Cenários em construção

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  • Postado em 24 de janeiro, 2012


    Movimentação para a Copa impulsiona desenvolvimento na zona leste

    Domingos Zaparolli

    No dia 12 de junho de 2014, às 17 horas, quando for dado o pontapé inicial da Copa de 2014, mais de 700 milhões de telespectadores em todo o mundo estarão atentos ao que ocorrerá no gramado da Arena Corinthians, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Como palco da partida de abertura do mundial, a metrópole será a primeira a passar pelo teste, que será de todo o país, de sediar um evento da magnitude do mundial de futebol e aproveitar as oportunidades que o processo pode gerar.

    A cidade de 11,2 milhões de habitantes, que hoje completa 458 anos, está acostumada a receber grandes eventos. As corridas da Fórmula 1, da Fórmula Indy, da São Silvestre, a Parada Gay, mega shows internacionais, congressos e feiras de negócios fazem parte da agenda da capital e atraíram 12 milhões de turistas em 2011. Para receber esse público, há 42 mil quartos nos hotéis, 209 hospitais, mais de 270 mil estabelecimentos comerciais, 251 casas de shows e concertos, 329 cinemas, 240 teatros, 85 centros culturais, 59 parques e uma rede de restaurantes que está entre as melhores e mais variadas das grandes metrópoles mundiais.

    Durante a Copa, a expectativa é que a cidade receba por volta de 250 mil visitantes internacionais e algo entre 500 mil e 600 mil turistas brasileiros, que deverão movimentar perto de R$ 1,7 bilhão. Eles acompanharão os jogos no estádio e também em megatelões nos pontos estratégicos da metrópole. A abertura da Copa vai atrair por volta de 40 chefes de Estado estrangeiros e suas comitivas, 15 mil jornalistas e delegações esportivas de várias nacionalidades que participarão de jogos, do Congresso Fifa e do workshop de arbitragem.

    Beth Wada, diretora da Escola de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi, acredita que a Copa é uma ótima oportunidade de apresentar o conjunto urbano paulistano ao mundo e, com isso, impulsionar negócios turísticos por anos. Para ela, muitos visitam São Paulo de uma forma bastante objetiva. Participam de reuniões de negócios, feiras ou eventos, fazem compras ou simplesmente desembarcam nos aeroportos e partem rapidamente para outros destinos. Sabendo tudo o que a cidade tem a oferecer, vão dedicar mais tempo para conhecer, diz.

    A consultoria Accenture avalia que a exposição decorrente da Copa pode gerar negócios no turismo de R$ 9,2 bilhões até 2020. Para isso, diz Wada, São Paulo terá que superar alguns gargalos históricos, como a falta de segurança e limpeza nas ruas e o pouco preparo do prestador de serviços para receber clientes que não falam português. Turista que não se sente bem tratado não volta, diz.

    Para o urbanista Cândido Malta, a mobilidade urbana é um desafio chave. Os 17,9 mil km de vias pavimentadas da cidade não comportam nem mesmo a frota paulistana, composta de mais de 7 milhões de veículos, quanto mais a de visitantes. Nos horários de pico é comum a região central registrar mais de 120 km de congestionamentos. A pequena malha de metrô, de 70,6 km, está saturada por 4 milhões de usuários diários. Assim como estão sobrecarregados as linhas de trens metropolitanos e os quase 15 mil ônibus que atendem 8 milhões de paulistanos por dia. Além disso, os aeroportos não são servidos por transporte público. Durante os dias da Copa, haverá problemas extras, aponta Malta. São Paulo possui bons hotéis, restaurantes e atrações para os turistas nas regiões central e sul, mas não em Itaquera, onde ocorrerão os jogos. O deslocamento será intenso.

    Mauricio Broinizi, coordenador da ONG Nossa São Paulo, avalia que a cidade precisará desenvolver soluções permanentes para seus gargalos como o de mobilidade urbana, inclusão social e desenvolvimento regional. A região de Itaquera, que irá sediar os jogos, é carente de tudo. Transporte, aparelhos públicos, ensino, oportunidade de emprego. A Copa é uma oportunidade para promover um salto social e na infraestrutura local. Mas não vejo um movimento concreto da prefeitura nesse sentido, diz.

    Gilmar Tadeu, responsável pela Secretaria Especial de Articulação para a Copa (Secopa), sustenta que a gestão pública está atenta a essas questões. São Paulo é a cidade brasileira mais preparada para receber um grande evento, mas sabemos que é preciso aperfeiçoar a infraestutura para a Copa e também para os moradores e estamos trabalhando nisso, diz.

    Entre as iniciativas na área de transportes, Tadeu relata duas realizadas em parceria com os governos estadual e federal. A primeira é integrar os aeroportos com metrô e trens. Um monotrilho deverá ser construído por R$ 1,9 bilhão ligando Congonhas com o bairro do Morumbi, com conexão às linhas amarela do Metrô e Esmeralda da CPTM. Uma linha de trem irá ligar a estação Engenheiro Goulart, na zona leste, com o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, que tem leilão de privatização programado pelo governo federal, para garantir a sua necessária ampliação.

    Melhorar o acesso à Itaquera também é prioritário. Investimentos na compra de trens e em sinalização e segurança permitirão ao Metrô reduzir o intervalo mínimo entre trens da linha vermelha, que atende a região, dos atuais 120 segundos para 82 segundos. Nos trens da linha Coral da CPTM, o intervalo será reduzido de 5 minutos para 3 minutos. Há ainda um estudo para criar um corredor de ônibus na Radial Leste, que liga o centro à zona leste. As vias do entorno de Itaquera receberão investimentos de R$ 478,2 milhões, para melhorar a interligação com a Marginal Tietê e vias de acesso às rodovias. Uma rodoviária também deverá ser erguida em Itaquera para receber os ônibus vindos da Dutra e Ayrton Senna, que ligam a capital com o Vale do Paraíba, o litoral norte do Estado e o Rio de Janeiro.

    A melhoria da segurança pública é alvo de convênio entre as 12 cidades sedes da Copa e o Ministério da Justiça, mas ainda nenhum programa foi constituído. Convênios com instituições de ensino para a difusão de línguas estrangeiras entre os prestadores de serviços e policiais também estão sendo fechados, mas, por enquanto, só a um acordo com a PUC para capacitar os comerciantes do Mercado Municipal e o trabalho da secretaria de Turismo que treina taxistas.

    A Copa pode ter como legado, na opinião de Gilmar Tadeu, um novo vetor de desenvolvimento na cidade em direção à zona leste, região que abriga 37% dos paulistanos, mas tem a menor oferta de empregos e a menor renda da metrópole. Com a construção do Itaquerão, o Polo Institucional de Itaquera, um plano adormecido nas gavetas da prefeitura, ganhou impulso. O polo prevê uma escola e uma faculdade técnica estadual, uma universidade federal, uma unidade de ensino do Senai e uma incubadora de empresas. Após a Copa, um Fórum será instalado no local. A prefeitura também vai conceder isenção temporária de impostos para pequenas e médias empresas que se instalarem na região. Os benefícios totais somarão até R$ 50 milhões.

    Se São Paulo souber aproveitar as oportunidades geradas pela Copa, calcula a Accenture, serão injetados R$ 30,6 bilhões na economia da cidade até 2020, a maioria na zona leste. Esses recursos resultarão em acréscimo de quase R$ 1 bilhão na arrecadação municipal.

    Valor Econômico/AC