As relações Brasil-China

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  • Postado em 18 de janeiro, 2012


    José Dirceu, Advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

    A importância que a China vem adquirindo no cenário internacional e o crescimento substantivo do peso de nossos laços com os chineses tornam imprescindíveis para o nosso futuro repensar nossas relações com a China. Enquanto a crise mantém a Europa sob tensão, inclusive com rebaixamento da nota de risco de oito nações e do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, e crescem os temores de uma contaminação de outros centros, não há no horizonte pessimismo no que diz respeito à China. Estima-se crescimento de 8% em 2012, distante de uma desaceleração brusca no ritmo de expansão chinês que afetaria a economia mundial.

    Em 2005, a corrente de comércio Brasil-China era de cerca de R$ 12 bilhões. Desde então, a trajetória é ascendente, chegando a R$ 56,3 bilhões em 2010. O ano passado marcou mais um avanço: foram R$ 44,3 bilhões em exportações e R$ 32,7 bilhões em importações, totalizando uma corrente de comércio de R$ 77 bilhões.

    Nosso saldo comercial com os chineses mais que dobrou: foi de R$ 5,1 bilhões em 2010 para R$ 11,5 bilhões em 2011.

    De fato, a China virou o principal destino de nossas exportações – cerca de 15% do total – e o segundo país de origem das importações, atrás dos Estados Unidos – com 14% do total. Temos ampliado a presença chinesa em nossa pauta comercial sob todos os aspectos. Isso fica claro quando se vê que nossas exportações de industrializados para a China totalizaram R$ 6,6 bilhões no ano passado, ante os R$ 5 bilhões de 2010, o que se repete com os itens de exportação básicos, que foram de R$ 25,7 bilhões em 2010 para R$ 37,6 bilhões em 2011. Mas o detalhamento da pauta preocupa: mais de 80% do que exportamos são de itens básicos, enquanto que mais de 95% do que importamos da China são de manufaturados (destaque para componentes tecnológicos).

    Além disso, a China tem avançado sobre a América do Sul, com foco em energia e produção de alimentos. No Brasil, os investimentos vão para agroindústria, mineração, petróleo e gás.

    Segundo o Ipea, os investimentos diretos chineses no Brasil saltaram 294% do período 2001-2005 para o 2006-2010 – em 2012, a previsão é de US$ 25 bilhões. A China caminha para ser o primeiro exportador em serviços e tecnologia e a maior potência econômica e militar global, ocupando os espaços de modo a se contrapor e a equilibrar o poder imperial e militar dos EUA.

    Projeta-se significativamente a partir de seu poderio tecnológico, corrida na qual o Brasil chegou atrasado e, por isso, precisa avançar a passos largos.

    Essa condição singular da China exige que estruturemos um projeto de desenvolvimento que priorize nosso lugar no mundo, combinando a defesa de nossa soberania com a valorização das relações com a China, o que passa por proteger a produção nacional sem prejudicar a corrente comercial e atrair investimentos para o setor de tecnologia, por exemplo. E só há uma forma de estruturar tais políticas: associando a defesa comercial, o acesso às tecnologias, aos mercados e aos capitais às estratégias de desenvolvimento econômico, diplomático e militar que equacionem os interesses brasileiros, chineses e os comuns.

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    A China caminha para ser o primeiro exportador em serviços e tecnologia e a maior potência econômica e militar global

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    Brasil Econômico/AC