A Dilma da Dilma

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    Quais os planos e o que representa a ida para o comando da Petrobras de Maria das Graças Foster, engenheira de reconhecida capacidade técnica, que, há 32 anos na gigante do setor energético, conquistou a admiração da presidenta da República

    Adriana Nicacio e Izabelle Torres

    Em 22 de dezembro de 2011, uma rápida visita da presidenta Dilma Rousseff ao seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, selou o futuro da Petrobras. No encontro em São Paulo, Dilma entregou a Lula um Papai Noel feito de material reciclado, presente enviado por catadores de lixo do Estado, e avisou: “Presidente, vou trocar o Gabrielli.” Se no início do mandato de Dilma ele pediu que mantivesse José Sérgio Gabrielli na presidência da Petrobras, desta vez Lula decidiu não interferir. E não precisou perguntar quem seria o substituto. Desde que foi eleita, Dilma sonhava em colocar a engenheira química Maria das Graças Foster no comando da terceira maior empresa de energia do mundo, mas não sabia como nomeá-la sem se desgastar com Lula. Tomou a decisão em outubro quando levou Graça Foster em sua pequena comitiva na viagem afetiva à Bulgária, terra dos Rousseffs. E comunicou a Lula que a troca seria anunciada em janeiro, durante a minirreforma ministerial. Dilma explicou ao ex-presidente que confia na competência de Graça, atual diretora de gás e energia da companhia, para realizar as metas de produção de combustíveis e de exploração do pré-sal, um fator importantíssimo para o desenvolvimento do País.

    Em suma, ela põe a mão no fogo pela competência administrativa de Graça Foster. Um mês depois do encontro com Lula, Dilma autorizou que seus assessores vazassem sua decisão. Os efeitos foram imediatos. O mercado presenciou uma alta no valor das ações da estatal, como não se via havia dois anos. E o mundo político presenciou a mais nova demonstração de que a presidenta está disposta a prezar o perfil técnico nas nomeações do primeiro escalão, deixando em segundo plano as interferências partidárias.

    São vários os significados da nomeação de Graça Foster na gigante do setor energético. O principal deles é um maior alinhamento com o Palácio do Planalto e Dilma Rousseff. Graça Foster é amiga da presidenta. As duas se conheceram em 1995, ao se unirem contra a política de privatização do governador do Rio Grande do Sul, Antonio Brito, do PMDB. Anos mais tarde, Dilma era secretária de Energia do governo Olívio Dutra e negociou com Graça Foster, gerente da Petrobras, a construção de um oleoduto no sul do Estado. O zelo e a intransigência da engenheira despertaram a admiração da presidenta, que considera Graça, na Petrobras há 32 anos, um dos melhores quadros técnicos da estatal. De fato, a engenheira conhece como poucos a rotina da empresa e, muitas vezes, em caso de dúvida sobre um número ou uma decisão vai buscar informações pessoalmente nas plataformas. Sua dedicação rendeu R$ 2,6 bilhões em lucro para a estatal até setembro de 2011. O resultado da diretoria de gás e energia só não foi melhor do que o da tradicional diretoria de exploração e produção. Outro exemplo de sua dedicação quase integral à estatal: há cinco anos ela não tira férias.”Graça não só trabalha muito como cobra que todos trabalhem muito”, afirma um dos seus assessores mais próximos. Por isso, no setor de energia, Graça é vista como uma cópia autêntica da presidenta da República, principalmente pela rara disposição para o trabalho e o pavio curto diante de erros de seus auxiliares.

    Ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli vai ocupar uma secretaria na Bahia, de olho nas eleições estaduais de 2014

    Quem acompanha a engenheira de perto sabe que quando ela diz que poderia morrer pela Petrobras não está fazendo pura retórica. Espalhou-se pela estatal que das três estrelas tatuadas no antebraço direito de Graça duas representam seus dois filhos e a terceira, a Petrobras. Ela, de fato, é osso duro de roer quando está em jogo o interesse da empresa. Esse é outro significado de sua nomeação. Atendendo aos anseios do Palácio do Planalto, a empresa irá respirar trabalho e será intransigente na defesa dos seus interesses, dizem auxiliares do governo. Espera-se uma gestão eminentemente técnica. O antecessor, Sérgio Gabrielli, apesar dos elogios à sua gestão feitos por integrantes do governo durante a despedida, sempre teve no horizonte claros objetivos políticos. Tanto que, depois de sete anos na presidência da Petrobras, Gabrielli agora investirá num projeto político. Ligado ao PT e ao ex-ministro José Dirceu, ele vai ocupar uma secretaria no governo da Bahia, de onde pretende se cacifar para disputar as eleições estaduais em 2014. Graça, não. Ela é Petrobras Esporte Clube. Entre tantos exemplos, até hoje se comenta a briga de Graça Foster com a Associação Brasileira das Distribuidoras de Gás (Abegás), em abril de 2010, por causa do preço do gás natural. O insumo é cerca de três vezes mais alto no Brasil do que nos Estados Unidos, o que Graça considera um absurdo. O clima de tensão chegou a tal ponto que, por determinação de Graça, a Gaspetro, subsidiária da Petrobras, deixou a associação, apesar de dominar 45% do mercado de gás. A futura presidente da estatal disse, à época, que ficaria ao lado de quem produz, carrega e transporta gás. “Não das distribuidoras que vendem gás”, concluiu. Agora, com Graça Foster à frente da Petrobras, o mercado espera uma nova política para o preço do gás natural.

    O nome de Graça Foster será oficializado na próxima reunião do conselho de administração da Petrobras, em 9 de fevereiro. Até lá, ela prefere não fazer comentários sobre sua gestão. Mas ISTOÉ apurou com pessoas próximas a ela quais são os seus principais planos. É quase certo que, com aval de Dilma, fará um choque de gestão na estrutura e no preço dos contratos. Quando assumir a presidência da estatal no dia 14 de fevereiro, nenhuma diretoria continuará a funcionar como um feudo autônomo. Sua ideia é centralizar todas as atividades. Poucos diretores devem permanecer no cargo. Uma das exceções será o diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa. O presidente da Petrobras Distribuidora, José Lima Neto, que tem trajetória muito parecida com a de Graça, deverá ser remanejado para a diretoria de exploração e produção. Para a diretoria de gás e energia, o mais cotado é seu braço direito, Ênio Barreto. Mas o atual presidente da Petrobras Uruguai, Irani Varella, deve retornar ao Brasil para ocupar um cargo de destaque, que pode ser tanto o de Graça quanto a presidência da Petrobras Distribuidora. Na nova gestão, volta à cena José Eduardo Dutra, que presidiu a estatal entre 2003 e 2005. Para abrigar Dutra, deve ser criada uma diretoria corporativa.

    O principal desafio de Graça será aumentar a produção petrolífera, que caiu 0,9% no ano passado. Além disso, todos os olhos estão voltados para a meta de dobrar a produção até 2020 e também para a exploração comercial do pré-sal. O diretor da Coppe/UFRJ, professor Luiz Pinguelli Rosa, lembra que em 2010 a Petrobras fez a maior oferta de ações de sua história e se capitalizou em US$ 70 bilhões exatamente para explorar as imensas reservas no pré-sal. Segundo ele, toda a ansiedade é natural, mas o processo exige tempo, investimento e tecnologia. “Graça é rigorosa e preparada. Fez pós-graduação em engenharia nuclear aqui na Coppe. Ela vai dar conta da missão”, afirma. Outra missão da nova comandante da Petrobras será acelerar o plano de investimentos da estatal que prevê 688 projetos, num total de US$ 224,7 bilhões, até 2015. A Petrobras exerce papel fundamental no PAC, com cerca de 40% dos investimentos.

    Revista IstoÉ/AC



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