“A sociedade está vigilante”

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    » VICENTE NUNES

    O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, deposita toda a confiança na sociedade de que não haverá retrocesso no Brasil. Para ele, com instituições fortes e um sistema democrático consolidado, o país manterá intactas as conquistas das últimas duas décadas e garantirá que as aspirações da maior parte da população serão atendidas. “A sociedade está vigilante e sabe separar o que serve e o que não serve para evitar retrocessos”, afirma.

    Na sua avaliação, o fato de o Brasil alcançar o posto de sexta maior economia do mundo não foi por acaso. “Chegamos aqui por nossas virtudes. Até outro dia, o jargão era o seguinte: “se o mundo pega resfriado, o Brasil pega pneumonia”. Agora, somos o contraponto para enfrentar a epidemia”, acrescenta. Trabuco acredita que há, sim, condições concretas para que o país atinja renda per capita de Primeiro Mundo nos próximos 10 anos e que as injustiças sociais e o atraso, como a corrupção, fiquem restritas ao passado.

    Ele admite que o mundo ainda viverá momentos difíceis nos próximos meses e anos, com recessão e desemprego em alta, frutos da crise europeia. Mas garante que, quando o pior passar, o Brasil terá condições de tirar proveito da retomada do crescimento global. Por isso, esse é o momento de o país ampliar a sua competitividade, de assumir um novo patamar na economia global.

    A seguir, os principais trechos da entrevista que o presidente do Bradesco concedeu ao Correio.

    Nos últimos 20 anos, o Brasil passou por transformações importantíssimas: abertura comercial, privatização, controle da inflação, Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas ainda há muito por fazer. Na sua opinião, há risco de as conquistas ficarem no meio do caminho? O que é preciso para que os avanços se mantenham?

    Uma agenda considerável de pendências já ficou para trás. Dívida externa, correção monetária, hiperinflação, múltiplas moedas, desemprego crônico, exclusão social, câmbio fixo. Não é pequena a lista de desafios superados. A remoção desses problemas foi difícil, houve muitos percalços. Isso exigiu pactuação, muita negociação e bom senso entre entes públicos e privados, trabalhadores e empresários. A opção pela modernização da sociedade brasileira é um processo. A sociedade está vigilante e sabe separar o que serve e o que não serve para evitar retrocessos. O governo é preparado e as instituições funcionam. Num ambiente de democracia plena, as condições de avanço são maiores.

    Os últimos indicadores apontam o Brasil como a sexta maior economia do planeta. Mas o país está longe de ter padrão de vida de Primeiro Mundo. As desigualdades sociais permanecem gritantes. É possível imaginar uma qualidade de vida parecida como a que se vê nos Estados Unidos e na Europa?

    A divulgação desse dado veio acompanhada da tese de que nós melhoramos porque os outros pioraram. O engraçado é que, até outro dia, o jargão era o seguinte: “se o mundo pega resfriado, o Brasil pega pneumonia”. Agora, somos o contraponto para o mundo enfrentar a epidemia. Ao contrário dessa provocação, chegamos até aqui por nossas virtudes. Temos uma economia equilibrada e boa blindagem em caso de crise externa. Temos imenso orgulho dessa posição. É claro, há imensos desafios pela frente. Precisamos melhorar o PIB per capita, avançar na educação, na inovação, na produtividade. Mas chegar a essa posição no ranking não é pouca coisa. É o indicativo de que criamos condições para superar o atraso e as injustiças sociais. A elevação da qualidade de vida da população pode ser acompanhada todos os dias. O índice de miséria era de mais de 20% há cerca de 20 anos; hoje está abaixo de 10%. Há um processo evolutivo captado pelas estatísticas. Outra vantagem é que o Brasil é um país que responde a estímulos de forma rápida. As pessoas têm perspectiva de emprego. Vivemos na fronteira do pleno emprego. Nosso maior desafio é chegar ao padrão de vida dos países maduros. As condições estão dadas.

    Estamos entrando em 2012 com muitas dúvidas, que embaçam o futuro do país. A inflação se mantém resistente e longe do centro da meta. O Banco Central já avisou que pode subir os juros em 2013 e os prenúncios são de estagnação da economia mundial por pelo menos cinco anos. Isso não atrapalha o desenvolvimento brasileiro? Por que ainda continuamos tão vulneráveis do ponto de vista econômico?

    No que depende do Brasil, seguimos o rumo apontado pelo governo da presidenta Dilma, que tem sabido liderar o enfrentamento contra os efeitos da crise. Não é um caminho suave, em linha reta. Mas nos saímos bem e não estamos sucumbindo às incertezas dos países centrais. A estagnação vem sendo combatida com estímulos à atividade. A fragilidade do Brasil é bem menor do que nas crises anteriores. As reservas cambiais e os depósitos compulsórios nos dão lastro. Por definição, cenário econômico é um exercício de incertezas e probabilidades. Por conta da crise da Zona do Euro, até analistas experientes perderam um pouco as referências. É um evento extraordinário, mas acho que já vimos coisas piores, ou da mesma magnitude. O que tenho claro para mim é que não tem cenário do tipo “apocalipse now”. Haverá distribuição de prejuízos, recessão e desemprego. Enfim, um ajuste severo, como tantos outros, quando se gasta mais do que se tem, por muito tempo. E esse não é o nosso caso. O Brasil, como fica? Vai ficar bem, se fortalecendo, crescendo e investindo. Será uma janela importante para quando a economia global voltar a crescer. Aí teremos de estar prontos e competitivos para assumir um novo padrão de participação na economia global.

    O governo Dilma foi obrigado a botar um pé no freio dos investimentos públicos em seu primeiro ano. A justificativa foi a necessidade de colocar as contas em ordem. Quanto esse atraso custará ao país? Será possível tocar, no tempo adequado, as obras de que o Brasil precisa para crescer de forma sustentada e para não fazer feio na Copa do Mundo e nas Olimpíadas? O setor privado está preparado para complementar os investimentos necessários?

    Li no noticiário que o estádio do Itaquerão ficará pronto com meses de antecipação. Há pouquíssimo tempo, o que se dizia é que São Paulo corria risco de ficar fora da Copa pelo atraso das obras. Em fevereiro, haverá leilão de três grandes aeroportos. Algumas obras estão atrasadas, outras, adiantadas. Temos excelência em tecnologia, trabalhadores motivados e conhecimento técnico. Vamos entregar tudo no momento certo. O Brasil quase sempre nos reserva surpresas positivas.

    Por mais que o governo diga o contrário, quando olhamos a evolução do PIB nos últimos anos, percebemos como o crescimento da economia é de altos e baixos. A impressão que fica é que ainda não conseguimos nos livrar na maldição do voo da galinha. Por quê?

    Precisamos ter uma visão de longo prazo, analisar todos os ciclos. Nos últimos 20 anos, o Brasil só não cresceu três vezes. Em 1992, o PIB caiu 0,5%; em 2009, perdeu 0,3%. Em 1998, ficou no zero a zero. Foram 17 anos de crescimento. Ou seja, um movimento quase contínuo. Entre 2004 e 2010, o Brasil cresceu a uma média anual de 4,4%. E vem crescendo agora pelo fenômeno do ingresso de milhões de novos consumidores no mercado e também pela entrada de investimentos, atraídos pelos projetos de infraestrutura e modernização. O horizonte se esticou, estamos falando de projetos para 2014 e 2016, com a Copa e as Olimpíadas. Entendo que o plano de voo ganhou um novo alcance. Há polêmicas, mas convenhamos que não se pode brigar com fatos. O país avança.

    O sistema financeiro está preparado para cumprir o seu exato papel, o de financiar o crescimento? Por que os bancos ainda são tão resistentes em financiar investimentos de longo prazo do setor produtivo? A estabilidade econômica ainda é uma ficção para os bancos?

    Estamos batendo recordes de financiamento. Em 2012, devemos chegar ao emblemático número de 50% de crédito sobre o PIB. Os bancos estão preparados e cumprindo seu papel de criador das condições de desenvolvimento e formação de riqueza do país. O prazo médio dos financiamentos está crescendo a cada ano. O crédito imobiliário no Brasil era de no máximo de 15 anos. De tempos para cá, esticou e já trabalhamos com 25 anos. O financiamento de veículos também. Para empresas, os prazos também estão mais longos. A política de redução gradual dos juros pelo Banco Central colabora definitivamente para isso. Dizem que banco gosta de juro alto. Trata-se de um preconceito. Preferimos juros baixos.

    Olhando para a política: como o senhor avalia o sistema democrático brasileiro? Está consolidado? Por que ainda somos atropelados a todo momento por denúncias de corrupção em todas as esferas de governo? A estrutura dos partidos facilita esse modelo, que acaba custando caro ao desenvolvimento?

    Um dos aprendizados do exercício da meditação é que devemos falar pouco, ou não falar muito. Essa regra se aplica a essa questão. A ciência política não faz parte da minha rotina, mas entendo que nossa democracia tem plenitude. A divisão entre os poderes é nítida, as instituições estão atuantes, não existe qualquer questionamento sobre a regularidade das eleições. Enfim, nossa democracia está consolidada. A democracia é difícil, exige a participação de todos, a construção de consensos e o respeito ao dissenso. Mas é o melhor modelo.

    A classe média brasileira está cada vez maior e tenderá a exigir de volta, em serviços públicos, o que paga em impostos. Os governos estão preparados para lidar com os anseios dessa massa de brasileiros que começa a cobrar seus direitos? Qual papel, na sua avaliação, essa classe média terá para o futuro do país?

    A formação de uma grande classe média é a principal blindagem do Brasil contra as crises. Seremos um dos países do mundo de grande classe média. É a garantia de que este será um país desenvolvido nos seus indicadores econômicos e sociais. É natural que a classe média tenha demandas no sentido de melhora da qualidade de vida. É por aí que vamos construir um Brasil moderno, que respeite o meio ambiente, privilegie a mobilidade urbana e tenha a devida atenção com os mais pobres.

    Correio Braziliense/AC