Dilma assume a Petrobras e limita influência dos partidos políticos

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  • Postado em 23 de janeiro, 2012


    Escolha de Graça Foster, da confiança da presidente, reforça opção por nomes técnicos e vai facilitar alinhamento

    Ramiro Alves

    A saída do economista José Sérgio Gabrielli de Azevedo da presidência da maior empresa brasileira é muito mais do que uma troca de guarda e vai além do mero interesse na disputa do governo da Bahia em 2014. A substituição do mais longevo presidente da Petrobras pela engenheira química Maria das Graças Silva Foster significa que a presidente Dilma Rousseff está assumindo integralmente o comando da estatal. Nos últimos nove anos, ela e Gabrielli sempre viveram entre tapas e beijos.

    Com a escolha de Graça – uma amiga de Dilma que sempre foi afinada com as posições da presidente -, a Petrobras “não vai perder tempo discutindo as diretrizes do governo”, como definiu uma fonte.

    Gabrielli estava na presidência desde 22 de julho de 2005 e, nesses exatos seis anos e meio, comprou muitas brigas. No final do segundo governo Lula, ele frequentou a lista de possíveis ministros da Fazenda, mas-estranhamente para muitos – foi confirmado na Petrobras pelo então presidente, mesmo antes da posse de Dilma. Os constantes apelos feitos por Gabrielli para que a gasolina fosse reajustada foram distanciando-o da equipe econômica, comandada exatamente pelo presidente do Conselho de Administração da Petrobras, Guido Mantega. No governo Dilma, Gabrielli perdeu várias disputas. Ele olhava para o lucro da empresa e o governo, como acionista majoritário, não queria descuidar da inflação.

    Também houve disputa em torno da capitalização, a maior da história do capitalismo, como Mantega gosta de dizer, que gerou R$ 120 bilhões para a exploração do pré-sal. As ações da companhia, no entanto, ainda não se recuperaram. Ontem, como anúncio da troca, o mercado reagiu positivamente.

    O nome de Graça Foster será confirmado na próxima reunião do Conselho de Administração, marcada para o dia 9 de fevereiro.

    A posse deve ser no dia 13 de fevereiro. Na diretoria executiva, outros nomes devem ser substituídos. Além da diretoria de Gás e Energia, ocupada por Graça, é dado como certas as substituições de alguns diretores.

    O primeiro da lista é Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção, ligado ao PT. Estrella gostaria de deixar em seu lugar Solange Guedes, gerente-executiva de sua área.

    Também cotado para sair está José Luiz Zelada, diretor Internacional, que é da cota do PMDB, mas estaria perdendo apoios importantes no partido. O diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, indicado pelo PP, deve continuar no cargo, assim como Renato Duque, diretor de Serviços, e Almir Barbassa, diretor Financeiro e de Relações com os Investidores. Os dois têm o apoio do PT e Barbassa uma boa relação com Guido Mantega. Se as trocas acontecerem, Graça terá três diretorias vagas para sinalizar a diminuição da influência política na empresa.

    Movimento que Dilma, Mantega e ela gostariam de fazer.

    Existe ainda a possibilidade de ser posta em prática uma sugestão que ganhou corpo em 2011. A criação de uma sétima diretoria, a Corporativa, cairia como uma luva para José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e da própria Petrobras. O governo tem uma dívida de gratidão com Dutra que – por motivos de saúde – renunciou à presidência do PT no meio da campanha eleitoral que levou Dilma ao Palácio do Planalto. Outro nome muito cotado para ocupar uma das diretorias vagas é o do atual presidente da BR Distribuidora, José Lima Neto, que substitui Dutra no cargo, em 2009, quando ele saiu para disputar a presidência do PT.

    Graça Foster “sempre foi o nome de Dilma para a Petrobras.” Engenheira química formada pela UFF, com pós-gradução em engenharia nuclear pela UFRJ e MBA em economia pela FGV, ela fez história na empresa e agora vai gerir um dos maiores planos de investimentos do mundo: US$ 224 bilhões. Maria das Graças entrou na empresa como estagiária, em 1978 e foi uma das primeiras mulheres a trabalhar embarcada em plataformas de petróleo. No prédio da Petrobras, no centro do Rio, todos esperam um choque de gestão. A substituição do estilo baiano de Gabrielli por uma administração “com uma pegada Dilma”.

    Casada e mãe de dois filhos, Graça é considerada muito exigente, cobra resultados e está sempre presente. Numa entrevista ao jornal O Globo, em setembro de 2011, ela afirmou: -Morei no Complexo do Alemão até os 12 anos, convivi com a violência doméstica na infância e enfrentei dificuldades na vida.

    Sempre trabalhei para ajudar no sustento da minha mãe e dos meus filhos e para pagar meus estudos.

    Garra para mim é tudo.

    Nunca tive medo de trabalho.

    Numa outra entrevista, em 2008, Graça afirmou que morreria pela Petrobras.

    Se dependesse apenas de seus planos políticos, Gabrielli gostaria de ficar à frente da estatal por mais algum tempo. Seu timing ditava um outro cronograma. Mas Dilma preferiu antecipar a substituição e combinou com o governador Jacques Wagner (PT) o convite para Gabrielli trocar os bilionários números da Petrobras por uma secretaria de estado no governo Bahia. Pode ser Planejamento ou Fazenda. De lá, ele vai botar o trio elétrico nas ruas e tentar entrar no Palácio de Ondina como governador,em 2014. Feito que um outro presidente da Petrobras já fez: Juracy Magalhães.

    Gabrielli está saindo também por seus resultados, que se desagradam aos acionistas também não emocionam o governo. Nos últimos dois anos, a empresa descumpriu, por muito pouco é verdade, as metas de produção de 2,1 milhões de barris/dia.

    Mas nem tudo são flores para a primeira mulher na presidência da Petrobras. A empresa do marido de Graça Fortes foi acusada de multiplicar seus contratos com a estatal a partir da chegada da mulher à direção. Em três anos, a C. Foster, de Colin Vaughan Foster, assinou 42 contratos com a Petrobras para fornecer componentes eletrônicos para diferentes áreas, sendo que 20 foramsem licitação. Certamente, a oposição no Congresso vai relembrar o caso.

    Amiga de Dilma do tempo de vacas mais magras, Graça foi cotada até para ser ministra da Casa Civil, cargo que ficou com Antônio Palocci e hoje é de Gleisi Hofmann. Dilma era secretária de Energia do governador gaúcho Olívio Dutra e Graça, gerente da área de Gás da Petrobras.

    Elas assinaram diversos convênios e se aproximaram na vida.

    Quando virou ministra das Minas e Energia de Lula, Dilma levou Graça para a Secretaria de Petróleo e Gás. Depois, foi presidente da Petroquisa e da BR e desde 2007 estava na diretoria de Gás e Energia.

    Quem trabalhou com Graça não esquece o mesmo comportamento duro-para ficar nos adjetivos mais brandos-da “presidente Dilma”.

    Que Graça é dilmista, não resta dúvida. No último ato da campanha presidencial de 2010, num belo domingo de sol, na praia Copacabana, ela estava paramentada, com camiseta, adesivos e bandeira. Se divertia com as musiquinhas que ironizavam a bolinha de papel que atingiu o tucano Serra. Caminhava sob o sol como uma militante comum.

    Nada de estrelismo, estrelas só as várias do PT que adornavam suas roupas brancas

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    Com a escolha de uma amiga de Dilma, a Petrobras “não vai perder tempo discutindo as diretrizes do governo”

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    Na diretoria executiva, outros nomes devem ser substituídos, como Guilherme Estrella, de Exploração e Produção, e José Luiz Zelada, da área internacional

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    Constantes apelos para reajuste da gasolina e debate sobre capitalização da estatal afastaram Gabrielli da equipe econômica

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    Brasil Econômico/AC