China acirra disputa com Brasil no mercado latino

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  • Postado em 17 de janeiro, 2012


    Participação chinesa na balança da região cresceu de 2,5% para 12,5% ao longo da década

    Cláudia Bredarioli

    Com os países do hemisfério norte ainda lutando contra a crise, o mercado consumidor latino- americano tem se tornado a vedete do comércio mundial. Todos querem vender para países com poder de compra em ascensão, especialmente a China – que necessita de alto crescimento econômico para conseguir suprir sua população que cada vez mais deixa de ser rural. Assim, o investimento chinês vem ganhando espaço e assumindo a postura de um dos principais concorrentes brasileiros no comércio com os países da América Latina.

    “O problema com a China é a manifestação de algo muito mais grave que é a perda de competitividade do Brasil de maneira geral. Se não conseguimos competir com os chineses dentro do nosso país, quem dirá nos outros países da América Latina”, afirma o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Ele destaca que a prova disso está no fato de que na última década a China viu crescer em quase dez pontos, de 2,5% para cerca de 12,5%, suas exportações para a América Latina, enquanto as vendas brasileiras para a região ficaram estagnadas em 11% do total exportado pelo país ao longo desse mesmo período.

    Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil deixou de exportar US$ 2,5 bilhões para países da América Latina entre 2005 e 2009 em razão dos efeitos da concorrência chinesa. A Argentina também foi prejudicada, com as exportações reduzidas em US$ 730 milhões no mesmo período. A perda de mercado, nos dois países, concentrou-se especialmente nos setores químico, de informática, de telecomunicações e de máquinas e equipamentos.

    “Os chineses já concorriam conosco na África, em especial no segmento de construção. Foi fácil para eles perceberem que a América Latina tem estrutura para ser uma grande receptora de seus produtos”, diz Creomar Lima de Carvalho Souza, professor de relações internacionais do Ibmec/DF. Ao lado do Brasil, segundo ele, são potenciais grandes consumidores latino-americanos a Colômbia, o Peru e o Chile. Esses países, afirma Creomar, não só crescem economicamente como também cuidam do desenvolvimento de seu ambiente de negócios, aprimorando regulamentações, o que atrai investimento estrangeiro.

    A América Latina é o segundo principal destino dos investimentos estrangeiros da China, segundo relatório do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), atrás apenas da própria Ásia. Entre 2003 e 2009, o país asiático aplicou US$ 33,54 bilhões (R$ 53,9 bilhões) nos países da região. “Nessa região, o interesse primordial da China tem sido conseguir acesso à extração e produção de recursos naturais e energia (petróleo, cobre e ferro), para suprir sua demanda interna, mas também tem incluído investimentos em montagem de manufaturados, telecomunicações e têxtil”, afirma o estudo do Ipea.

    Já o comércio entre Brasil e China aumentou 17 vezes desde 2002, basicamente focado na exportação de commodities brasileiras. “Eles mantêm o câmbio artificialmente e têm um custo de produção baixíssimo, enquanto nós temos um grave problema com a taxa de câmbio-que exigiria uma política cambial mais eficaz – e alto custo de produção. É difícil concorrer”, diz Ricupero. Segundo especialistas, contudo, o protecionismo não seria a saída para vencer a concorrência. Na América Latina, o Brasil deveria liderar o movimento para derrubar barreiras comerciais e transformar o desafio chinês em oportunidade.

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    “O problema com a China é a manifestação de algo muito mais grave, que é a perda de competitividade do Brasil de maneira geral. Se não conseguimos competir com os chineses dentro do nosso país, quem dirá nos outros países da América Latina

    Rubens Ricupero

    Embaixador

    Brasil Econômico/AC



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