A cultura e a bola na rede

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  • Postado em 20 de janeiro, 2012


    » ROMÁRIO SCHETTINO

    Jornalista, é vice-presidente do Conselho de Cultura do DFComo em todos os anos, as redes de televisão mostraram profissionalismo e competência na cobertura das celebrações do réveillon de 2012 que ocorreram em vários pontos do Brasil. As festas e as queimas de fogos de artifício foram as grandes atrações da noite de 31 de dezembro em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Curitiba, Fortaleza. Enquanto isso, a capital da República foi relegada a segundo plano. As notícias que saíam de Brasília referiam-se ao movimento no aeroporto e nas estradas que daqui partem. O espetáculo da Esplanada dos Ministérios não passou, mais uma vez, de atração “local”. Alguns jornais televisivos mostraram a beleza da festa, mas o entusiasmo não estava focado aqui.

    Vale a pena se perguntar o motivo para o desinteresse dos grandes meios de comunicação. Seria por que a curta história de Brasília não lhe garante destaque no cenário artístico-cultural? Ou a política (e, sobretudo, os seus escândalos) sufoca qualquer outra manifestação desenvolvida no Distrito Federal? Ou falta maior empenho por parte de artistas e empresários para que a arte brasiliense ressoe pelo país?

    É quase certo que as três perguntas mereçam a resposta sim. Mas se esta mesma cidade se prepara para receber a Copa do Mundo de 2014, é possível propor que o empenho para evento de tão grande monta possa ser útil também para que Brasília mostre a cara que tem no campo das artes. Ou, ainda, que o legado da Copa para a cultura local seja o centro das atenções.

    A imprensa já informa que a capital do Brasil ganhará projeção internacional com o Mundial. Não só isso: de acordo com os cálculos do Sebrae, serão criados quase 60 mil postos de trabalho, com negócios que girarão em torno de R$ 1,6 bilhão. Muito dinheiro? Sim. Mais R$ 1,7 bilhão irão para a criação de infraestrutura. Isso significa que, à semelhança de outras cidades que já foram sedes da Copa, Brasília passará por remodelação completa, com melhorias de peso no aeroporto, no comércio, no turismo, hotéis, bares e restaurantes. Novas empresas surgirão. E é aí que a cultura brasiliense entra, com poder para ser parceiro importante.

    Se, conforme o prometido, Brasília chegar a ter 2.268 novos quartos de hotéis em 2014 e estiver pronta para receber os turistas, é importante lembrar que alguns dos principais destinos turísticos brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, entre outros) têm como atração, além da natureza, as produções culturais. Ora, quem vai a Salvador sabe que não irá somente à praia nem se contentará apenas em comer vatapá e acarajé: irá também ao teatro, que tem suas salas sempre muito bem frequentadas. O mesmo para Rio e Fortaleza.

    O secretário de Cultura do DF, Hamilton Pereira, afirmou que o governo Agnelo Queiroz “deve ser entendido (…) como um governo de reconstrução”. E, especificamente sobre cultura, enfatizou que o “Fundo de Apoio à Cultura (FAC) adquiriu centralidade como instrumento de fomento das políticas públicas de cultura”. Segundo ele, a democratização do acesso aos recursos públicos e a descentralização de sua aplicação “significa definir a votação do FAC como ferramenta indispensável ao desenvolvimento da economia da cultura no DF”. O FAC investiu R$ 35 milhões, por meio de editais, para apoiar iniciativas culturais nas 30 administrações regionais.

    A aprovação da lei de incentivos fiscais para a cultura, a ser enviada pelo Executivo à Câmara Legislativa, será outro instrumento capaz de alavancar o patrocínio e o investimento na produção cultural local. Eis, portanto, a chance de se unir o útil ao agradável.

    O DF está sendo reconstruído? A cultura é uma das metas? Aproveitemos, então, a vinda dos jogadores de futebol e a reestruturação que isso exige para lembrar a todos que a produção cultural gera empregos, movimenta dinheiro, forma profissionais e, sobretudo, colabora, de maneira fundamental, para criar o perfil e a personalidade de uma cidade.

    Algumas produções da capital têm aprendido que divulgar seus eventos em hotéis e pontos turísticos contribui para encher as salas de espetáculo. Mas essa mudança de perspectiva deve ser também política e empresarial, para que os artistas e a população passem a ver melhores dias. Afinal, não serão beneficiados apenas a classe artística e o público. Os senhores da política e os donos do dinheiro também têm muito a ganhar.

    Correio Braziliense/AC



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