A bola está com Aldo Rebelo

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  • Postado em 28 de janeiro, 2012


    À frente da organização da Copa e das Olimpíadas, ministro do Esporte diz que país tem condições de driblar os problemas e realizar os eventos com sucesso.

    Ele fala ainda sobre a missão de limpar a imagem da pasta e critica a Seleção» Cida Barbosa

    Com jeito calmo e a voz pausada e de sotaque carregado – herança de sua Viçosa, em Alagoas -, José Aldo Rebelo Figueiredo parece à vontade na sala que passou a ocupar ao trocar o sexto mandato de deputado federal pelo comando do Ministério do Esporte, há exatos três meses. O apaixonado torcedor do Palmeiras assumiu uma pasta cobiçadíssima, responsável por preparar o Brasil para receber dois megaeventos de interesse mundial: a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

    Aos dois desafios soma-se outro, igualmente complicado. O sereno Aldo Rebelo terá a missão de limpar a imagem do ministério, alvo de sucessivas denúncias de irregularidades. Uma delas derrubou o ocupante anterior do cargo, Orlando Silva, companheiro de Rebelo no PCdoB. Orlando foi acusado de envolvimento num suposto esquema de desvio de dinheiro de convênios firmados com ONGs por meio do programa Segundo Tempo, criado para incentivar crianças carentes a praticar atividades esportivas.

    O novo ministro já deu um rumo diferente ao Segundo Tempo e disse ter pedido à Controladoria- Geral da União (CGU) que investigasse os demais programas, suspendeu convênios, barrou nomeações de indicados por seu antecessor para cargos de confiança na pasta e avisou, em entrevista ao Correio, que mais mudanças no quadro virão por aí.

    Aldo Rebelo também previu grandes benefícios para o Brasil com a realização do Mundial e das Olimpíadas e disse acreditar que os estádios e as principais obras serão entregues a tempo.

    O alagoano de 55 anos analisou, ainda, a situação da Seleção Brasileira. A equipe, na visão dele, passa por uma crise de identidade. E anunciou que vai preparar um projeto de lei nacional do esporte. “Precisamos de políticas permanentes. Um marco legal, como você tem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Sistema Único de Saúde”, argumentou. Confira a entrevista completa.

    * O Ministério do Esporte foi alvo de muitas denúncias em gestões anteriores. Algumas atingiram diretamente o PCdoB. O senhor assumiu a pasta com a responsabilidade de limpar a imagem do seu partido e do próprio ministério. Isso tem dado dor de cabeça?

    Temos trabalhado muito em cima dos casos concretos. Hoje mesmo (sexta-feira), passei quase a manhã toda analisando processos de atividades relacionadas com vários programas, entre eles o Segundo Tempo, analisando um por um. O que devia ser cancelado, o que devia suspender, o que devia ser feito tomada de contas especiais, novas auditorias, novas investigações. Esse esforço tem de ser feito todo dia. Se não cuidar, ou os problemas acabam aparecendo ou se acumulando.

    * O senhor já fez mudanças em alguns cargos. Pretende continuar as trocas ou já acabaram?

    Não acabaram. Fiz as mudanças, num primeiro momento, emergenciais. Mas outras podem ser feitas. Não me precipito porque não há razão para isso. Acho que é preciso reciclar. Dar chance a outras pessoas.

    * Mas na Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento segue Ricardo Leyser Gonçalves, que teve as contas questionadas pelo TCU quando esteve à frente da organização dos

    Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio…

    Ele fez todo aquele esforço porque o governo federal não tinha alternativa, a prefeitura do Rio não fez. São obras que foram feitas em cima da hora, passando por cima de certas prudências, que o tempo não permitia que se levasse em conta. É uma pessoa muito competente, muito capaz. E eu naturalmente vou julgá-lo pelo que fizer agora no ministério. Vou aguardar que o Tribunal de Contas (da União), que está julgando o que foi o Pan-Americano, defina se ele tem alguma responsabilidade.

    * O senhor determinou um novo direcionamento para o programa Segundo Tempo, depois de todas as suspeitas de irregularidades. Como ficam as crianças que eram atendidas pelas ONGs sérias por meio desse programa?

    Estamos transferindo esses convênios para os estados. Algumas dessas ONGs trabalham com os estados, não dirigindo o projeto nem prestando contas, mas serviços. O problema das ONGs não é a desonestidade, porque isso é uma coisa minoritária. O problema é a precariedade na gestão dos recursos, na prestação de contas. Não têm serviço de contabilidade, de auditoria, de fiscalização. Então, o que aparece não é propriamente um crime, é a irregularidade. É uma prestação de contas que não preenche todas as exigências. Então, essa ideia de focar o trabalho do Segundo Tempo nas instituições públicas não tem o objetivo de condenar ONG. É apenas para dar mais eficácia à aplicação do dinheiro público e assegurar uma prestação de contas à altura do que é exigido pelos órgãos de controle.

    * O Segundo Tempo foi o programa com mais denúncias de irregularidades no ministério, mas há outros sob suspeita. O que pretende fazer a respeito?

    Mandei fazer um levantamento de todos eles à CGU. Não tenho o balanço final, porque não é algo feito com tanta rapidez. Mas todos serão submetidos a esse duplo escrutínio, ou seja, a essa dupla apreciação: a eficiência na prestação de serviço e a probidade. Queremos obviamente que os recursos sejam aplicados em função de seu objetivo. Queremos ter segurança de que isso esteja acontecendo.

    * Em relação à Copa de 2014, o Brasil vai conseguir entregar os estádios a tempo?

    Acompanho diariamente a evolução das obras dos estádios. Temos o cronograma sob controle. Uma ou outra está adiantada ou com promessa de entrega antes do prazo, como Salvador, que quer terminar em dezembro. Caso de Brasília também. Há uma ou outra com algum atraso, como no Rio Grande do Sul. Mas hoje em dia, tirando a terraplanagem e a fundação, o resto é quase tudo de estrutura pré-moldada. Acho que não teremos problemas.

    * Como fica o legado da Copa? Em alguns lugares, existe a possibilidade de o estádio virar um elefante branco?

    Não, porque todos são espaços multiuso. Aqui mesmo, no Estádio Nacional (de Brasília), haverá restaurantes, lojas, salas de convenções, auditórios. O entorno tem um estacionamento para 30 mil carros. Então, o futebol será apenas uma das atividades. Os shows de grande envergadura, para grandes públicos, onde é que Brasília faz? Não tem espaço adequado para isso. Faz num estacionamento, numa área aberta, mas um lugar organizado, com cadeiras, Brasília não tem. Acho que passará a ter com a inauguração do estádio.

    * Uma das preocupações da Fifa são os atrasos nas obras de mobilidade urbana – aeroportos, estradas, transporte público.

    O que está sendo feito a respeito?

    Temos um programa de mobilidade urbana que é anterior à Copa, porque há demandas de transporte e aeroportuários que independem do Mundial. Precisamos ampliar a capacidade dos aeroportos, por exemplo, porque temos uma população crescentemente usando aviões e que superou todas as expectativas. Nem as companhias aéreas nem o governo achavam, há cinco, 10 anos, que a expansão do serviço de transporte aéreo alcançaria tamanha magnitude. Temos todos os serviços programados. Vamos receber na Copa 500 a 600 mil turistas. O Brasil já recebe normalmente 5,5 milhões de visitantes a cada ano. Salvador, no carnaval, Rio de Janeiro no carnaval e no réveillon, Recife, Olinda, São Paulo. Isso tudo já exige de nós uma nova estrutura. Acho que damos conta. Todas as obras previstas de infraestrutura estarão prontas? Não tenho segurança. Mas as mais importantes, eu creio que sim.

    * A capacidade das telecomunicações é outra incógnita…

    Acho que a realização desses eventos é favorável para a expansão da economia do Brasil, da ciência, da inovação. Nas telecomunicações, por exemplo, temos de fazer investimentos, mas não por causa da Copa. Precisamos melhorar muito o serviço. Desde o funcionamento do telefone celular até a transmissão de dados, de imagens. Temos de ampliar a velocidade, a segurança da transmissão. Não podemos permitir que um evento, que será transmitido para praticamente todo o planeta, sofra qualquer risco. Mas isso, mais do que para a Copa, é importante para a produtividade e a eficiência do país.

    * Existe o perigo de restar dívida para o Brasil após o Mundial?

    Não creio. Restarão dívidas para quem contraiu empréstimo com o BNDES, mas são valores concedidos mediante todas as garantias. O governo destinou até R$ 400 milhões para os estádios ou consórcios privados, que constroem as arenas. O DF não pegou. Outros pegaram só uma parte. Isso é o que o governo está emprestando. O que está investindo, eu não considero que seja para a Copa. Tem utilidade no Mundial, mas é principalmente para o país. Vamos fazer investimentos e receber outros em função das demandas que a Copa e a Olimpíada proporcionarem.

    * Esse investimento terá um retorno?

    Creio que essa exposição de imagem, que já está acontecendo, e a capacidade de realizarmos a Copa propiciam ao Brasil o retorno que você não tem como calcular. Por que a África do Sul quis fazer o Mundial? Não é porque eles achavam que podiam ganhar a Copa. Eles queriam demonstrar ao mundo a sua capacidade de organizar, de realizar um grande evento. E com isso aumentar a confiança do mundo no próprio do país. Aos investidores, aos que fazem comércio com a África do Sul, aos turistas. Todo mundo amplia sua confiança. Acho que é com essa expectativa que devemos trabalhar.

    * Mas não preocupa o fato de que podemos falhar em algum ponto e gerar uma propaganda negativa?

    Não temos o direito de falhar e não temos por que falhar. Temos um país com uma dimensão econômica, industrial, científica, tecnológica com capacidade acumulada de realizar um grande evento. Na área de construção civil, não há estádio mais moderno no mundo do que este que está sendo construído aqui (em Brasília), de sustentabilidade, de preocupação ambiental, de uso de energia solar, de aproveitamento de água, de cuidado com resíduos. Isso está na ponta do que há de mais avançado. Então, nossa engenharia posta à prova, está aprovada. Nossa capacidade turística? Já temos São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Fortaleza promovendo eventos de grande escala e temos sido aprovados no teste. Acho que não temos como falhar, porque sabemos os nossos limites e temos os meios para superá-los.

    * A Lei Geral da Copa, que foi submetida ao

    Congresso, tem pontos que geram discordância com legislações no país. Um deles é sobre a liberação do consumo de cerveja nos estádios, exigida pela Fifa e proibida pelo Estatuto do Torcedor. Teremos de abrir exceção?

    Acho que sim. A Copa foi disputada pelo Brasil, não foi oferecida. O país assumiu certos compromissos e tem de cumpri-los. Não vejo a venda de uma cerveja num bar do estádio como um fator que possa nos levar a um impasse nesse terreno.

    * O Congresso vai encarar da mesma forma?

    Acho que o Congresso tem uma atitude cooperativa.

    * As instalações para as Olimpíadas e

    Paraolimpíadas de 2016 também estarão prontas no prazo?

    As obras estão todas planejadas. Os eventos têm um prazo maior. Além disso, só precisamos de uma arena, ou seja, só uma piscina. Você tem somente um Parque Olímpico. Não precisa fazer 12 sedes de olimpíada. A infraestrutura é concentrada. Há um entendimento grande entre o governo federal, o estadual e a prefeitura. Mas tudo isso precisa de muita atenção e acompanhamento. O Brasil não deve deitar em berço esplêndido porque a Olimpíada é em 2016. Temos de estar atentos ao cronograma e cuidar para que seja cumprido.

    * Por conta da Copa e dos Jogos Olímpicos estão ocorrendo desapropriações em algumas cidades. Pessoas têm sido pressionadas a se mudar para que obras de infraestrutura sejam feitas. Virou uma espécie de vale tudo para a Copa e as Olimpíadas?

    Não creio. Essas pessoas também têm seus direitos protegidos pela Justiça. Ninguém pode chegar à casa de uma pessoa e dizer: “Saia daqui”. Isso não existe. Essas remoções existem no mundo inteiro. Há um processo. As pessoas examinam as alternativas que são oferecidas ou negociam. Elas são transferidas para locais na mesma cidade, muitas vezes em condições até mais favoráveis do que as da área que precisa ser desocupada. E esse processo tem de ser acompanhado para proteger o direito e o interesse das pessoas, além de viabilizar essas obras, que não são propriamente da Copa: é metrô, é VLT, é melhoria de outros aspectos de infraestrutura urbana.

    * Quais são os seus planos no ministério?

    O senhor vai concentrar as atenções somente na Copa do Mundo e nas Olimpíadas?

    Não. Em julho de 2014, acaba a Copa. Em julho de 2016 (na verdade, agosto), acaba a Olimpíada. O que fica mesmo no país? Precisa ficar uma política nacional de esporte, que não seja baseada em convênio. Tem de ser baseada numa lei votada no Congresso, que distribua as responsabilidades aos entes federativos. Do que cuida o município na área do esporte? Do que cuida o estado? Do que cuida a União? Qual é o esforço que cada um faz? Precisamos de políticas permanentes. Que não chegue um ministro hoje e altere. O programa deixa de ser esse e passa a ser aquele. O convênio deixa a prefeitura e passa a ser de uma ONG. Não pode ser assim. Nós já avançamos muito ao criarmos o ministério, ao aprovarmos leis importantes, como a Agnelo/Piva, a de Incentivo. Tudo isso é muito bom, porém é necessário um marco legal, uma lei nacional, como você tem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Sistema Único de Saúde. Você precisa de uma referência dessa no esporte.

    * O senhor vai propor um projeto nesse sentido?

    Vou propor uma Lei Geral do Esporte. Prepararemos aqui (no ministério), ouvindo todas as entidades. Podemos envolver, por exemplo, as universidades, que têm excelência em cursos de educação física. Tem de atrair a academia para fazer esse debate, tem de analisar os modelos de países que já adotaram essa política. As escolas, por exemplo, nem sequer têm equipamentos esportivos. Lamentavelmente, a maioria delas foi projetada sem área destinada à prática do esporte. Na minha visão, o esporte está vinculado à escola. É lá que o estudante está mais próximo da prática. É natural que, se o ginásio, se a piscina, se a quadra, se o equipamento esportivo estiver perto da escola, facilite a prática esportiva para ele. Precisa revalorizar a educação física, onde tudo começa. Um professor que adquiriu uma formação que lhe dá uma noção geral de todos os esportes é que percebe estar ali uma promessa de alto rendimento. A escola tem de ser um ponto de partida.

    * O Brasil tem feito sua preparação extracampo para a Copa. E dentro das quatro linhas, o senhor acha que a Seleção está bem para 2014?

    Sempre preservamos nosso estilo de jogo, diferente do europeu. O nosso é mais baseado na criatividade, na técnica. E o europeu, na disciplina tática e na força física. Acho que perdemos a confiança no nosso estilo. Não conseguimos ser eficientes no estilo europeu nem temos mais êxito no nosso. É preciso que nossos especialistas – e temos grandes técnicos – examinem o que se passa com o futebol brasileiro, por que jogadores com grande desempenho em seus clubes na Europa não conseguem atuar bem na Seleção. A Seleção não consegue apresentar um esquema de jogo que nos dê segurança. Acho que o problema é a crise de identidade.

    Correio Braziliense/AC



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