ser disfarçada no gigantismo.

    O Globo/AC



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