Damas de Branco apontam omissão

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Rodrigo Craveiro

    Todos os domingos, as 38 mulheres saem pela Quinta Avenida, por volta das 13h, após participarem da missa na Igreja Santa Rita de Cássia. Em silêncio, carregam gladíolos e as fotografias dos maridos e dos filhos, que há anos se transformaram em prisioneiros políticos. O movimento Damas de Branco tornou-se uma espécie de ícone da luta pelos direitos humanos em Cuba. Berta Soler, 48 anos, assumiu a liderança da organização em 14 de outubro de 2011, após a morte de Laura Pollán. Por telefone, Soler falou ao Correio sobre a repressão aos opositores na ilha e criticou a relutância da presidente Dilma Rousseff em discutir temas internos de Cuba.

    Em sua visita a Cuba, a presidente Dilma Rousseff não deve abordar os direitos humanos. Como a senhora vê isso?

    Lamentavelmente, é algo bastante desastroso e preocupante para o povo de Cuba. Em menos de dois anos, o ex-presidente (Luiz Inácio) Lula (da Silva) nos visitou, dias depois da morte de Orlando Zapata Tamayo em uma greve de fome. O governo deixou-o morrer. Nesse momento, a presidente Dilma Rousseff vai visitar Cuba e não quer debater assuntos internos de direitos humanos. Que coincidência! Ela também chegará a Cuba após um homem ter morrido, nas mesmas circunstâncias ou muito parecidas às de Orlando Zapata. Isso é uma amostra de que aqui, em Cuba, nada mudou. Tudo permanece igual. Os direitos humanos continuam a ser violados, os direitos civis elementares do povo cubano são aviltados pelo governo. Lamentavelmente, Dilma não tem interesse em abordar a problemática do povo de Cuba.

    Como as Damas de Branco veem o regime de Raúl Castro e o que mudou na ilha desde a saída de Fidel?

    Por aqui, nada mudou. Os Castro são todos iguais. Em menos de dois anos, Raúl Castro foi suspeito de quatro mortes de damas de opositores e de oponentes ao regime. Tivemos em 2010 a morte de Orlando Zapata. Há cerca de um ano, houve a morte de Wilfredo Soto, torturado por agentes da polícia política. Há pouco tempo, tivemos a morte suspeita de Laura Pollán, das Damas de Branco, que aponta para o governo cubano. Laura entrou com plena consciência no hospital. Quando foram entubá-la, ela disse que era uma Dama de Branco e que ninguém deveria manipulá-la. Em sete dias, Laura morreu. Agora, tivemos o jovem Wilmar, assassinado pelo governo cubano. Um homem pode fazer uma greve de fome, mas quando está em um calabouço, primeiramente o desnudam, lhe tiram o colchão, a água e o acompanhamento de um médico. Eles não o deixaram morrer, mas o assassinaram. Raúl e Fidel Castro são iguais. Não lhes interessa seu povo. Só lhes interessa manterem-se no poder, fortalecendo o braço da repressão interna contra a oposição interna. O governo cubano não se preocupa, nem quer seu povo.

    Quantas são as Damas de Branco e quantas ainda têm maridos e filhos na prisão?

    As Damas de Branco surgiram em 2003, com a detenção dos 75 opositores. Em 18 de novembro de 2010, dias depois da morte de Laura Pollán, todas nos tornamos damas de branco. Não apenas pedimos pela liberdade dos presos políticos. Somos defensoras dos direitos humanos. É um direito que temos, como mulheres cubanas, de lutar pela liberdade dos presos políticos.

    O que é ser uma cubana que não concorda com o governo ?

    O governo cubano reprime, golpeia e detém as pessoas por não menos de quatro horas. É uma perseguição. As Damas de Branco participam das missas dominicais em Havana, e o governo cubano se encanta em repudiá-las, prendê-las e sancioná-las. Algo terrível ocorre às pessoas que erguem sua voz contra as violações de direitos humanos.

    O socialismo cubano é uma utopia ou uma espécie de publicidade do governo?

    Realmente, é uma publicidade do governo. O governo diz que aqui é o socialismo ou a morte. Raúl e Fidel dizem que, se em Cuba não existir socialismo, todos morreremos. Por aqui há uma revolução. O povo está estático, está como o governo quer. (RC)

    Correio Braziliense/AC