A Babel que tomou conta das areias do Rio

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  • Postado em 21 de janeiro, 2012


    Nas praias, turistas estrangeiros elogiam limpeza, segurança e hospitalidade e só reclamam da água gelada

    Flávia Milhorance flavia.milhorance@oglobo.com.br

    De longe, na areia da Praia de Copacabana, o embate parecia acirrado. De perto, nada mais rotineiro do que a internacionalmente famosa prática da pechincha. Minutos depois, o vendedor estendeu seu próprio chapéu de palha ao espanhol Rodrigo Tunel.

    – Ele me pediu R$500. Naturalmente, entendi que era brincadeira. Consegui por R$15 – gabou-se Tunel, que explicou por que a insistência no chapéu do ambulante, enquanto ele tinha outros tantos exemplares à venda. – Este é muito artesanal, tem uma estética singular, que me lembra o Rio, é autêntico. Fora isso, não quero me bronzear, e este chapéu é maior.

    Se o bronzeado já foi uma tendência nas areias da Zona Sul, a cada verão o corpo menos dourado e os sotaques sem o rasgado “x” carioca ganham destaque e comprovam os crescentes números de turistas no Rio. Segundo dados da Riotur, a cidade deve atrair 3 milhões de visitantes, gerando uma renda de US$2,2 bilhões este verão. No período passado, foram 2,7 milhões de turistas e uma renda de US$1,9 bilhão. Do total de turistas, 2.262.750 são nacionais e 754.250, internacionais. A estimativa refere-se aos meses de dezembro a março, e o balanço só será divulgado pela Riotur após este período. Já de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio de Janeiro (ABIH-RJ), a média de ocupação de hotéis se manterá nos 90% neste verão.

    ‘Estou positivamente surpreso’, diz americano

    Além de incríveis belezas naturais, corpos belamente torneados e pessoas amistosas, as praias ganharam novos adjetivos dos estrangeiros, como do americano Michael Carter:

    – Estou positivamente surpreso com a limpeza e com o sentimento de segurança.

    Funcionário do navio Stena Drillmax, o escocês John Shields desembarca periodicamente no Rio há dez anos. E diz notar essas diferenças.

    – A praia está mais limpa, e a cidade, muito mais segura – afirmou.

    Acompanhado do colega Paul Walkes, ambos aproveitavam o único dia de folga e nadavam na Praia de Copacabana. A batalha entre eles e as ondas claramente era vencida pelo mar carioca. Shields contou, inclusive, já ter passado minutos difíceis em estadias anteriores. Três ondas seguidas e o andar rastejante até a areia são as suas lembranças. Ainda assim, se diz sortudo.

    – Posso dizer que temos muita sorte de ter este dia de folga no Rio de tempos em tempos. A primeira coisa que penso em fazer quando estou aqui é certamente vir à praia.

    Ainda mais integrada à cultura brasileira é a colombiana Lucía Aguirre, que tem amigos e até um ex-namorado goiano no currículo. Nem por isso, deixa de se surpreender com Copacabana, comentando sobre a faixa de areia, a curvatura “tão particular” das ondas e a cor amarronzada. Em relação à coloração, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que a praia estava liberada, mas com necessidade de se evitarem áreas com “extravasamentos de águas pluviais”. Como tem ocorrido periodicamente neste verão influenciado pela Zona de Convergência do Atlântico Sul, havia chovido no dia anterior, o que pode ter influenciado.

    Além de limpeza e segurança, mais uma característica surpreendeu nove entre dez estrangeiros entrevistados pelo GLOBO. A cidade tropical, com palmeiras, água de coco, praia e sol o ano todo, jamais poderia ter a água tão gelada.

    – Não pensei que a água fosse tão fria! Meu marido gosta de ficar no mar, eu prefiro tomar banho de sol – contou a romena Livia Rus.

    O curitibano Fernando Almeida levou a namorada alemã Helene Seller em sua primeira visita à Praia de Ipanema.

    – O Rio mexe com as expectativas, por causa das imagens que estamos acostumados a ver na mídia. Chegando aqui, é tudo aquilo que se esperava. A faixa de areia enorme, a grande quantidade de gente. A maior surpresa para ela foi o mar selvagem – disse Fernando.

    No Posto Nove, um grupo conversava de forma entusiasmada, enquanto os idiomas espanhol, português e inglês se misturavam num “portuespanglês”, que, ao mesmo tempo, servia para pechinchar o preço dos vestidos de pano e comentar sobre a galera carioca “buena onda”, ou melhor, divertida e de bom humor.

    – Está perfeito. As meninas querem comprar tudo o que veem. Ipanema tem mais gente jovem, a praia é incrível – resumiu Joselina Rodrigues, que integrava o animado grupo de sete argentinas, um alemão e um austríaco. – Acabamos de nos conhecer. Acho que o clima nos propicia isso.

    E, se não bastasse:

    – Nós nos conhecemos há quatro dias. Frequentamos a praia, saímos juntos. O ambiente do Rio é descontraído – disse o austríaco Martin Gebauen sobre o amigo alemão.

    Nas imediações da Rua Farme de Amoedo, quatro franceses revelaram o que levariam de lembrança da cidade.

    – Os homens. Os corpos fantásticos. E o táxi fácil de conseguir – brincou o francês Thierry Bruno, que ainda elogiou a diversidade. – É branco e negro, idoso e jovem, todos no mesmo ambiente. Há um multiculturalismo interessante.

    Já o casal londrino Lucy e Vish Burgul estava em lua de mel no Rio.

    – É um lugar feliz, com uma vibração boa – disse Lucy, que pegaria o voo de 21h30m, mas, pouco antes das 19h, ainda estava com Burgul na Pedra do Arpoador, apontando para a beleza do Morro Dois Irmãos. – Queremos guardar esta imagem na memória.

    O Globo/AC