A executiva mais poderosa do Brasil

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Como Graça Foster, uma ex-catadora de papel, vai tocar o maior plano de investimentos do mundo e acelerar a produção de petróleo no País.

    Por Denize BACOCCINA

    Ela cresceu no Morro do Adeus, que hoje faz parte do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ocupado pela polícia em 2010. Aos oito anos, começou a trabalhar como catadora de papel, garrafas e latas para ajudar a família e para comprar material escolar. Sem descuidar dos estudos, formou-se em engenharia química, fez mestrado, pós-graduação em engenharia nuclear e MBA em economia. Essa ex-catadora de papel fará história no dia 13 de fevereiro. Neste dia, a mineira Maria das Graças Silva Foster, 58 anos, ou simplesmente Graça Foster, será empossada como presidente da Petrobras, na qual começou a trabalhar há 32 anos como estagiária, substituindo José Sérgio Gabrielli. Ela, que era diretora de gás e óleo desde 2007, será a primeira mulher a comandar a maior empresa do Brasil e a quinta maior petrolífera do mundo, com receita líquida de R$ 213 bilhões em 2010 e de R$ 180,4 bilhões até setembro do ano passado. No Brasil, a estatal é uma gigante. Os números falam por si: é quase três vezes maior do que a segunda do ranking, a Vale, e equivale a dez BR Foods em faturamento.

    Casada, com dois filhos e uma neta, Graça terá pela frente um de seus maiores desafios profissionais: tirar do papel o maior plano de investimentos do mundo. Do ano passado até 2015, a Petrobras vai gastar US$ 224,7 bilhões para explorar novos poços, extrair petróleo em águas profundas e no pré-sal, tirar gás e produzir etanol e fertilizantes. O Brasil vai receber 95% desses investimentos. Equipamentos, como sondas, plataformas e navios, terão de ser produzidos majoritariamente pela indústria brasileira. Somente nos primeiros nove meses de 2011, a companhia já investiu R$ 50,8 bilhões.

    Graça assume o comando da empresa no dia 13, numa cerimônia no 24º andar da imponente sede da empresa, na avenida Chile, no Rio de Janeiro, com a presença da presidenta Dilma Rousseff, com quem tem grande afinidade e que a escolheu para suceder Gabrielli.

    Quando o nome de Graça foi confirmado em um comunicado do ministro da Fazenda e presidente do conselho de administração da Petrobras, Guido Mantega, na segunda-feira 23, o mercado reagiu bem. Nesse dia, as ações com direito a voto da estatal valorizaram-se 3,6%. Os papéis preferenciais acompanharam a euforia com o nome da nova presidente e, no acumulado de quatro dias, subiram 2,9%. Em 2012, a alta é de 17%. Uma virada muito bem-vinda, depois de uma queda de 23% em 2010 e de 18,3% no ano passado. “O mercado gostou porque, apesar da proximidade com o Planalto, Graça é uma pessoa técnica, de pulso firme e funcionária de carreira”, afirma Erick Scott, analista de petróleo da corretora SLW. “Ela pode vencer o desafio de uma gestão mais equilibrada entre o lado técnico e o lado político”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

    A mudança no comando da maior empresa brasileira foi decidida diretamente pela presidenta Dilma, sem conversar com partidos ou aliados políticos. As duas se conhecem desde o fim dos anos 1990, quando Graça era responsável pela parte brasileira do gasoduto Brasil-Bolívia e Dilma, secretária de Energia do governo do Rio Grande do Sul. O desejo de Dilma de substituir José Sérgio Gabrielli, que pretende se candidatar a governador da Bahia em 2014, já era conhecido. Desafetos de Graça, no entanto, tentaram minar sua indicação com a denúncia de favorecimento da empresa C. Foster, de seu atual marido, Colin Foster. As suspeitas referem-se a 42 contratos, 20 sem licitação para a compra de componentes eletrônicos desde que a futura presidente assumiu a diretoria da estatal. Segundo a Petrobras, nenhum deles foi assinado na área comandada por Graça. Dilma manteve a preferência por ela, mas ninguém sabia quando exatamente a mudança seria feita. A presidenta tomou a decisão de substituição durante as férias na Bahia e comunicou o governador Jaques Wagner no dia 4 de janeiro. O governador confirmou que convidaria Gabrielli para um cargo no primeiro escalão do governo. Na noite de 20 janeiro, Dilma chamou Graça e Gabrielli ao Palácio do Planalto e comunicou a mudança. A notícia vazou no fim de semana. Gabrielli sai com elogios do governo. Nos seis anos em que comandou a empresa, o faturamento quase dobrou, passando de R$ 136 bilhões, em 2005, para R$ 213 bilhões em 2010. “Já vinha conversando sobre isso há algum tempo”, afirmou Gabrielli, em entrevista à DINHEIRO (leia mais ao final da reportagem). “Agora chegou a hora.”

    Além de Gabrielli, deve deixar o cargo o diretor de exploração e produção, Guilherme Estrela. A empresa deve criar também a diretoria corporativa, com a nomeação de José Eduardo Dutra, que já foi presidente da estatal, deixou o cargo para disputar uma eleição e foi um dos coordenadores da campanha de Dilma em 2010. Atualmente, Dutra é consultor de relações institucionais de Gabrielli. Mesmo com os boatos de outras substituições na semana passada – entre elas do diretor financeiro, Almir Barbassa, e do presidente da Transpetro, Sérgio Machado -, Graça já conversou com os diretores e a equipe de assessores de Gabrielli e pediu a todos que permanecessem nos seus cargos. A única indefinição é a permanência do diretor da área internacional, Jorge Luiz Zelada.

    Apesar de filiada ao PT e das três estrelas tatuadas no antebraço – duas delas vermelhas, sua cor preferida -, Graça é uma técnica extremamente qualificada e dedicada à companhia. Já se declarou apaixonada pela Petrobras e diz que morreria por ela. Talvez por isso, não considere sacrifício o ritmo de trabalho que mantém. Começa o dia às 7 horas da manhã – mas já marcou reunião com a equipe às 6h30. Não deixa sua sala no 23º do edifício-sede antes das 21 horas. Vai para casa carregando uma pasta cheia de documentos e relatórios, que gosta de ler para se preparar para o dia seguinte. Nas reuniões, cobra resultados e faz questão de verificar tudo pessoalmente, não apenas checando informações e cálculos. Também visita obras, geralmente aos sábados. Graça não tira férias há cinco anos.

    No dia a dia, é considerada centralizadora: nenhum gerente faz nada sem sua autorização expressa. Além disso, pessoas próximas à executiva dizem que ela é detalhista e organizada. Mantém planilhas e calendários para acompanhar o andamento de cada ordem que deu. “É a forma mais primitiva de gestão, a mais simples, você saber o que tem que fazer”, disse Graça, em entrevista ao jornal Valor, no ano passado. Procurada por DINHEIRO, a nova presidente da Petrobras disse que só vai se pronunciar depois de assumir a empresa. Os subordinados a chamam de rigorosa, o que lhe vale também a fama de autoritária. Mas nem todos os colegas consideram isso um defeito. “Eu também sou chamado de autoritário. Isso é da personalidade de cada um”, diz Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, que foi professor de Graça na pós-graduação em engenharia nuclear. “O importante é a competência e ela é excelente.” Por outro lado, Rosa ressalta a grande capacidade de decisão da ex-aluna, com quem mantém um diálogo intenso na busca de soluções para incrementar a cadeia produtiva brasileira do setor. “Falta engenharia no Brasil e falta industrialização. E a Petrobras tem um papel importante para mudar isso”, afirma Rosa.

    Assim como Dilma, que gosta de artes plásticas e mantém uma galeria de fotos de obras de arte em seu computador pessoal, Graça trabalha muito, mas também cultiva outros interesses. É fã dos Beatles – tem todos os discos da banda britânica – e da inglesa Amy Winehouse, que morreu no ano passado. Gosta de vinho e de futebol. É torcedora fanática do Botafogo e chega a ir ao estádio para assistir aos jogos de seu time. A semelhança de estilo com a presidenta da República já lhe valeu o apelido de “a Dilma da Dilma”. Uma é ex-guerrilheira, a outra é ex-favelada. Ambas, atualmente, são as mulheres mais poderosas do Brasil. Mas não se trata de uma cópia. “Elas pensam do mesmo jeito”, diz uma fonte do Planalto. Dilma também não se incomoda com o jeito centralizador de Graça. Acha que é justamente disso que uma empresa desse porte precisa para ganhar agilidade.

    É exatamente essa a missão e o desafio da nova presidente da Petrobras. Dilma não estava necessariamente insatisfeita com a gestão de Gabrielli, que, além de expandir os investimentos no Brasil, estimulou a indústria nacional de sondas, plataformas e navios. O que Dilma quer é mais velocidade para tirar os investimentos do papel e aumentar rapidamente a produção brasileira, especialmente no pré-sal. A presidenta considera pouco ambiciosa a meta de triplicar a produção para 6,4 milhões de barris por dia em 2020. No ano passado, a produção de 2,02 bilhões de barris ao dia ficou 3,7% abaixo da meta, prejudicada pela dificuldade em contratar equipamentos. A discussão que havia dentro da Petrobras sobre flexibilizar a regra de conteúdo nacional para facilitar a contratação de equipamentos fica encerrada, já que a nova presidente é contra. “Ela tem comprometimento com a indústria brasileira”, diz o diretor-geral da Organização Nacional da Indústria de Petróleo (Onip), Eloi Fernández y Fernández. A entidade calcula que a Petrobras responde por 80% dos investimentos brasileiros no setor do petróleo, que podem chegar a US$ 400 bilhões até 2020.

    O governo também quer mais velocidade na exploração do pré-sal. O plano de negócios prevê que a participação do pré-sal na produção total de petróleo deve passar dos atuais 2% para 18% em 2015 e 40,5% em 2020. “O pré-sal muda o patamar da produção de petróleo brasileiro”, diz o professor Segen Estefen, diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ. A Petrobras, afirma ele, é quem vai se beneficiar das imensas reservas encontradas no pré-sal. A descoberta, anunciada em 2007, dobrou as reservas do Brasil para 15,2 bilhões de barris confirmados, mas o potencial pode ser de 60 bilhões a 90 bilhões de barris. Agora, todo esse patrimônio será administrado por Graça Foster, uma superexecutiva que não tem medo de cara feia e de grandes desafios, segundo suas próprias palavras. “A necessidade que tive de superar a mim mesma desde a minha infância me trouxe muita força, coragem e confiança.”

    “A baianidade falou mais alto”

    O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, deixa a companhia no dia 9 de fevereiro, depois de seis anos e sete meses no cargo, o mais longevo presidente da petroleira. Em entrevista à DINHEIRO, quando estava a caminho de Davos, na Suíça, onde representaria a empresa em conversas com investidores, clientes e fornecedores no Fórum Econômico Mundial, ele conta seus planos para o futuro e faz um balanço do período em que esteve à frente da empresa:

    Por que o sr. vai sair da Petrobras?

    Isso já vinha sendo conversado há algum tempo com o governador Jaques Wagner sobre a minha ida para ajudar no governo dele. Para mim é uma honra voltar para a Bahia. Agora chegou a hora, porque ele está fazendo uma reformulação no governo. A baianidade falou mais alto.

    O que muda com a sua saída?

    Não muda, é uma política de continuidade. A Graça Foster é uma profissional de altíssima qualidade. Ela foi parte da diretoria nos últimos quatro anos e fez parte das decisões. Saio sem nenhum conflito com a presidenta Dilma e com os outros diretores da companhia.

    O sr. vinha sempre reclamando com o governo da não autorização do reajuste no preço dos combustíveis, mesmo com o aumento do preço do petróleo.

    A política de preços pode sofrer oscilações e ficar defasada no curto prazo, mas ela se estabiliza no longo prazo.

    Como avalia o período à frente da empresa?

    Promovemos um fortalecimento do Sistema Petrobras, que inclui todas as empresas do grupo, em oposição à pulverização que existia no período anterior. Fizemos uma gestão de processo e de resultado, com o objetivo de integrar a companhia. Realizamos uma renovação dos quadros da Petrobras e hoje mais de 50% dos funcionários concursados têm menos de dez anos de casa. Fizemos também uma política de integração com a cadeia de fornecedores, com identificação de gargalos, montagem de sistema integrados. Desenvolvemos uma relação contínua com os fornecedores para desenvolver a indústria nacional.

    Há boatos de que a Petrobras estava tentando convencer o governo a flexibilizar a exigência de conteúdo mínimo, porque tinha dificuldade em receber equipamentos no prazo.

    É puro boato. Como toda indústria nascente, essa tem o seu ritmo. Mas os problemas que tivemos em 2011, de atraso na entrega de equipamentos, não têm a ver com fornecedores nacionais, mas internacionais.

    Revista IstoÉ Dinheiro/AC