A prova de Eike

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    O início da produção de petróleo pela OGX marca uma nova fase nos negócios do arrojado bilionário brasileiro.

    Por Ralphe MANZONI Jr. e Rosenildo Gomes FERREIRA

    Na vida do empresário Eike Batista tudo foi sempre superlativo. A começar pelo número de irmãos: seis. Sua trajetória empresarial deslanchou em meados da década de 1980, quando se lançou em múltiplos negócios na área de mineração no Brasil e no Exterior. Em 2005, Batista vislumbrou a oportunidade de conseguir recursos para colocar de pé projetos considerados polêmicos e orçados em muitos bilhões de dólares, se aproveitando da efervescência da bolsa de valores. Foi nessa época que começou a se consolidar o chamado “Mundo X”, por causa do hábito do empresário de usar essa letra no nome de batismo de todas as suas companhias. Eike Batista, na sede do grupo, no Rio deJaneiro: “O ano de 2012 será extraordinário para o grupo EBX” Como boa parte delas só existia no papel, com exceção da usina Termoceará e das minas que deram origem à MMX, muitos o acusaram de “vender vento”. Essas tacadas, porém, foram suficientes para alçá-lo ao posto de o oitavo homem mais rico do planeta, com um patrimônio de US$ 30 bilhões. Agora, Batista começa a mostrar aos seus sócios e ao mercado que seus planos sedutores também têm condições de se tornar negócios viáveis. A colheita se inicia pelo setor de petróleo e gás. No sábado 28, se tudo ocorreu como o previsto, a OGX começou a produzir óleo comercialmente no campo de Waimea, na Bacia de Campos, no litoral do Rio de Janeiro. Como no nascimento de um bebê, Batista mandou anotar a hora, os minutos e os segundos em que o ouro negro começar oficialmente a jorrar. “O ano de 2012 será extraordinário para o grupo EBX”, disse Batista, em entrevista exclusiva à DINHEIRO (leia mais ao final da reportagem). “Depois das críticas espero que, agora, venham os parabéns por estarmos entregando o que foi prometido.”

    Apesar do tom conciliador, o empresário usou as redes sociais para dar uma cutucada em quem colocava em dúvida a capacidade da OGX, cujo cronograma previa que a exploração teria início em outubro de 2011. “Vão todos beber petróleo quente”, escreveu no Twitter, na segunda-feira 23, referindo-se aos críticos, respondendo a pergunta de um seguidor. O volume inicial de produção será expressivo. De imediato vão jorrar entre 15 mil e 20 mil barris diários de óleo. Até o final do ano, quando os três poços estiverem em atuação serão cerca de 50 mil barris por dia, suficientes para situar a empresa como a quinta maior força do setor no Brasil, atrás de Petrobras, Chevron, Shell e Statoil. “Ao final de 2015 seremos a maior produtora privada do País, com 730 mil barris por dia”, afirma Paulo Mendonça, diretor-geral da OGX. A primeira fornada será entregue à anglo-holandesa Shell, que já comprou 1,2 milhão de barris.

    A extração de petróleo é apenas uma pequena parte do que vai acontecer em seu conglomerado empresarial ao longo de 2012 e 2013, de acordo com Batista. Outras empresas pré-operacionais do grupo EBX também deverão seguir a trilha da OGX e começar a gerar caixa nos próximos meses. A LLX, da área de logística e responsável pela construção do Superporto de Açu, prevê embolsar R$ 80 milhões em 2012, com o aluguel de áreas para as indústrias que vão se instalar no local. O porto começa a operar somente em 2013. A OSX, fabricante de equipamentos navais, receberá pelo arrendamento do navio para produção e armazenamento de petróleo, usado no campo de Waimea. O primeiro a ser construído no Brasil em seu estaleiro, no entanto, sairá ao mar apenas em 2014. No setor de energia, liderado pela MPX, a receita deve subir dos atuais R$ 260 milhões, no acumulado de janeiro-setembro de 2011, para R$ 551 milhões, com a entrada em operação das térmicas de Pecém I e II (CE) e Itaqui (MA). No total, o grupo EBX, que reúne 13 empresas com tentáculos espalhados pelos setores imobiliário, de entretenimento e de infraestrutura, deve gerar R$ 1 bilhão de Ebitda, que é o lucro desconsiderando os efeitos do pagamento de juros, impostos, dívidas e amortizações em 2012. “Vamos fechar a década com uma geração de caixa de R$ 30 bilhões”, afirma Batista.

    Para atingir esse patamar, Batista terá de manter o ritmo frenético exibido até aqui. Os investimentos previstos até o fim de 2020 são estimados na superlativa cifra de R$ 50 bilhões. O montante será empregado tanto em setores tradicionais, como o de mineração, em que atua por meio da AUX, quanto em novas áreas, como a produção de componentes eletrônicos. A prospecção de ouro, aliás, é uma espécie de menina dos olhos do empresário. Foi com essa atividade que teve início sua trajetória, em 1980, e lhe rendeu o apelido de Indiana Jones. Por conta disso, Batista pretende transformar a AUX em uma nova vedete de seu império. Em menos de dois anos, o valor de seus ativos cresceu 300%, para US$ 6 bilhões, graças a descobertas que totalizam oito milhões de onças troy de ouro. Cada unidade equivale a 31,1 gramas. “A AUX já estará madura para o IPO em setembro”, afirma. Na lista de novos negócios, alguns já estão definidos. Um deles é a fábrica de semicondutores para atender os fabricantes de eletrodomésticos e de automóveis. A unidade será instalada na Grande Belo Horizonte ao custo de US$ 500 milhões.

    Como é de praxe, o empresário contará com um sócio estratégico cujo nome será anunciado no fim de março. As apostas recaem sobre companhias taiwanesas. Seu relacionamento com empresários da ilha ganhou corpo depois que ele passou a ter um contato mais próximo com Terry Gou, o dono da Foxconn. A habilidade para se aliar a empreendedores de destaque global e conglomerados líderes em seu ramo de atuação é vista como um dos principais ingredientes da receita de sucesso montada pelo bilionário brasileiro. “As parcerias com grupos importantes ajudam a atestar a viabilidade dos negócios da EBX”, diz o analista Rafael Andreata, especialista em energia e petróleo da Planner Corretora.

    Com uma carteira de projetos considerada robusta, Batista se capacitou para ser uma espécie de sócio preferencial de quem pretende pegar carona no sucesso da economia brasileira. A recessão nos EUA e na Europa só fez aumentar seu cacife. “Não admito ter menos de 70% do controle”, afirma. “Busco sócios com conhecimento técnico e capital para investir.” Um caso emblemático foi a associação com a alemã E.ON, maior empresa de energia da Europa, que garantiu uma injeção de R$ 850 milhões no caixa de sua empresa de energia. “A MPX tem uma posição privilegiada, pois é a única companhia privada brasileira que possui reservas de gás”, diz Ricardo Correa, analista da Ativa Corretora. Dentro do que Batista convencionou chamar de “Visão 360 Graus”, seu mantra empresarial, a função dos parceiros também é absorver produtos ou serviços gerados internamente. A MMX é uma das que souberam usar esse expediente com maestria. Para elevar a produção das atuais sete milhões de toneladas de minério de ferro para 24 milhões, em 2014, ela se aliou à siderúrgica chinesa Wuhan Steel e à sul-coreana SK Networks, que juntas detêm 30% da MMX. O aporte de recursos feito por elas está sendo usado na construção do Superporto do Sudeste, em Itaguaí (RJ), na instalação de uma usina de beneficiamento de minério e no aumento da produção das minas de Serra Azul, em Minas Gerais. No total, eles vão consumir R$ 6,4 bilhões até 2014. “Nossos sócios vão absorver metade da produção, pagando o valor de mercado”, afirma Guilherme Escalhão, CEO da MMX.

    O ponto fora da curva no “Mundo X” é a OSX. Apesar de contar com um parceiro tecnológico, a poderosa Hyundai Heavy Industries, da Coreia do Sul, dona de 10% de suas ações, a companhia possui uma dependência umbilical da OGX. Partiram dela as únicas encomendas recebidas até agora pelo estaleiro, no valor de US$ 4,8 bilhões e com opção de chegar até US$ 30 bilhões. Para ampliar sua musculatura, a OSX aposta no aquecimento do setor por conta dos investimentos ligados ao pré-sal. “Quem contrata fornecedor local leva vantagem nos leilões de exploração, feitos pela Agência Nacional do Petróleo”, diz Luiz Eduardo Carneiro, CEO da OSX. O mercado ainda tem dúvidas: “O risco é a OSX não conseguir diversificar a carteira de clientes”, afirma Andreata, da Planner Corretora. As cartas estão na mesa e Batista já mostrou ser bom de jogo. “Vou abrir um champanhe para comemorar” Dois dias antes de a OGX iniciar a exploração de petróleo na Bacia de Campos, prevista para o sábado 28, o empresário Eike Batista estava eufórico. “É um marco histórico não só para o grupo, mas também para o País”, disse à DINHEIRO. Qual o significado do início da exploração de óleo pela OGX? É um marco histórico não só para o grupo, mas também para o País. Pela primeira vez, uma empresa privada brasileira coloca uma unidade dessa em operação, na qual gastei US$ 4 bilhões na campanha de exploração. Vamos começar a tirar o óleo pouco mais de dois anos após fazer a descoberta do poço. Um recorde mundial. Como o sr. vai comemorar a exploração do primeiro óleo? Tenho uma adega com garrafas de champanhe magnum (de 1,5 litro) de safras que vão de 1956 até 1980. Vamos abrir uma dessas garrafas. Há planos de abrir capital de outras empresas do grupo? A CCX, que é uma joint venture com os alemães da E.ON para exploração de carvão, já nasce “ipionizada” (risos). Está também nos nossos planos abrir o capital da AUX, nossa mina de ouro. Creio que vamos estar prontos para fazer o IPO em setembro ou outubro deste ano. É uma operação que pode render entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões. Não descarto abrir o capital da REX, que é nosso braço de negócios imobiliários. O sr. está em busca de novos sócios para os seus negócios? Gostaria de lembrar que não sou vendedor de ativos. Eu não abro mão do controle de minhas operações. Os alemães (da E.ON, que ficaram sócios de Eike Batista na MPX) compraram uma parte minoritária. Em todos os negócios, sempre mantive uma fatia de 70%. Só vendo participações minoritárias para quem agregue tecnologia e capital. Qual a próxima tacada do sr.? Estou fazendo uma parceria para atuar na produção de semicondutores em Minas Gerais. Hoje, qualquer eletrodoméstico ou automóvel tem um chip embutido. O plano é investir US$ 500 milhões. Haverá um parceiro, mais isso só será divulgado entre março e abril. Ao longo dos últimos dois anos, a maioria das ações das empresas do grupo EBX, cotadas em bolsa, desvalorizou-se bastante. A que o sr. atribui essa queda? Isso se deve um pouco à falta de experiência do mercado brasileiro em investir em empresas pré-operacionais, que precisam de três a cinco anos para maturar. Isso é fruto da cultura. Na verdade, as ações caíram muito por falta de entendimento de que as coisas demoram mesmo. Como são projetos que têm de 70% a 80% de margem Ebitda (lucro operacional), eles são muitos sadios. Não vejo nada de anormal. É assim mesmo. Quem investe em bolsa quer ver o retorno todo dia. Colaborou: Marcio Orsolini

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    Revista IstoÉ Dinheiro/AC



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