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  • Postado em 24 de janeiro, 2012


    Por Antonio Machado

    machado@cidadebiz.com.br

    Miopia de Gabrielli foi ver mais os problemas da Petrobras quanto a prazos e custos que a floresta

    Ordem no pré-sal

    Ao focar mais as nuanças políticas sobre a substituição do comando da Petrobras, a maioria dos analistas e os operadores do mercado de ações, que tem na estatal a sua grande vedete, subestimam o que tem sido uma das preocupações recorrentes da presidente Dilma Rousseff desde que dirigiu a Casa Civil: a interação das empresas estatais e do financiamento público com os investimentos do setor privado.

    Em algum momento, Dilma entendeu que a Petrobras poderia fazer mais pela política industrial. Não é que houve má vontade, sobretudo com a indução à cadeia de fornecedores nacionais para os investimentos, US$ 225 bilhões até 2015, para exploração de petróleo e gás no pré-sal. Mas o governo e a direção da Petrobras divergiam em termos de prazo para os investimentos, de custo – maior quanto mais acelerada a nacionalização dos equipamentos – e da forma de bancar a equação.

    Essa é uma questão muito mal entendida, e que Dilma elabora, mas não expressa. O capitalismo no Brasil é resultado de ações mistas, envolvendo o Estado e o capital privado. Um e outro são dependentes – e não prosperam atuando isolados, como não teriam prosperado até mesmo os EUA antes que os mercados atingissem a maturidade. E outra vez, assim como a Europa também, voltam a se apoiar no dirigismo do Estado para sanar as mazelas criadas pelos mercados desregulados.

    Os tempos do estatismo que tudo resolve se foram, como se foi o do neoliberalismo, da chamada mão invisível, que saiu do anonimato, ao pressentir o perigo depois da crise de 2008, para pedir socorro ao Estado, ou seja, à sociedade. A miopia da Petrobras foi ver mais os seus problemas atinentes a prazos e custos, e não a floresta.

    O governo quer tecer uma teia de novos negócios privados, ainda que financiados por bancos públicos, porque faltam ao Estado meios para se endividar por sua conta. Investimento bancado pelo Estado, sem recurso fiscal, é dívida na veia. Se financiado pelo Estado, é crédito a receber. Por isso, Belo Monte, por exemplo, foi licitada a um consórcio com perfil privado e não tocado pela Eletrobras ou uma de suas subsidiárias. Por isso se cobra da Petrobras que concilie o cronograma de investimentos com o apoio ao fornecedor nacional.

    Eficiência sistêmica Assim é, para que tais obras gerem empregos aqui, não no exterior. E se desdobrem em novos negócios depois de atendida a encomenda. Um estaleiro que constrói plataformas para a Petrobras pode construir, também, navios graneleiros. As indústrias nascem e crescem assim.

    O pré-sal será uma riqueza se deixar frutos. Sem tal visão, será como a extração de minério de ferro e mesmo a produção de aço: uma riqueza a ser gasta, com prejuízo, no que ela se transforma lá na China, por exemplo, como eletrodoméstico, automóvel e quejandos.

    A eficiência sistêmica da Petrobras, segundo tal modelo, é função não só do cumprimento de prazos e de gerar lucro ao acionista, mas de sua capacidade de induzir a criação de negócios em seu entorno.

    O que pesou na troca Tais componentes em discussão contínua foram desgastando a relação entre Dilma e a Petrobras. É claro que preferências pessoais estão presentes nos organogramas de direção, seja de empresas e governos.

    A troca do economista José Sergio Gabrielli pela engenheira Maria das Graças Silva Foster no comando da Petrobras leva em conta tais considerações. Mas a diferença de enfoques entre eles pesou mais.

    Graça, como é chamada, desfruta a simpatia e a admiração de Dilma, atributos menos atuantes na relação com Gabrielli. Com Graça, que conheceu no governo de Olívio Dutra, Dilma encontrou mais pontos de afinidade. A presidente só o manteve na estatal porque Lula pediu.

    Carregadora de piano Ambas se assemelham: gostam de mandar e de cobrar resultados. Mas, tal como Dilma foi com Lula, Graça foi com ela, ao ocupar uma das secretarias de Minas e Energia: parceira, obediente e carregadora de piano. Aos 58 anos, 34 dos quais na Petrobras, ela chega ao cume de sua carreira num momento decisivo da industrialização nacional. Gabrielli sai para um posto no governo de Jaques Wagner, na Bahia. E Dilma vai aos poucos imprimindo a sua própria marca ao governo.

    Questões paralisantes A mudança de comando na Petrobras não deve deixar ressentimentos, ainda que a direção do PT se queixe de não ter sido ouvida. Melhor assim, já que, afora nomes, o partido até agora não levou a Dilma nem ideias nem propostas. Não as de natureza política, dependentes não dela, mas da correlação de forças no Congresso, nem as de seu ideário programático, boa parte inaplicável em condições normais.

    O governo sabe que está enredado em questões paralisantes, como a dos juros altos versus inflação também alta e câmbio valorizado, e o tempo está passando. As soluções são políticas, não técnicas, mas faltam tais condições. É tempo de o empresariado sair do casulo.

    Correio Braziliense/AC



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