Dança das cadeiras na Avenida Chile

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  • Postado em 24 de janeiro, 2012


    Quatro dos seis diretores da Petrobras devem ser trocados. Ações da estatal sobem até 5%

    Ramona Ordoñez, Monica Tavares, Vinícius Neder e Bruno Villas Bôas* economia@oglobo.com.br

    RIO, BRASÍLIA e SALVADOR

    Se durante os dois mandatos do governo Lula praticamente não houve alterações na Petrobras, a nomeação de Maria das Graças Foster para a presidência da estatal, no lugar de José Sergio Gabrielli, de olho na carreira política, promete promover mudanças imediatas em pelo menos quatro das seis diretorias atuais. O nome de Graça Foster, que surgiu no fim de semana, foi confirmado em nota divulgada pela Petrobras. Esta afirma que o Conselho de Administração da estatal, presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, apreciará o nome da executiva em sua reunião de 9 de fevereiro. O mercado reagiu bem à notícia, e as ações da empresa chegaram a subir até 5%, a maior alta da Bolsa de Valores de São Paulo ontem.

    Uma das mudanças seria na diretoria de Exploração e Produção, ocupada desde 2003 por Guilherme Estrella. Já há alguns meses circulam na companhia rumores de que Estrella pretende se aposentar. Uma das diretorias mais importantes, é responsável por investimentos que chegam a US$127,5 bilhões entre 2011 e 2015, ou 57% dos US$224,7 bilhões previstos para o período. Chamada de “diretoria que fura poço” pelo ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, ela será responsável pelo desenvolvimento dos campos gigantes do pré-sal.

    Ontem, circulavam rumores sobre a dança das cadeiras na sede da empresa, na Avenida Chile, no Centro. Para Exploração e Pr Estatal nega haver contratos suspeitosodução, os nomes mais cotados são os da diretora da Agência Nacional do Petróleo (ANP) Magda Chambriard e do presidente da Petrobras Distribuidora (BR), José Lima Neto. Se ele sair da BR, um candidato cogitado para a presidência da distribuidora é seu atual diretor financeiro, Nestor Cerveró.

    A diretoria de Engenharia e Serviços, ocupada por Renato Duque, também deve mudar. Nos últimos meses, tem circulado a notícia de que ele estaria cansado e já teria até comunicado seu interesse em sair à presidente Dilma Rousseff. Para seu lugar, um dos mais cotados é o atual gerente-executivo da diretoria, Roberto Gonçalves.

    Graça Foster ocupa, hoje, a diretoria de Gás e Energia. E ela mesma vai indicar seu substituto, segundo fontes. Entre os nomes citados como prováveis candidatos, foram citados ontem o de Magda Chambriard, o do presidente da Petrobras no Uruguai, Irani Varela, e do gerente-executivo da área Internacional, Fernando Cunha.

    Outra diretoria que deverá sofrer mudanças é a da área Internacional, ocupada por Jorge Zelada. Ele foi indicado pelo PMDB, mas teria tido um fraco desempenho nos últimos tempos, agravado pelo fato de a Petrobras ter decidido reduzir suas atividades no exterior. Na companhia, fala-se até na possibilidade de acabar com a diretoria, dividindo suas atribuições por outras áreas. Mas, caso ela seja mantida, o nome de Cunha está cotado.

    Já Almir Barbassa, indicado pelo atual presidente da Petrobras, deverá, por enquanto, ser mantido na diretoria Financeira, e Paulo Roberto Costa continuaria na de Abastecimento. Sérgio Machado deixaria a presidência da Transpetro, subsidiária da Petrobras da área de transportes.

    Para mercado, troca já era esperada

    A alta da Petrobras impediu uma queda na Bolsa ontem. O Ibovespa, índice de referência, subiu 0,12%, aos 62.386 pontos. As ações preferenciais (PN, sem direito a voto) e ordinárias (ON, com voto) da estatal avançaram 3,76% (R$25,13) e 3,61% (R$27,30), res pectivamente, tendo chegado a subir cerca de 5%. No ano, a alta acumulada é de 19,73% (ON) e 18,02% (PN). Segundo analistas, os investidores reagiram positivamente ao perfil da futura presidente da Petrobras, funcionária de carreira e tida como grande conhecedora da empresa.

    – Graça conhece muito a empresa, passou por mais de um diretoria e tem perfil de gestora – resume Luiz Otávio Broad, analista da corretora Ágora.

    Por outro lado, a troca no comando já era esperada, e o nome de Graça Foster, o mais cotado. Por isso, Erick Scott, analista da corretora SLW, viu certa euforia no patamar máximo, daí uma desaceleração no fim do dia. Também teria pesado a alta nos preços internacionais do petróleo, depois que a União Europeia prometeu embargar o petróleo iraniano a partir de julho. Em Nova York, o barril do tipo leve americano subiu 0,36%, a US$99,94.

    Já o ministro da Fazenda disse que a estratégia da Petrobras continuará a mesma:

    – Ela vai fazer a estratégia que vinha sendo praticada, que é uma Petrobras cada vez mais presente na economia brasileira, se viabilizando para a exploração do pré-sal, que é o grande desafio que temos pela frente, ampliando seus investimentos, melhorando sua governança – disse Mantega.

    O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, também afirmou que não haverá grandes mudanças, no máximo “pequenos ajustes”:

    – A política da Petrobras sempre foi definida pelo Conselho de Administração.

    Após cumprir a quarentena, Gabrielli deve assumir a secretaria de Minas e Energia da Bahia, que será criada especialmente para ele. O movimento foi confirmado ontem pelo governador da Bahia, Jaques Wagner, que fará uma reforma do primeiro escalão em 8 de fevereiro. Gabrielli é um dos pré-candidatos do PT ao governo da Bahia em 2014. Ele já havia concorrido em 1990.

    Estatal nega haver contratos suspeitos

    Mas o nome de Graça Foster não está totalmente livre de polêmica. Em 2010, uma reportagem da “Folha de S. Paulo” mostrou que a Petrobras assinara 42 contratos, sendo 20 sem licitação, com a empresa do marido dela. Os contratos com a C.Foster, do empresário Colin Vaughan Foster, foram firmados entre 2007 e 2010, no valor de R$614 mil, referentes ao fornecimento de componentes eletrônicos para áreas de tecnologia, exploração e produção. Em 2004, Graça Foster chegou a ser envolvida em uma denúncia de suposto favorecimento à empresa do marido, segundo a “Folha”, enviada por fonte anônima à Casa Civil. Na época, o então ministro José Dirceu teria pedido explicações sobre o assunto.

    A Petrobras afirmou ontem que “não tem ou teve ‘contratos’ com a empresa C. Foster”. A companhia afirmou ter feito apenas pequenas compras de componentes, em operações isoladas, entre 2005 e 2010. E ressaltou que as 20 compras sem licitação tinham valores abaixo de R$10 mil e que foram feitas por áreas sem vínculo com a diretoria de Gás e Energia.

    COLABORARAM Patrícia França e Tássia Correia, da Agência A Tarde

    O Globo/AC



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